When You See Yourself Kings Of Leon

Review: “When You See Yourself”, Kings Of Leon

“When You See Yourself” é um dos discos mais ambiciosos do Kings Of Leon, mas sofre ao se deixar levar pela repetitividade

Por em 5 de março de 2021

Por Gabriel Haguiô e Giovana Bonfim

São poucos os grupos que sabem se reinventar sem perder a própria essência no caminho. Pelos últimos anos, o Kings Of Leon tem explorado diferentes possibilidades dentro de seu som, permitindo-se assumir seu lado mais radiofônico ao se aproximar do pop e do rock de arena em trabalhos como “WALLS” (2016) e “Mechanical Bull” (2013).

“When You See Yourself”, o oitavo álbum de estúdio da banda, dá um passo pra trás e propõe, assim como o título sugere, uma autorreflexão sobre a jornada até aqui. O disco não só nos convida a mergulharmos em nossas memórias, mas também entrega o retrato mais transparente que já tivemos dos Followill em duas décadas de carreira – ou, ao menos, tenta ser.

Em seu primeiro lançamento depois de quase cinco anos, o grupo investe em uma sonoridade essencialmente instrumental, abrindo mão dos hits absolutos para construir o seu trabalho mais denso até então. Com canções não só maiores, mas também mais renovadas por uma nova sonoridade, “When You See Yourself” é um respiro pessoal e artístico necessário para os quatro integrantes do Kings Of Leon.

“When You See Yourself” e um novo, mas não tão inspirado Kings Of Leon

As primeiras impressões que tivemos do “When You See Yourself” foram que seria um álbum mais profundo e talvez o mais pessoal do Kings Of Leon, baseado nas duas primeiras músicas, “When You See Yourself, Are You Far Away” e “The Bandit”. Talvez pela forma próxima do The National e um pouco do Unknown Mortal Orchestra fazerem música nesse álbum — com uma narrativa que parece forte, melodia calma e sintetizadores. Coisas pouco ou não utilizadas nos últimos álbuns, que eram bem mais energéticos. Mas o sentimento muda lá por “Stormy Weather”; a música é até boa, mas faz parecer que a narrativa das letras tenta aprofundar, não consegue e acaba caindo um pouco na mesmice. 

Não que seja uma culpa específica deles ou que seja algo extremamente ruim. Era pra banda que está entrando em uma fase mais madura e estável, com Caleb ali nos seus quase 40, mas, o que é a fase adulta hoje em dia, principalmente quando se tem a fama? Ela praticamente não existe. É uma tentativa de mostrar os dilemas dessa fase da vida, mas o estado de espírito não é 100%. E fica meio que ali no limbo, tentando sair da adolescência, mas ainda tem um pézinho. Talvez por isso as letras mais profundas e que tentam ser mais sérias não conseguem.

Mas em algo eles acertam ao tentar mostrar esse lado da vida atual deles: ele é um álbum em sua maior parte calmo, que dá um sentimento de acolhimento, casa; algo que parece ter sido proposital de transparecer enquanto o produziram. Parece ser perfeito pra escutar no carro e prestar bastante atenção, ou só jogado na cama. Ele é o avesso do “WALLS”, que passa uma energia de diversão, aventura, com todo seu potencial energético mesmo nas músicas mais calmas.

Já em “When You See Yourself”, até mesmo as músicas mais explosivas parecem ser, em certa medida, contidas. “The Bandit”, o primeiro single do disco, está longe de ser tão explosiva quanto alguns dos grandes sucessos da banda, mas ainda assim contagia sem chegar a explodir. “Golden Restless Age”, outra faixa que carrega um ar mais descontraído, chama a atenção pela percussão e pelas linhas de baixo e guitarra que a conduzem, mas sem grandes pretensões comerciais.

Um disco de altos, baixos e muitas voltas

Por vezes, o disco se deixa levar pela repetitividade, abusando não só das mesmas narrativas, mas também dos mesmos artifícios musicais para contá-las. Com canções tão semelhantes entre si, a atmosfera intimista do álbum se faz presente em cada um dos seus longos 51 minutos de duração, tornando a audição uma experiência maçante depois de algum tempo.

