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Entrevista: Rashid reflete sobre o Brasil atual e a mobilização do rap nacional

Rashid
Rashid

Há anos, Rashid tem se firmado entre os mais importantes nomes do rap nacional com discos e músicas de grande sucesso, levantando bandeiras e abrindo caminhos para o hip-hop por meio de suas rimas. Durante os últimos meses, porém, o cantor passou pelo maior intervalo de sua carreira sem materiais inéditos, mantendo-se em isolamento e escrevendo novas obras.

Em “Diário de Bordo 6”, lançada na semana passada, o rapper paulistano não desperdiça nenhum verso em seu retorno. A faixa retoma o formato de uma de suas séries mais antigas para refletir sobre o atual cenário do Brasil no mundo, relatando as diversas crises pelo país e amarrando diversos temas na mesma composição.

Em entrevista exclusiva ao Tracklist, Rashid contou um pouco mais a respeito de seu novo lançamento e as motivações por trás dele. “Talvez a arte não esteja retratando exatamente o momento que a gente tá passando de uma forma muito fiel ou muito explícita, vamos dizer assim”, afirmou. “Em 2020 eu resolvi voltar com a ‘Diário de Bordo’ […] Resolvi voltar e fazer uma, porque eu tava sentindo essa necessidade.”

A música é produzida por DJ Caíque, que também participou das demais partes do “Diário de Bordo”, e a participação de Chico César, um dos grandes ídolos do MC. “Ele pegou minha melodia, e na verdade ele melhorou a minha melodia, né?”, disse sobre a experiência. “E aí, só depois que eu me toco, né? Que eu penso assim: ‘caramba, é o Chico César com quem eu tô falando aqui e eu tô trocando mensagem, que vai fazer a música comigo'”.

Rashid também analisou as crises pela qual o Brasil tem passado e comentou sobre a mobilização da música diante das tragédias cotidianas que a sociedade tem enfrentado, como o genocídio negro e a pandemia do coronavírus. “Se meu público tá morrendo, qual o sentido de eu querer fazer um show, de eu querer lançar uma música e bombar nos charts, entendeu? As coisas perdem um sentido, então acho que é desse ponto que a gente precisa examinar nossa própria consciência e falar ‘mano, peraí, preciso dar uma ideia’”, contou.


Leia a entrevista com Rashid na íntegra:

TRACKLIST: Primeiramente, muito obrigado pela entrevista, Rashid! Nós do Tracklist gostamos muito do seu trabalho, é uma honra estar conversando contigo. A gente tá gostando muito de ouvir o “Diário de Bordo 6” e esperamos destrinchar ele um pouco melhor nessa entrevista. Como você tá?

RASHID: Tô bem, mano, tamo aí. Obrigado pelas palavras, obrigado pelo espaço, vim aqui hoje no meu estilo Jesus (risos) pra pregar um pouco sobre o “Diário de Bordo” pra vocês, mas tamo aí, mantendo a mente ocupada, acho que é o que interessa e que tá mantendo a gente são nessa pandemia.

TRACKLIST: Você mencionou nas suas redes sociais que esse provavelmente foi o maior intervalo de tempo da sua carreira sem lançar nada inédito, né? Foi quase um ano e meio desde o “Tão Real”. Pra você, como que tem sido gravar e compor durante a pandemia e como isso refletiu na sua música?

RASHID: A gente tinha acabado de lançar um álbum quando começou a quarentena, que foi o “Tão Real”, então de certa forma, mesmo que a gente não teve a oportunidade de rodar o Brasil com o disco, ele ainda tava muito novo, muito recente, andando bem e fazendo o seu barulho ali e tal. Acho que o disco, talvez até por causa da quarentena, não temos como saber exatamente, mas eu senti que ele continuou andando muito bem, né? Vamos dizer que talvez as pessoas tenham encontrado algum refúgio ali, assim como eu busquei refúgio em outros discos.

Quando começou a quarentena, nos primeiros meses, eu acabei entrando num ritmo super produtivo de música, mas porque eu tava um pouco perdido em como eu ia adaptar minha rotina à essa coisa de não poder mais sair pra cumprir meus compromissos, as reuniões, as entrevistas no caso, ou gravações, ou até mesmo só sair e encontrar com alguém ou ir pro estúdio, sabe? Nada disso mais ia fazer parte da nossa rotina por um bom tempo. Nesse momento aí que eu tava um pouco com a mente bagunçada em relação ao que fazer, eu produzi muito, fiz muitos instrumentais e gravei muito, então vamos dizer que isso já começou afetando por esse lado. Eu encontrei mesmo um refúgio ali na música e fiquei fazendo uma pá de música e mandando pros meus amigos no WhatsApp, meio que como se fosse um começo de carreira mesmo! (risos) Várias músicas mais good vibes assim, numa coisa mais positiva, por estar procurando esse remédio na música e também querendo levar essa cura pro pessoal.

