Entrevista: St. Vincent fala sobre “Daddy’s Home”, Lana Del Rey, Brasil e mais

Com a proximidade do lançamento de “Daddy’s Home”, o sexto álbum de estúdio da norte-americana St. Vincent, o Portal Tracklist teve a oportunidade de conversar com a artista na última semana. A cantora contou algumas novidades sobre o novo projeto, Grammy, e é claro, a sua última passagem no Brasil. Mas antes disso, vamos fazer uma pequena retrospectiva?

Por em 2 de abril de 2021

Com a proximidade do lançamento de “Daddy’s Home”, o sexto álbum de estúdio da norte-americana St. Vincent, o Portal Tracklist teve a oportunidade de conversar com a artista na última semana. A cantora contou algumas novidades sobre o novo projeto, Grammy, e é claro, a sua última passagem no Brasil. Mas antes disso, vamos fazer uma pequena retrospectiva?

O caminho até o “Daddy’s Home”

Reinvenção é um conceito que acompanha os 14 anos de estrada da Annie Clark, ou como é conhecida em cima dos palcos, St. Vincent. Desde a sua estreia em 2007 até o seu último disco lançado 10 anos depois, Annie já mesclou os gêneros musicais mais diversos e quase inimagináveis de andar juntos. Sem medo de arriscar, a cantora norte-americana já passou pelo synthpop, electropop, rock progressivo, glam rock, e até um pouco de post-punk. Mas sem perder a sua essência e a atmosfera feita para incomodar e até com uma leve camada de “estranheza”, fora do convencional.

Foto: Iwi Onodera/UOL

Mesmo com todas essas experimentações e constantes mudanças do seu estilo musical, algo que Annie nunca deixou de lado foi a sua guitarra. Muito além de apenas um instrumento ou estilo, St. Vincent é considerada uma grande representante feminina do rock atual, que conseguiu chegar na bolha mainstream e estabelecer um respeito pela crítica especializada. Ênfase no “conseguiu chegar”, porque historicamente o rock é um segmento que abre pouco espaço para as mulheres serem devidamente reconhecidas até hoje. Com uma visão um pouco mais otimista, o cenário da indústria atual, falando do espaço do rock mainstream, tem sido um pouco mais otimista com a chegada de novos nomes que vem consolidando cada vez mais e ocupando esses grandes espaço. Nomes esses como Phoebe Bridgers, HAIM, Brittany Howard e muitas outras. Mas esse é um papo muito relevante e complexo, que com certeza renderia um texto dedicado apenas para ele.

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Daddy’s Home: do látex rosa pink ao vintage

A carreira de St. Vincent de fato começou a se consolidar entre os críticos e conquistar o seu público com a chegada do Stranger Mercy (2011), Love This Giant (2012) álbum em conjunto com David Byrne e o St. Vincent (2014), que rendeu o seu primeiro Grammy. Mais tarde, a cantora escolheu se aventurar na sua fase mais pop da carreira, com o “MASSEDUCTION” (2017), consagrando a sua parceria de produção com Jack Antonnof, que posteriormente ganharam juntos o Grammy em 2019, na categoria de melhor música de rock.

Foto: Divulgação/ Zackery Michael

Previsto para ser lançado em 14 de maio, “Daddy’s Home”, o seu sexto disco de estúdio, capta um momento mais maduro da carreira de Annie e esteticamente distante das botas rosa pink do seu último álbum lançado. Agora com cores em sepia , St. Vincent se baseou em seus filmes antigos favoritos e na Nova York caótica e em crise dos anos 70. Um momento similar ao que todos nós estamos passando. Na sonoridade é possível escutar as combinações de artifícios eletrônicos, com elementos do blues, soul, funk e glam rock, para contar narrativas modernas, com nas inéditas “Pay Your Way In Pain” e “Melting Of The Sun”.

