3 de maio de 2019 por Leonardo Fernandes.

O novo álbum da banda indie Vampire Weekend finalmente foi lançado, no dia 03 de maio. “Father of the Bride” é um disco divertido e dinâmico, com faixas breves e uma sonoridade identitária. Todo o estilo do grupo continua presente, e intercala entre o rock e o folk durante as canções, em questão de segundos.

Contudo, há um toque de diferente no trabalho: o intervalo de seis anos entre este e o disco anterior. Em 2013, o mundo era outro e, neste, período a política e o entretenimento mudaram. Por isso, “Father” é um disco resultante de todas as reflexões que o vocalista e compositor, Ezra Koenig, acumulou.

As letras, simbólicas e subjetivas, dão forma aos pensamentos e incertezas de Koenig acerca da política, da religião e das relações interpessoais. É um trabalho inteligente, que logo de cara já explicita o objetivo do Vampire agora, em 2019.

Ou seja, o importante não é mais estabelecer um estilo ou se renovar, mas sim transmitir uma mensagem significativa.

As temáticas de “Father of the Bride”

Há três grandes temas que rondam as letras deste disco: o ódio, a natureza e o tempo.

O ódio

A primeira temática é evidente logo nos primeiros versos de “Harmony Hall”, segunda faixa do disco. Nela, Ezra lamenta a ascensão do mal e da ira, num lugar que, anteriormente, era pacífico e tranquilo.

“A ira quer uma voz, vozes querem cantar / Cantores harmonizam até que eles não possam mais ouvir nada / Eu pensava que estava livre de todos esses questionamentos / Mas sempre que um problema termina, outro começa”.

O violão é a base para estas letras, que simbolicamente refletem a respeito do ressurgimento de grupos de ódio ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, movimentos em prol da supremacia branca voltaram a assombrar as minorias estadunidenses, no atual governo Trump. O extremismo ganhou atenção e, de acordo com Koenig,

“Ninguém com uma mente preocupada poderia perdoar a presença / De cobras perversas num lugar que você pensou ser digno”.

Na música “Married in a Gold Rush” o tema se repete, enquanto Ezra divide os versos com a vocalista da banda HAIM, Danielle Haim. Nela, ambos sentem que “algo está acontecendo no país, e a culpa é do governo”.

Já “Jerusalem, New York, Berlin” interpreta o ódio dentro de um cenário mais delicado. Ezra Koenig é judeu, e na canção o vocalista dá sua opinião na discussão histórica entre judeus e palestinos. “Uma discussão eterna desde 1917”, fazendo alusão ao ano em que foi estabelecida a Declaração Balfour.

O ódio como característica da sociedade também é abordado em “This Life”. Nessa faixa, o grupo lamenta o fato de que “o ódio está sempre esperando nos portões”, e que ingenuamente pensaram “ter trancado tais portões”.

A natureza

A natureza é presente ao longo de todo o álbum, desde as letras até o conceito dos videoclipes. No vídeo de “This Life”, vemos diversas espécies de micro-organismos sendo representados, além de plantas e macacos.

Por meio do Instagram, o grupo têm demonstrado apoio a movimentos ambientalistas, como a famosa ONG Greenpeace. Além disso, na música “Big Blue”, Koenig cria uma metáfora para uma conversa com o oceano, com uma melodia folk e tropical.

Aqui, o vocalista encontra no mar o afeto e a proteção, atitudes que deveriam vir da própria humanidade.

“Grande azul, ao menos uma vez na vida, me senti próximo de você / Eu estava tão cheio de emoção / Quando estava machucado e precisava de afeto / Quando estava cansado e não podia ir para casa”.

Em “Unbearably White”, a natureza está na forma de uma avalanche, representando uma relação em ruínas. Nela, o eu lírico entende que a única coisa que mantinha sua vida estável, era seu relacionamento. Por isso, “há uma avalanche vindo, não cubra seus olhos”.

O tempo

“2021” foi o primeiro single a tratar do tempo em “Father of the Bride”. É uma das composições mais simples e rápidas do disco, mas carrega muito sentimento. Ezra pergunta se “ainda pensaremos nele”, o que pode ser uma referência ao período de hiato da banda.

A incerteza temporal é novamente explorada em “We Belong Together”, outra colaboração da banda com Danielle Haim. Nela, o casal representado está aliviado de ainda estarem juntos. Entretanto, o medo de “não se pertencerem mais” continua a existir.

A ironia de Koenig é essencial nas composições de “Father”. Ainda neste tema, “Spring Now” retrata, nos versos a seguir, a conclusão de que o tempo não importa. Ou seja, é apenas criação do próprio homem.

“Trens começam a se mover / Sinos começam a tocar /As estações do ano que tivemos / Não significam nada”.

Vampire Weekend e a mensagem final

Em suma, “Father of the Bride” é um disco significativo, que se destaca pela sua mensagem sobre a incerteza do futuro, e do mundo. Melodicamente, o Vampire Weekend continua o mesmo, conhecido pelo seu rock misturado à elementos do folk e da música barroca.

O trabalho lembra muito o primeiro álbum do grupo, “Vampire Weekend”, e algumas músicas do disco “Contra”. Entretanto, a identidade pôde amadurecer, com discursos mais reflexivos e interessantes.

Mesmo sem o produtor Rostam Batmanglij como membro, Ezra Koenig continua a levar o Vampire em frente, sempre sarcástico e irônico. As participações de Danielle Haim e Steve Lacy são muito bem vindas, assim como as produções de Mark Ronson e Bloodpop.

Lançar um novo disco depois de anos e manter a qualidade é um trabalho difícil, que poucos conseguem. Vampire Weekend, contudo, foi capaz de cumprir tal missão.

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