Gorillaz

Gorillaz reencontra sua melhor forma em seu novo show virtual, “Song Machine Live From Kong”

Os tempos eram muito diferentes quando Damon Albarn e Jamie Hewlett decidiram criar o Gorillaz. Antes […]

Por em 15 de dezembro de 2020

Os tempos eram muito diferentes quando Damon Albarn e Jamie Hewlett decidiram criar o Gorillaz. Antes mesmo da virada do século, a ideia de uma banda virtual era algo completamente inovador para se imaginar em um mundo onde a internet e as músicas digitais sequer existiam. Duas décadas depois, em um momento que as telas que o grupo sempre se apresentou se tornaram os maiores palcos do mundo, é certo dizer: o Gorillaz que nos acostumamos a ouvir segue mais vivo do que nunca.

O Tracklist foi convidado a assistir o novo show virtual do Gorillaz, “Song Machine Live From Kong”, transmitidas pelo mundo nos dias 12 e 13 de dezembro diretamente dos porões do Kong Studios, estúdio no Reino Unido de onde a banda gravou seus principais trabalhos. Ao longo de quase uma hora e meia, a superprodução mesclou a performance ao vivo liderada por Damon com as animações de Jamie, apresentando-nos aos músicos que existem por trás de 2D, Murdoc, Russel e Noodle.

Tratando-se de Gorillaz, é impossível esperar por alguma experiência convencional, e assim Damon e Jamie entregaram um espetáculo especial ao público na noite do último sábado (12), quando o “Live From Kong” foi exibido para as Américas. Em sua primeira apresentação em mais de dois anos, o grupo retornou aos palcos para consagrar uma das melhores fases de sua longa carreira artisticamente, revivendo os dias dourados de um dos mais significativos nomes dos últimos tempos.

O setlist da apresentação foi especialmente focado no último projeto do grupo, “Song Machine, Season One: Strange Timez”, que teve início em janeiro. Disponibilizado na íntegra em outubro, o trabalho foi sendo moldado aos poucos, com lançamentos mensais de singles e videoclipes que misturam diferentes universos no mesmíssimo disco.

“Live From Kong” celebra em grande estilo esse encontro de universos, que certamente marca uma das melhores fases da banda desde a sua formação após dois títulos controversos e abaixo da média, “Humanz” (2017) e “The Now Now” (2018). Logo ao início da apresentação, os inconfundíveis vocais de Robert Smith, líder do The Cure, em “Strange Timez” não deixavam dúvidas: quanto mais o Gorillaz se reinventa, mais em forma o grupo se encontra.

Damon Albarn, banda, coral e convidados, todos em perfeita harmonia, continuaram a apresentação com as seguintes canções do álbum, que soam ainda melhor e mais contagiantes ao vivo. Os músicos se mostraram à vontade ao longo de toda a apresentação, alternando entre faixas dançantes, como “The Valley Of The Pagans” e “Aries”, e baladas mais lentas e passionais, como “The Lost Chord”, “The Pink Phantom” e “Dead Butterflies”.

Ao longo dos últimos anos, o Gorillaz se tornou um ato mais plural conforme cada vez mais artistas têm somado ao seu trabalho. Apesar de grande parte das faixas de “Humanz” terem se perdido da essência da banda, em “Song Machine” o grupo se reencontrou em meio à confusão de estilos e influências que caracteriza o disco, abraçando uma nova identidade para uma nova era.

As participações especiais, inclusive, foram os maiores destaques da noite, presencialmente e à distância. Enquanto nomes como Slowthai, Matt Berry, Sweetie Irie, Leee John, Kano e o próprio Robert Smith se apresentaram ao lado dos demais músicos, Elton John, ScHoolboy Q, Beck, 6LACK, JPEGMAFIA e tantos outros marcaram presença pelos telões e em hologramas, estrelando algumas das mais emblemáticas cenas do show — com direito a 2D tocando piano ao lado de uma versão animada do rocketman, uma performance especial de “Désolé” com a projeção de Fatoumata Diawara e tantos outros momentos marcantes.

A presença dos membros virtuais do Gorillaz, entretanto, limitaram-se a pouquíssimas aparições aleatórias entre uma música e outra, algo que poderia ter sido muito melhor explorado pelas possibilidades que a internet proporciona. O enfoque dado à banda de Damon Albarn parece evidenciar uma realidade que há muito tempo suas obras têm aparentado: o Gorillaz se tornou algo muito mais próximo do mundo humano do que do digital, seja para alertar sobre as utopias do cotidiano ou para nos distrair delas.

Após as performances do “Song Machine”, Damon e companhia trocaram de palco para apresentar algumas canções do principal disco do Gorillaz, “Demon Days” (2005), incluindo versões acústicas e melódicas dos clássicos “Last Living Souls” e “Don’t Get Lost In Heaven” e também de “Dracula”, do álbum homônimo de 2001. Sobrou muito espaço para vários dos grandes sucessos do grupo, mas nos resta a expectativa por futuros shows online com um repertório ainda maior.

Ao fim, Damon não poderia deixar o palco sem dar a graça com “Clint Eastwood”, o primeiro hit do Gorillaz. Ao lado de Sweetie Irie, a banda apresentou um remix da canção produzido por Ed Case, encerrando o show com a grande energia de todos os integrantes (vivos e animados), que em momento algum pareceram sentir a ausência do público no estúdio. 

Depois de dois anos afastados das turnês, o Gorillaz voltou em grande forma com aquele que deve ser o primeiro de tantos outros “experimentos” sob o repertório de “Song Machine”, que promete render ainda mais novidades para os fãs no futuro. Apesar do formato online não ter sido tão aproveitado quanto poderia por parte de uma banda virtual, Damon e Jamie conseguiram resgatar a essência de seu projeto com um dos shows mais marcantes da atualidade. Mas, quem sabe, este não seja um dos sinais dos tempos loucos que vivemos, bem distantes daqueles em que “Feel Good Inc.” era a trilha sonora de muitos: por mais que nos tente se apegar às nossas telas, é inevitável fugir do mundo real. Pra nossa sorte, o Gorillaz vive em ambos.

SETLIST:
1. “Strange Timez” (com Robert Smith)
2. “The Valley Of The Pagans”
3. “The Lost Chord” (com Leee John)
4. “Pac-Man”
5. “MLS”
6. “The Pink Phantom”
7. “Opium”
8. “Aries” (com Peter Hook e Georgia)
9. “Dead Butterflies” (com Kano)
10. “Désolé”
11. “Momentary Bliss” (com Slowthai e Slaves)
12. “Fire Coming Out Of The Monkey’s Head” (com Matt Berry)
13. “Last Living Souls”
14. “Dracula”
15. “Don’t Get Lost In Heaven”
16. “Demon Days”
17. “Clint Eastwood” (com Sweetie Irie) [remix de Ed Case e Sweetie Irie]


Deixe um comentário

Seja o primeiro a comentar!