Vários dos meus amigos tiveram crise de ansiedade, os que tavam se recuperando de quadros de depressão, vários deles voltaram com os momentos mais pesados de depressão. Eu queria, de certa forma, também entregar um pouco desse chá pra eles, assim “ó, toma aqui, se liga nesse som que eu fiz aqui pra mim!”, mas sabendo que isso poderia causar um efeito pras pessoas. Então, naqueles três primeiros meses de quarentena, eu fiz muita música, eu praticamente fiz um disco que as pessoas nunca vão ouvir. Porque são músicas que eu tava fazendo ali e tinha a ver com o momento, sabe? São músicas ingênuas — uma ou outra assim, acho que tem umas três, dentre umas onze ou dez músicas, que vão acabar saindo em algum momento porque realmente ficaram muito boas e tem muito a ver com o que a gente tá procurando pro trabalho do Rashid pro futuro. Mas a maioria delas são músicas muito ingênuas, era quase como pegar um violão e sair tocando. Então, nesse primeiro momento, já me afetou dessa forma.

Num segundo momento, foi diferente, que já foi um lance de “beleza, o que que eu vou falar agora?”, porque tudo que eu falo é muito baseado em vivência, em estar na rua e conviver com as situações, com as ocasiões e com as pessoas e trazer histórias novas pra casa. E aí eu tô aqui, né? Uma coisa que eu acabei reparando é que várias dessas músicas que eu tava produzindo, elas têm um ponto de partida muito próximo, que é muito: “eu vendo, eu ouvindo, eu fazendo”, e aí eu comecei a reparar nisso, mas como fazer diferente? Se tava tudo partindo desse “eu” dentro da minha casa, trancado no meu quarto, né? Então eu sinto que várias dessas músicas que eu criei na quarentena têm isso também, mas acho que acaba sendo um retrato mesmo, faz parte do momento. Acho que a pessoa que ouvir e souber disso que eu tô falando, talvez vá ter essa percepção: “ó, o Rashid falou disso aqui e realmente, ele tava preso dentro de casa, imagina, você só vendo o mundo a partir da sua janela”, então tudo parte de você, mesmo quando você quer contar histórias isso acaba partindo de você. Não é uma super influência externa ali provocando outras emoções, sabe?

TRACKLIST: A gente espera ouvir várias dessas músicas logo! Você comentou sobre ter encontrado refúgio em outros discos também, o que mais você tem ouvido durante esse período?

RASHID: Cara, eu já tava numa coisa, num processo de descoberta do reggae, por exemplo, que era um ritmo que eu não ouvia tanto há alguns anos atrás, e já faz uns três anos que eu já tava nesse mergulho mais profundo no reggae, conhecendo outros artistas e estudando um pouco a cultura, né? Eu tive a oportunidade de fazer uma música com o Dada Yute pro meu disco anterior, e o Dada Yute é um nome muito respeitado no reggae brasileiro. Nessa música, tem nosso parceiro Sérjão [Sérgio Tafari], que é um rastafari das antigas que é um poço de conhecimento, então ele começou a me indicar muitos livros. Acabei mergulhando nessa coisa assim dos rastafaris, sabe? Buscando, pesquisando mesmo — por exemplo, a gente pega pra entender os porquês do Bob Marley falar algumas coisas que ele falava, e você vai entendendo uma riqueza maior do que a gente realmente tava vendo ali na obra do Bob. A gente sempre ouve os mesmos hits, mas tem tanta coisa ali quando você pra pesquisar as letras e tal, e não só ele, porque ele acaba sendo o maior ícone da parada, mas muitos outros artistas, inclusive artistas novos do reggae. Eu gosto muito do Chronixx, do Protoje, da Koffee, da Lila Iké, enfim. 