Entretanto, o que mais prejudica o trabalho é sua progressão. Após “100,000 People”, a ordem das músicas não segue uma linha linear de começo, meio e fim, mas sim parece uma grande coletânea de faixas feitas a partir da mesma fórmula. Apesar desse estilo reforçar a identidade da obra e da nova fase da banda, o disco parece tocar em círculos em certas sequências.

Em meio a tantas voltas, “When You See Yourself” ainda passa por altos e baixos ao longo de sua tracklist. O bom e velho Kings Of Leon, ainda que sob uma nova roupagem, está presente por trás dos belos instrumentais que protagonizam boa parte das canções, como em “Time In Disguise” e “Supermarket”, mais próximas de seu encerramento.

“Time In Disguise” mostra um pouco do questionamento da vida e da fama, cansaço e só querer ter uma vida calma. Mas, ao mesmo tempo, ter que vivenciar tudo aquilo que é exaustivo desse mundo pra conseguir alcançar a sensação do conforto e da pseudo-vida adulta calma que querem. E vamos de exploração na indústria do entretenimento!

“Supermarket” é ao mesmo tempo que poética, meio torta. Foi escrita ali em 2009 e é um suspiro da confusão genuinamente mais jovem do álbum. É uma das nossas favoritas, mas fico na dúvida se é porque sei que é de 2009 ou se é genuinamente boa. Algumas músicas têm muitas camadas de instrumentos, mas que não parecem sobrecarregadas porque eles se encaixam perfeitamente, de forma sóbria e simples.

Na sequência, gostamos muito de “Claire & Eddie”. É simples na produção, se conecta ali com “Time In Disguise” mostrando o interesse da banda com uma forma de vida mais devagar, em conexão com a natureza. É uma das músicas que passa o sentimento de “Não Sou Velho Não Existe Mais Adulto Quando Se É Rico Mas Tenho Umas Características Que Se Aproximam Disso”. Ela é sobre a relação do ser humano com a natureza. Essa parte é meio brega, mas tudo bem.

“Echoing” é certamente uma das mais fortes do álbum, sendo a que mais se parece com trabalhos anteriores. No entanto, a letra ainda tem um quê de simplicidade, sobre aceitar o conforto sem se arriscar muito. Talvez a letra e a melodia se alinhem nisso. Rola umas guitarras meio desajustadas, mas que fazem total sentido na música e que fazem ela ficar perfeita. Foi de fato boa escolha pra single, chama bastante atenção.

“Fairytale” fecha o álbum sendo meio um soco no estômago. Ao mesmo tempo que as estrofes não têm tanta conexão uma com a outra, a simplicidade da sonoridade com as palavras ainda ecoando após serem ditas te pegam e te deixam com o estômago revirado. É uma música forte, identificável. “Amor inconsistente vestido de conto de fadas/você segue a linha e finge bem/você desaba no tempo certo/andando em círculos até a luz da manhã”.

O que achamos de “When You See Yourself”, do Kings Of Leon?

“When You See Yourself” certamente é um dos trabalhos mais ambiciosos da carreira do Kings Of Leon, mas sofre principalmente por sua repetitividade. O grupo apostou em uma sonoridade inédita em sua discografia, construindo canções instrumentalmente profundas, mas que acabam se afogando em temáticas rasas e ultrapassadas, de certa forma. Contudo, ainda assim se trata de um trabalho importante para os Followill, que procuram se reinventar de novas maneiras sem se perderem da própria identidade.

A bateria e sintetizadores não desgrudam durante boa parte do álbum, o que é algo bastante chamativo. É um álbum que foge um pouco do que costumam fazer, mas que ainda tem um potencial de agradar, tocar em rádio e acolher a gente enquanto escutando. Mas será que daqui alguns meses ainda vão lembrar que ele foi lançado? Temos nossas dúvidas.

6 / 10


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