Carioca que mora em São Paulo, Marcela Vale é conhecida como “Mahmundi” (que deriva de “mundo de Marcela”). Com 30 anos, ela é cantora, produtora e multi-instrumentalista.

Seu disco mais recente, autointitulado, tem sido apontado como um dos melhores do ano e foi produzido todo em casa, longe dos grandes estúdios. Solar, o trabalho evoca o mar, calmaria, amores e desamores. É um disco pop bem produzido, carregado de uma atmosfera oitentista, e sucede os EPs “Efeito das Cores” e “Setembro”.   

Na última terça-feira, 22, a artista concedeu uma entrevista ao Tracklist, na qual falou sobre seu último trabalho, inspirações e também sobre representatividade. Confira: 

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Olá, Mahmundi! Tudo bem?

Tudo bem. Eu só estou com um pouco de febre, talvez minha voz fique um pouco baixa, mas estou te ouvindo. (risos) Se não me ouvir, me dá um toque…

Ah, tranquilo. Vamos começar então… Você nasceu no Rio e hoje mora em São Paulo. Quais as diferenças entre as duas cidades e os sentimentos que evocam em você?

Cara, morar em São Paulo é uma sensação de evolução pra mim. Nasci ali no subúrbio do Rio, cresci ouvindo coisas que eram referentes a morar no subúrbio. O Verão no Rio é sempre uma comoção pra falar dessas canções (do álbum “Mahmundi”). São Paulo já se tornou uma fase nova… Aqui eu consigo pensar melhor sobre o trabalho que desenvolvi, então definiria São Paulo como “o outro lado de uma carreira”, “evolução de uma carreira artística”.

Então, podemos pensar que se você fizesse o álbum hoje seria diferente? Porque o álbum foi todo desenvolvido no Rio de Janeiro…

Eu fiz o álbum no Rio, mas as músicas lá têm muito de São Paulo e de qualquer lugar… Eu acho que isso tem muito a ver com a arte, né? Essa possibilidade de fazer a arte em qualquer lugar do mundo e continuar batendo no coração das pessoas, fazendo com que elas ouçam e tal. Dá uma sensação de missão cumprida saber que, onde estiver, a minha música é boa e as pessoas ouvem…

E como está a recepção do seu álbum?

Eu gravei ele no começo do ano passado e soltei em maio. Então, ele continua muito vivo na memória das pessoas. Foi uma aventura… um disco que fiz em casa, sem grandes embalos de grandes gravadoras, feito para tocar o coração das pessoas… Mas, o Brasil é muito grande, então leva tempo pra promover (o álbum).

Você começou a carreira cantando canções gospel, mas não abandonou por completo as referências religiosas, como podemos ver em “Desaguar” e outras músicas. Qual é a sua relação hoje com a religião?

Eu desenvolvi a carreira lá, mas nunca fiz projeto… A igreja tinha o coral e os instrumentos…

Pra mim, o que fica são as coisas boas que eu aprendi e aprendo, o que pode entrar em qualquer religião. O que me motiva a continuar acreditando é no amor, na bondade, no respeito às pessoas, coisas que fazem bem a você. Eu acho que as experiências que troquei ao longo da minha vida, não só com a religião, me trouxeram coisas boas… E é o que eu pretendo passar para as pessoas. E não importa a religião que eu tenha hoje, na verdade, a vida é a maior religião.

 

Seu disco é solar e traz uma harmonia, paz espiritual. Como foi a criação desse álbum e suas intenções? O que você quis evocar nos ouvintes?

Ah, eu quis evocar… O que toda e qualquer música pretende: ser a trilha sonora na vida das pessoas. Uma música especial, às vezes, pra mim quer dizer algo e pra você ela pode ser diferente.

Minha maior inspiração era um relacionamento que eu tinha: a gente namorava, morava junto… Naquela época, eu saía e gastava uma hora pra ir pra praia, pegando metrô, pegando trem… Eu acho que isso tem a ver com a vontade de querer ver o horizonte de uma forma diferente do que você pensa possível, né? Foi isso que aconteceu no meu caso.