Mas aí, música brasileira, mais do que nunca, sempre recebendo um abraço indireto do Gilberto Gil, porque eu acabei escutando muito, muito, mas muito assim. Gilberto Gil é minha trilha das manhãs na maioria dos dias, vou pro quintal tomar um sol com os cachorros, jogar água nas plantas escutando Gilberto Gil, é isso, usando música muito como um refúgio mesmo. Música brasileira mais do que nunca, um pouco de jazz, tentando descobrir uns artistas novos — trocando com meus camaradas, eles indicando algumas coisas e eu indicando outras que eu vou descobrindo. Acabei descobrindo algumas coisas de música brasileira que eu não conhecia, artistas tipo Ana Mazzotti, ou Os Diagonais, que trouxeram o soul brasileiro, onde já passaram o Hyldon, e se eu não me engano o próprio Cassiano já passou por lá, e eu não conhecia o disco, né? Se eu não me engano, tem um disco só, não sei se tô falando besteira, mas você acha facilmente ali nas plataformas, então foi um outro mergulho ali no disco dos Diagonais. 

Algumas coisas, algumas descobertas, pouco rap no geral, né? Mas é isso, a gente se alimenta de outras coisas pra fazer nosso rap, eu ouço bastante rap também mas o rap é mais a minha música da rua, né? É mais aquele som de ouvir no carro quando você sai na correria, segunda-feira de manhã que você tá precisando daquela motivação, tá ligado? Você já mete aquele Mano Brown e fala “mano, agora vai, tio!”, um Jay-Z e tal. Como eu tô muito dentro de casa, acabo ouvindo outras coisas, buscando outros refúgios.

TRACKLIST: Falando sobre o “Diário de Bordo 6”, esse é o primeiro volume da série desde 2015. Qual que foi o momento que você sentou pra escrever e você percebeu que você precisava chamar o Caíque e voltar com a série?

RASHID: Desde 2016, quando houve aquele momento político muito controverso da história brasileira ali, o pessoal já começou a me pedir, né? (risos) Acabei de encerrar e falei “acabei, hein!”, no ano seguinte acontece tudo aquilo e o Brasil começa a degringolar politicamente — não que antes era uma maravilha, né, mas a gente já teve anos mais estáveis, principalmente se comparados com esse ano de agora. O Brasil começa a degringolar e as pessoas começam já a me cobrar assim! (risos) Tipo “mano, eu acabei de fechar o diário aí e vocês já tão pedindo pra eu abrir?”. Mas desde então, eu tava “tranquilo” no sentido de não fazer mais uma “Diário de Bordo”, porque eu também tava explorando esse tema em outras músicas, tem outras músicas do Rashid que falam sobre esse tipo de coisa, porque a “Diário de Bordo” se firmou mesmo como o palanque da manifestação ali pra eu falar e tal. Mas eu já tava me expressando em outros lugares, não queria mais tirar do baú a sequência.

Porém, veio o resultado das eleições de 2018, e toda a política controversa, no mínimo e falando de um jeito bem modesto e humilde, né? Bom, falando por mim aqui, uma política genocida, uma necropolítica, principalmente depois que veio a pandemia, e aí chega a pandemia. Assim, não seria fácil pra ninguém, poderíamos ter o melhor presidente da história do Brasil ali no comando nesse momento e seria um momento muito difícil com a chegada da pandemia, mas é o contrário, né? A gente tem possivelmente o pior deles, e a pandemia sendo tratada aqui no nosso país da pior maneira possível. 

Acho que chegou num ponto que a coisa atingiu mesmo a tampa ali, né? Começou aquela força pra furar a bolha e o Rashid já nessa, sentindo essa pressão de “bom, talvez precise chegar o momento de reabrir esse diário”, só que mais por um pensamento de que talvez algumas músicas assim… Tô sendo muito bonzinho, né? (risos) Talvez a arte não esteja retratando exatamente o momento que a gente tá passando de uma forma muito fiel ou muito explícita, vamos dizer assim. São poucos os artistas que têm de fato retratado esse momento, inclusive pra que isso seja um ponto de referência histórica no futuro, né? Que as pessoas possam olhar pra trás e encontrar referência histórica nisso que a gente tá fazendo agora, a gente não vê muitos discos, muitas obras falando do momento que a gente tá vivendo, e eu tava sentindo um pouco dessa falta também.