Foto: Reprodução

Entrevista com St. Vincent

Enquanto “MASSEDUCTION”, lançado após a eleição de Donald Trump, ecoava a liberdade sexual e invocavam gritos e discursos em busca de mudanças e poder ao povo, agora quatro anos depois, em “Daddy’s Home” as indagações são outras: o que faremos com esse poder? O que faremos com toda essa rebeldia? Como construir um futuro melhor? Bom, nada melhor que a própria Annie Clark para responder esses questionamentos. Confira a nossa entrevista:

Tracklist: Sendo um grande fã das suas músicas e acompanhando por todos esses anos, nas suas composições você fala bastante sobre sentimentos, relacionamentos e a sociedade. Então, como você acha que esse estranho clima político que o mundo tem passado nos últimos anos, afetou nos temas da sua composição e na produção desse novo disco?

St. Vincent: É, nós vivemos em um tempo muito estranho. Parece que estamos em um processo de derrubar as instituições de poder ou pelo menos tentando. Mas nós ainda não decidimos exatamente o que fazer com toda essa rebeldia. Nós vamos reconstruir uma sociedade melhor, mas ainda não chegamos nesse momento. Então… eu estava meio que imaginando um prédio queimado, sabe? Nós queimamos tudo, isso é ótimo. É um começo… mas o que nós iremos construir no lugar? E eu acho que toda essa situação me remeteu a Nova York dos anos 70, com o prédio queimado e como o mundo estava caótico naquela época e com o clima econômico muito incerto.

Foto: Divulgação/ Zackery Michael

Tracklist: Acompanhando a sua carreira até agora é possível ver que em cada álbum você constrói projetos coesos e sólidos. E em cada novo projeto você sempre traz excelentes estéticas para eles. Como esse processo criativo de construir a parte visual dos seus discos normalmente funciona?

St. Vincent: Sempre vem da música. Eu sempre estou tentando contar uma história com os visuais. Eu penso a música como cores e formatos. Tem vezes que é bem claro para mim, tipo: “ah, obviamente essa é a cor do álbum porque é o que eu enxergo na minha mente quando escuto isso”, sabe? No caso de “Daddy’s Home”, eu fui bem mais específica em referenciar e me inspirar em Nova York do início dos anos 70. Então eu fui influenciada pelos tipos de personagens dos filmes de John Cassavetes e Gena Rowlands. E também pela Candy Darling, com aquela estética glamorosa e ao mesmo tempo com unhas postiças baratas. Alguém que é muito bonita, mas ao mesmo tempo pode te esfaquear caso você passe pelo caminho dela, sabe?

Foto: Reprodução

Tracklist: Falando mais sobre o seu processo criativo para esse álbum, você primeiro escreveu as músicas e depois decidiu como seriam os visuais delas, ou foi ao contrário?

St. Vincent: Bom, eu estava no Electric Lady Studios, em Nova York, com o meu amigo Jack Antonoff, porque estávamos já trabalhando em algumas produções aqui e ali. E aí eu queria que as músicas soassem como algo mais vintage e antigo. A primeira música que fizemos para o disco foi “The Holiday Party”. Eu posso escrever sobre esses temas e situações porque eu fui cada um desses personagens no disco, com as histórias e narrativas, sabe? Então, sem pensar demais, eu comecei a tocar uma guitarra e no fim do dia tínhamos finalizado essa música. E foi meio que isso. No final eu fiquei ‘oh, então é isso! Eu quero usar sons mais antigos para contar histórias modernas’.

Tracklist: Escutado ‘Pay Your Way In Pain’ e ‘Melting Of The Sun’ é possível notar duas música bem distintas, mas que ao mesmo tempo fazem sentido juntas. Enquanto no lead single do álbum nós escutamos várias influências de Blues e Funk, já em “Melting Of The Sun” é possível notar uma atmosfera mais psicodélica e um old school rock. Uma mistura bem Fleetwood Mac com Stevie Wonder, faz sentido? Conta então um pouco mais de suas inspirações por trás dessas duas músicas.

St. Vincent: Sim, faz sentido! (risos) Em ‘Melting of the Sun’ eu escrevi todas as melodias e cordas, mas demorei alguns meses para finalizar a letra dela. Eu sabia o que queria dizer com a música, mas não sabia como (risos). Então eu tentei e experimentei várias coisas. Provavelmente foi a música em que fiquei mais tempo tentando finalizar no disco inteiro. “Candy Darling”, por exemplo, eu terminei de escrever as letras e melodias em um dia. Mas sim, “Melting Of The Sun” é um grande agradecimento para as artistas femininas que vieram antes de mim, e fizeram a minha vida um pouco mais fácil, e que também eram tratadas com hostilidades e muitas vezes não receberam o credito devido. Além de serem punidas por terem uma voz própria.