Misturando tudo isso, em 2020 eu resolvi voltar com a “Diário de Bordo”, na verdade fazer essa sexta edição, não é nem que eu quero voltar a fazer periodicamente, tá ligado? Resolvi voltar e fazer uma, porque eu tava sentindo essa necessidade. Porém, em 2020 eu não consegui escrever, não consegui compor essa música, não tava rolando, não tava entrando naquele estado de flow em que as coisas se encaminham, tá ligado? E aí no comecinho de 2021, o DJ Caíque me mandou um instrumental muito certeiro, que a gente já tava tentando faz um tempo, mas aí ele me mandou esse e foi muito certeiro, foi matador. O primeiro passo sólido no caminho da composição da “Diário de Bordo” foi o DJ Caíque ter acertado esse instrumental, porque eu já tinha umas ideias, e aí foi o momento que “pá, é isso aqui mesmo!”. Isso foi logo nos primeiros dias de janeiro desse ano.

TRACKLIST: A música também tem a participação do Chico César, que é um dos grandes ícones da nossa cultura. Como que aconteceu esse contato entre vocês dois e como foi gravar ao lado de um dos maiores símbolos da música brasileira?

RASHID: Cara, isso é um absurdo, né? Eu fico pensando nisso. O Chico é um mestre, é um cara que tem uma importância muito grande na música brasileira, o mestre de toda uma geração, de toda uma escola de música brasileira que vem inspirada nele e vem por causa dele e hoje corre do lado dele. É um cara grandioso com uma caneta absurda e tá numa música do Rashid com uma base do DJ Caíque, entendeu? (risos) Isso é um absurdo pra mim!

Eu tive a oportunidade de conhecê-lo nos bastidores de alguns shows que a gente fez em 2019, e depois em 2020. O último show que a gente fez foi do QuilomboLAB, foi o trio elétrico de carnaval do Laboratório Fantasma que rolou aqui na Zona Norte, e o Chico tava. A gente se trombou ali nos bastidores, tanto no ensaio quanto no show, e foi da hora assim, trocamos uma ideia, nada demais também, foi aquela vivência de camarim, dando umas risadas e todo mundo falando umas besteiras. Saudades de um camarim, viu? E aí eu tive a oportunidade de entrevistar ele, durante 2020 já, lá na LAB Fantasma TV, na Twitch. Eu tinha um programa lá chamado “Conexão LAB”, às terças-feiras, fui convidado pelos meus irmãos lá da Laboratório Fantasma pra apresentar esse programa e ali eu tive a oportunidade de entrevistar muita gente foda da música brasileira, e o Chico foi um desses caras. A entrevista com ele foi absurda, absurda, absurda de boa, nossa energia bateu da hora assim, e assim que terminou a entrevista a gente já trocou telefone porque a energia bateu muito naturalmente. Então eu “pô, Chico” e ele “Rashid, anota o meu número aí e tal”, anotei o número dele rapidão e tudo isso enquanto passava a vinheta pra se despedir do convidado. Depois de uns dias, eu mandei mensagem pra ele e a gente ficou mantendo aquele contato, sempre com essa promessa de fazer alguma coisa juntos mas até então nunca tinha surgido nada.

Quando eu comecei a pensar nessa “Diário de Bordo”, quando ela já tava mais firme e mais sólida, que eu já tinha em mente que essa música ia sair, eu tava ouvindo o instrumental e compondo a música ali, e comecei a cantarolar uma melodia, que começou a me lembrar muito o jeito do Chico cantar, porque carregava um pouco da melancolia que ele traz e lembrava o timbre de voz dele, aí eu falei “é essa música aqui que eu tenho que chamar ele, vou tomar vergonha e chamar!”. Eu mandei pra ele, acho que foi numa terça-feira que eu mandei a mensagem, “e aí Chico, tô fazendo uma parada aqui, acho que tem a ver com você” e ele “pô, irmão, me manda aí, quero ouvir”, e eu não tinha terminado de escrever a música ainda. Na quarta-feira, eu terminei de escrever, gravei, editei, terminei na quinta-feira de manhã, mandei pra ele a música e ele já me respondeu empolgado: “pô, irmão, obrigado por ter me chamado pra fazer uma coisa tão forte assim”, e aí eu já fiquei feliz, né? Aí eu respondi ele, tipo “pô, mestre, que honra que você gostou”, daqui dez minutos ele já me respondeu tipo assim “pô, escrevi isso aqui, vê o que que você acha!”. Em meia hora, ele escreveu e resolveu. 

Nem nos meus melhores sonhos, nas minhas melhores projeções, eu imaginava que ia fazer uma música com o Chico César, que ele ia topar, que ele ia fazer e gravar tão rápido assim, porque isso é sempre um segundo passo, né? A pessoa topar é uma coisa, mas várias vezes você conseguir gravar e finalizar o som é outras ideia, né? No final das contas, eu mandei a minha ideia de melodia pra ele e eu me lembro dele falando alguma coisa na minha entrevista com ele, que era que às vezes ele tinha a maior dificuldade de colocar a letra na melodia dos outros, e eu já mandei a mensagem falando “ó, eu sei que você falou tal coisa, mas…” (risos) E ele pegou minha melodia, e na verdade ele melhorou minha melodia, né? Eu não sou um grande cantor de melodias, eu crio melodias mas todas baseadas no meu conhecimento musical, então ele pegou a minha melodia, melhorou, tá ligado? A minha tava 40% ali, ele transformou a melodia a 110%, tipo assim, “agora o bagulho tá pá, Rashid!”, e mandou com a letra já e tal. Então eu fico ainda mais feliz dele ter usado o princípio da minha ideia ali, tá ligado? E aí, só depois que eu me toco, né? Que eu penso assim: “caramba, é o Chico César com quem eu tô falando aqui e eu tô trocando mensagem, que vai fazer a música comigo”. Isso é absurdo, cara! Isso é absurdo.

TRACKLIST: Você soltou o primeiro “Diário de Bordo” lá em 2010, e desde então você tem se tornado cada vez maior no cenário musical. Com toda a vivência e a experiência que você acumulou nesse intervalo de tempo, quais as principais diferenças que você sente, pessoalmente, do Rashid lá de 2010 pro Rashid de hoje?

RASHID: Eu acho que a série “Diário de Bordo” é o lugar perfeito pra você olhar e acompanhar essa evolução do Rashid. Exatamente em 2010, foi quando eu lancei o meu primeiro EP, então eu tava bem no começo ali das coisas mesmo, e vai até 2015, e eu tive uma maratona de lançamentos. Lancei o EP em 2010, mixtape em 2011, 2012, 2013, 2014 lancei um EP com o Kamau e 2015 foi um ano sabático, assim, mas porque eu tava produzindo o meu álbum que saiu em 2016. 

Eu acho que a maior diferença é o lance que, em 2010, eu era um jovem de 22 anos com muita vontade, muita fome e muito desejo de mudança, mas não tinha o conhecimento e a bagagem que eu tenho hoje de vivência, tanto com outros músicos quanto com outras grandes mentes por aí que me inspiram. Não tinha a bagagem intelectual que eu tenho hoje, as coisas que eu li até aqui eu não tinha lido até aquele momento, então você vê que o grito é verdadeiro ali, mas ele é ingênuo ao mesmo tempo, né? Ele não tem a argumentação que a gente foi adquirindo com o passar dos anos, então você tem uma revolta ingênua, tá ligado? Opiniões políticas que ainda não têm o embasamento técnico e intelectual mesmo, vamos dizer assim. É simplesmente “irmão, olha o que tá acontecendo aqui, tá errado”, é muito mais a vontade de mudar as coisas, e acho que as primeiras “Diário de Bordo” têm isso em comum.

A partir da 4, eu sinto que você já começa a ter uma coisa mais embasada, um argumento mais embasado, mais objetivo, mais direcionado, sabe? Menos aquela coisa do sistema e mais direcionado a determinados pontos. Essa chavinha aqui que tinha que virar, e aquela chavinha ali, e “ó, na rua tá acontecendo isso, tal bagulho tá errado, tal coisa tá errada, tal parada precisa ser mudada”, acho que a partir da 4 e a 5 também, você consegue perceber “ó, parece que o Rashid adquiriu uma bagagem aqui, né?”. Já tem um discurso mais direcionado, mais coeso, já é uma coisa que já dá pra mostrar por mais velhos, tá ligado?

Eu acho que a 6 é, bom, das “Diário de Bordo”, é o ápice dessa coisa de você ter um discurso de fato. Mas eu acho que a causa também é muito explícita, né? A gente tem duas coisas acontecendo, Bolsonaro e coronavírus, e tudo que cerca isso. Então é muito explícito, o alvo tá muito bem marcado, isso também ajuda o discurso a ser mais coeso e mais sólido, eu acho que essa é a maior diferença. E o poder de síntese vai ser o maior ponto de evolução que as pessoas vão sentir ouvindo as “Diário de Bordo”.

TRACKLIST: Você comentou sobre não ter muitas obras a respeito disso no rap, e inclusive me lembrou uma parte da música em que você fala sobre “vários no rap tirando uma sesta”. Não sei se foi sua intenção, mas hoje em dia vários artistas são cobrados por posicionamento diante do que a gente vive hoje. Qual você acredita que deve ser o papel não só do rap, mas da música brasileira como um todo, em relação à crise pela qual a gente tá passando hoje?