Tracklist: Na última vez que você veio ao Brasil, no Lollapalooza 2019, você deu uma entrevista para a TV bem antes de subir ao palco. Eu não sei se você viu isso, mas a entrevista ficou bem popular no Twitter aqui no Brasil, porque todo mundo estava amando a química entre você e a repórter. Além de durante a entrevista, você estar tocando bossa nova no violão. Então, que tipo de música do Brasil você curte? Tem alguma música ou artista específico?

St. Vincent: Ah, sim! Eu estava tocando “Garota de Ipanema” (risos) Eu amo, é claro! Eu amo Caetano e Os Mutantes, que definitivamente foi também uma inspiração para esse projeto, em termos da psicodelia que eles faziam em suas músicas… ish, deu branco! (risos). Mas esses são os principais.

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Tracklist: Aproveitando, eu tenho que destacar como foi fantástica a sua apresentação no Grammy 2019, junto com a Dua Lipa. A química de vocês duas foi incrível, e preciso falar que vocês entregaram tudo para as gays! Inclusive, pensando no conceito do “Future Nostalgia”, o último disco da Dua, eu acho que combinaria bastante com o de “Daddy’s Home”. Então, o que você acha de colaborações? Tem algum plano ou uma colaboração dos sonhos?

St. Vincent: (risos) Sim, com certeza! Dua é uma garota tão boa, ela é um amor. Aquela performance foi muito divertida, fico muito satisfeita de ter feito aquilo! E sim, com certeza gostaria de fazer colaborações…. eu adoraria fazer algo com Dua, seria tão divertido. Nossa, me deu um branco agora… mas é, com a Dua seria ótimo!

Tracklist: Posso aproveitar e falar com quem eu acho que uma colaboração sua daria super certo? Eu acho que com Fiona Apple ou talvez a Lana Del Rey, acho que seria perfeito!

St. Vincent: Ah, obrigado! Ambas são ótimas, eu amo elas! Fiona e eu fizemos uma pequena coisa para um filme de um amigo meu. Nós gravamos um cover de “True Love Will Find You In The End”, do Daniel Johnston. Fiona cantou e o meu amigo Davi tocou piano, e eu fiz alguns backing vocals. Então, Fiona e eu meio que fizemos essa pequena colaboração juntas, mas eu amaria fazer mais! Lana é uma compositora tão incrível, ela é tão singular.

Tracklist: Você já ouviu o novo disco novo dela, o “Chemtrails Over The Country Club”?

St. Vincent: Ainda não consegui escutar! Eu falei com Jack Antonoff mais cedo, que é uma das minhas pessoas favoritas, e ele tá tão empolgado também! Então, mal posso esperar pra escutar!

Tracklist: Gosto de terminar as minhas entrevistas com uma pergunta mais divertida, então vamos lá: Annie, assim como Rihanna botou um cover de Tame Impala no seu último disco (ANTI), eu criei essa situação hipotética, em que se você tivesse a oportunidade de gravar um cover para adicionar no Daddy’s Home, qual seria?

St. Vincent: Hum.. seria “Dirty Work”, do Steely Dan. Eu acho que tem uma vibe similar e é uma das músicas que me inspirou pro álbum.

Tracklist: Annie, muito obrigado. Foi ótimo, adorei ocnversar com você. Eu tenho que falar que sou um grande fã do seu trabalho. O seu último show aqui no Brasil foi incrível e inesquecível, espero te ver logo. Boa sorte com o disco e se mantenha segura.

St. Vincent: Ah, muito obrigada! Você também, foi muito legal falar com você!

Foto: Divulgação/ Zackery Michael

“Daddy’s Home” chega em todas as plataformas digitais no dia 14 de maio. A pré-venda e pré-save do disco já está disponível aqui.


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