RASHID: Eu não coloco sobre o rap uma pressão que se colocava desde sempre na história, sabe? Muito por causa da imagem que o rap dos anos 90 criou e perpetuou, que é a imagem do rap sempre consciente, que dá sempre aquela ideia e tal, sempre muito politizado, até porque isso trouxe muitas coisas positivas, mas trouxe muita gente que falava por falar aquilo ali, tá ligado? Aí, de repente, o pessoal tava dando todas aquelas ideias ali no começo dos anos 2000, vamos dizer assim, inspirados por essa geração noventista, e aí quando chega a eleição aí de 2018, por exemplo, vários caras defenderam o Bolsonaro, sabe? Você via que os caras tavam falando o bagulho meio porque que era um kit do rap, tá ligado?

Eu não acho que deve haver essa obrigação do cara do rap ser um cara político, ser um cara posicionado, entendeu? Eu não acho que deva haver essa obrigação. Mas eu acho que o hip-hop nasceu com uma intenção, né? Nasceu da cultura das gangues em Nova Iorque, já nasceu de ações que estavam sendo feitas pra apaziguar a guerra entre gangues ali numa comunidade, tá ligado? Ele já nasceu com uma intenção assim, de empoderar e dar voz praquelas pessoas das comunidades ali, no princípio nos Estados Unidos, e depois foi expandindo pra outros lugares até chegar no Brasil, onde ele ganhou esse cunho mais social ainda, mais racial ainda e mais pesado ainda. Eu acho que a gente tem uma responsa, não acho que, tipo, seja “não, peraí, vamos chamar qualquer artista do rap que nós pode chamar aqui e falar de política que os cara vai desenrolar”, não é assim. Também não acho que tenha que cobrar mais dos artistas do que tem que cobrar dos deputados, dos vereadores, dos prefeitos e especialmente do presidente que as pessoas elegem. A pessoa não lembra nem em quem ela votou pra deputado, mas ela vai lá cobrar o Mano Brown, o Emicida, o Criolo ou o Rashid por alguma coisa que tá acontecendo, “e aí, vocês não vão falar nada disso aqui não, tio?”. Não, não é isso, tá entendendo errado.

Agora, enquanto artista, eu acho que o artista tem que olhar pra dentro, cara. O artista tem que entender de onde vem o público dele, o artista tem que entender o que que ele tá fazendo, onde ele está, que universo é esse chamado “hip-hop”, que música é essa, seja o rap tradicional como a gente conhece ou o trap que tem a mesma origem, o público vem basicamente dos mesmos lugares e corre os mesmos riscos quando tá na rua, ouvindo o discurso ou não. Eu acho que cabe ao artista fazer um autoexame de consciência e falar “mano, peraí, tem algum bagulho acontecendo”. 

Meu público é esse aí da quebrada. Quando meu público vai pro meu show, ele sai sexta, sábado, domingo, quinta-feira à noite, dez horas da noite lá da casa dele, numa quebrada, e sai correndo risco, especialmente os de pele escura, especialmente o meu público preto. Saem correndo risco, chegam no show correndo risco e vão embora correndo risco, entendeu? A gente já teve várias notícias aí infelizmente, se eu não me engano em 2018 teve uma notícia de uns meninos que eram de uma batalha lá no Rio de Janeiro, que tavam voltando de um show do Projota, inclusive, e foram mortos na volta pra casa, tá ligado? Os moleques que eram agitadores culturais, organizavam a cultura hip-hop no local, faziam a batalha. Então, os artistas precisam fazer esse exame de consciência e tipo assim, “mano, peraí, eu acho que a gente tem uma voz grande aqui”, ou “eu tenho 300 mil seguidores, 500 mil, 1 milhão, 5 milhões de pessoas ali me ouvindo, acho que de vez em quando eu posso falar um bagulho aqui pra pelo menos chamar a atenção das pessoas aí pra alguma coisa”, né, fazer elas virarem aquela chavinha, fazer elas prestarem atenção que alguma coisa tá acontecendo. E aí eu acho que tem esse papel que é necessário.

Nem todo mundo vai fazer, não adianta a gente achar que todo mundo vai fazer, e nem todo mundo que fazer vai fazer bem também, não adianta a gente achar que todo mundo vai saber dar o maior discurso político e social com a maior consciência de classe, vai conseguir plantar a semente da revolução na mente das pessoas. Mas a gente precisa saber que alguém precisa fazer, tá ligado? E não dá pra ser um número de artistas tão pequeno como o que tem sido, acho que tem muita gente que tem muita inteligência aí pra falar, pra se posicionar, inclusive tem conteúdo, tem discurso, tem ideia pra trocar, e muitas vezes não se posiciona por ter um pouco de medo às vezes de perder um seguidor, perder um público, tá ligado? 

Mas eu acho que o que tem acontecido hoje, a situação em que a gente tá passando no nosso país, ela é além disso tudo. Se meu público tá morrendo, qual o sentido de eu querer fazer um show, de eu querer lançar uma música e bombar nos charts, entendeu? As coisas perdem um sentido, então acho que é desse ponto que a gente precisa examinar nossa própria consciência e falar “mano, peraí, preciso dar uma ideia”. Mas o público precisa entender que o artista não é político, o artista é artista, e às vezes ele vai dar a opinião política dele e nem sempre você vai concordar, então se a gente quer que os artistas falem, a gente tem que ter isso em mente também, que nem sempre a gente vai concordar.

TRACKLIST: Isso que você falou da pressão popular me lembrou os protestos do “Black Lives Matter” no ano passado, quando muita gente foi falar que o Kendrick Lamar, por exemplo, não se posicionou e não postou nada nas redes, sendo que a vida inteira ele falou sobre isso, né?

RASHID: Exato, exato! E é louco que ele tava lá, uns dias depois surgiu uma foto dele lá, tá ligado? Isso é uma doideira porque é aquilo, né? É a ansiedade das redes sociais em dar uma sentença, e é isso. Tipo, você tava escutando o cara falar a vida inteira disso na obra dele, irmão, e aí de repente você não viu ele lá na manifestação e você tá desqualificando todo aquele trabalho que ele fez? E inclusive fez a música da década, que virou um hino do movimento em determinado momento ali, e aí de repente você desqualifica o trabalho do cara. É complicado também, eu acho que pros dois lados a gente tem que pesar quando a gente vai dar uma ideia, tá ligado? Porque não é todo mundo também que pode, né? Às vezes as manifestações tavam ocorrendo já enquanto tava rolando a pandemia, às vezes o cara tem uma pessoa do grupo de risco dentro da casa dele e precisa tomar esse cuidado especial, e fala “puts, não vai dar pra ir porque é arriscado demais”, entendeu? Nem essa sensibilidade a gente tem agora, porque a gente quer falar, a gente quer bater o martelo e dar uma de herói ali, né, mano?

TRACKLIST: Ontem, aconteceram os protestos do 13 de maio pelo país contra o genocídio negro e o racismo no Brasil e as mobilizações repercutiram bastante nas redes sociais entre artistas, ativistas e influenciadores. Você sente que a pauta avançou, está sendo mais discutida e debatida em um espaço maior e sendo entendida por mais pessoas?

RASHID: A resposta objetiva, eu acho que é “sim”, a pauta ganhou espaço… Não sei se “ganhou” é a palavra certa, mas a pauta lutou, conquistou esse espaço, né? Foram arrancados muito sangue, suor e lágrimas por um espaço maior pra que se falasse dessas coisas, pra que as pessoas vejam o que tá acontecendo, tá ligado? Mas, ao mesmo tempo, as tragédias também parecem ter aumentado, né? O ódio cresceu, a violência cresceu, o discurso de ódio teve uma guinada nos últimos anos, então isso faz com que a pauta e as causas também ganhem mais voz, porque a gente precisa gritar mais alto daqui também porque eles tão gritando do lado de lá, sabe? Então, com certeza.

O lance é como a gente tá enfrentando isso, né? Como a gente luta contra isso, tá ligado? Como a gente vai se organizar. Ontem, a gente tava lá, eu estive lá na manifestação de ontem. A gente montou um grupo pra colar lá, o Emicida, o Fióti, eu, o pessoal ali da Laboratório Fantasma, a gente fez o vídeo oficial, inclusive, pra essa divulgação, a gente que montou o texto-manifesto. É um pouco da nossa forma enquanto artistas, eu percebo que o artista pode dar uma força muito grande se ele se prestar a dar esse suporte pra mobilização. Ali tem pessoas que vivem isso, né? São causas de uma vida ali, então é um pessoal que entende e sabe como essa estrutura funciona. 

A gente voltou discutindo isso juntos e tinha feito um grupo especial pra poder organizar as coisas pra essa mobilização. Hoje, quando eu acordei, já tava tendo um debate ali no grupo, várias coisas, várias situações e tal, aí eu falei “eita nós”, tomei um café da manhã conversando ali (risos) Porque tem essas duas coisas, nossa capacidade de organização e nossa capacidade de mobilização, e acho que ato atrás de ato, a gente prova nossa capacidade de mobilização, que a gente consegue juntar muita gente em vários lugares do país e do mundo, porque houveram movimentos em Londres e em Nova Iorque, e com certeza devem ter rolado movimentos em outros lugares que tavam agregados à essa mesma causa e à coalizão negra por direitos.

Eu acho que, agora, essas cabeças todas precisam se juntar pra buscar um resultado prático, e eu acho que esse resultado prático vai vir dessa capacidade de organização, dessa coisa organizacional, porque a gente tem capacidade também e já se mostrou capaz muitas vezes, tá ligado? Acho que vai vir daí uma mudança em termos práticos. Ontem, uma das causas dessa manifestação era a construção de um mecanismo de — não sei se “controle” é a palavra exata, mas eu vou usar — controle social da atividade policial, entendeu? Isso é uma coisa interessante, complexa e pode ser muito importante, sabe? Eu acho que a gente se mobilizou e agora é hora, de repente, da gente se organizar e esse “a gente” pode nem envolver o Rashid, mas eu me sinto envolvido lá já, mas envolver essas cabeças que vão pensar e vão desenvolver essa parada, e o Rashid tá aqui pra dar essa suporte com o nome que tem, com o peso que tem, com as ideias que tem, tá ligado? Acho que eu até fugi da resposta um pouco, mas é isso. Eu acho que ganhou um espaço, mas ganhou porque o discurso de ódio também ganhou, então não é exatamente uma coisa pra se comemorar, a gente tem que ficar é ligeiro e continuar, daqui, se mobilizando e se organizando.

TRACKLIST: Pra encerrar, eu gostaria de te perguntar o que, depois da “Diário de Bordo 6”, a gente pode esperar do Rashid pelos próximos meses?

RASHID: A “Diário de Bordo” é uma parada que, tipo assim, a gente tá iniciando uma nova década e ela tá muito alinhada com o que a gente imagina pra carreira, né? Um passo à frente artisticamente falando, porque a gente traz o Chico César, a gente tem um discurso melhor, a gente tem um baita de um resultado em cima disso, as pessoas falando, isso gerando debates e discussões — comentários negativos também, mas acho que isso acontece e faz parte da conversa. Mas, ao mesmo tempo, ela faz parte de uma sequência da década passada, então ela também transmite um pouco dessa energia da década passada, vamos dizer assim. Na prática, não mudou nada, mudou de um dia pro outro no calendário, mas artisticamente falando, a gente tá procurando essa “próxima coisa”. Os artistas que eu mais admiro sempre têm uma próxima coisa pra nos apresentar, seja o Gilberto Gil ou o Mano Brown, tá ligado? 

E aí a gente tá nessa aqui e eu tô nessa aqui também, “qual a próxima coisa coisa que eu vou apresentar pras pessoas?”. Eu tenho coisas incríveis aqui, tem coisas que estão mais na linha da “Diário de Bordo”, essa linha do peso, não necessariamente que se parece em textura ou em timbragem, mas nessa linha do peso, nessa linha da ideia, porque sempre vai fazer parte do meu trabalho jogar esse anzol pra fisgar na alma mesmo. Mas a gente tá buscando essa evolução, essa próxima coisa, tá ligado? A gente tá estudando muito pra isso e temos coisas já! Temos coisas já em mente e temos coisas já sendo preparadas que eu acho que traduzem um pouco desse meu discurso que eu acho que traduzem um pouco desse meu discurso de “qual é a próxima coisa?”. Tem coisa aí pra vir, muito boas, mas por enquanto, eu acho que nosso foco era o “Diário de Bordo”, porque ela ajuda a gente a fazer essa transição, inclusive. Ela tem um pouco do que foi o Rashid desses últimos dez anos e um pouco do que vai ser o Rashid nos dez anos que vêm à frente.

TRACKLIST: Rashid, muito obrigado por você ter dedicado um pouco do seu tempo e do seu espaço pro Tracklist! Foi uma honra conversar contigo!

RASHID: É nóis, obrigado, mano! 

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