Meus compromissos sempre foram meu maior ponto; meus amigos… Tenho poucos amigos, sempre morei em bairro. E isso me inspirou no que eu gostaria de fazer e é o que eu tento passar para as pessoas: procure desenvolver o que você acredita, que você vai acabar realizando o seu desejo.

O seu clipe mais novo é da música “Hit”, que soa bem pop. Você já tem ideias para novos trabalhos?

Eu continuo divulgando o disco, tocando pelo país. E agora pensando no próximo clipe – já que o álbum tem 10 faixas. A minha intenção é ser pop e não ter medo de ser pop, sabe? Não ter medo do que pode acontecer… eu acho que é uma grande aventura: continuar se conectando com as pessoas do Brasil inteiro, que é muito grande. E os clipes acabam dando uma outra visão pras pessoas sobre a sua música, né? Então, meu trabalho agora é continuar tocando e desenvolver clipes pra esse disco que eu, particularmente, sou muito fã.

E você tem ideia de um novo clipe ou ainda não?

Não, ainda não. Ainda tô divulgando o Hit, tem duas semaninhas ainda que ele saiu, então ano que vem – com certeza – vou abrir o disco de novo, olhar pra ele e pensar sobre isso, vou ver indicações pra futuramente também levarmos pra televisão. Então, é um processo que envolve escutar mais a canção, como fizemos com os outros clipes, e com calma vamos achando um caminho.

Com quem você gostaria de colaborar no futuro?

Eu tenho muitos amigos e muitos talentosos, né? Gosto do Jaloo, Marcos Valle, Rita Lee… São pessoas que  estão no meu dia-a-dia porque eu ouço muita musica… Agora, tenho que ver a oportunidade certa pra dialogar com essas pessoas. Se Deus quiser, logo acontece.

Quais são suas inspirações?

Minhas inspirações são as pessoas; as conversas; os amigos que eu tenho; os os e-mails que eu leio… Tudo isso que coloco nas minhas músicas é baseado nos relacionamentos que eu tenho com meus familiares, meus amigos…  É isso que me motiva a crescer e fazer música pra outras pessoas ouvirem.

Você dedicou seu trabalho aos jovens negros assassinados pela polícia do Rio (no encarte do disco)… Como você avalia essa questão da violência e como isso reflete na sua produção musical?

Eu dediquei esse trabalho a todas as pessoas que morrem diariamente, inclusive esses meninos, porque foi chocante pra mim do jeito que aconteceu. Inclusive era perto da minha casa, né? Você sempre fica se perguntando se um dia pode ser você, sabe? Com a falta de cuidado, com a falta de segurança que a gente tem no país.

Então, foi muito chocante isso que aconteceu perto de casa, que aconteceu em dezembro – uma data especial por conta do Natal e tudo o mais. Eu gostaria muito que a gente pudesse ter voz e pudesse falar sobre esses casos e ter um pouco mais de segurança, porque tem muita gente que produz muito bom trabalho; jovens que talvez a gente não conheça, mas são importantes para a figura do país. Eu queria com o meu disco também dizer que é possível fazer música em casa com boas ideias.

Neste ano podemos citar vários álbuns de negros que tiveram e têm grande apelo comercial: Rihanna, Beyoncé, Solange, Kanye West, Bruno Mars, Frank Ocean, Drake… Como você avalia essa contradição entre o índice da violência e as vendas dos discos?

Eu avalio que arte não tem cor, né? Justamente por isso. Eu acho que se o mundo não pensasse assim, a gente não ia ter brancos, pretos, gays ou héteros, enfim… não ia ter pessoas fazendo o melhor trabalho possível.

Os números dizem que os grandes artistas pop hoje, do país e do mundo, são negros. Eu acho que fica uma dica aí para que as pessoas entendam que arte não tem cor, né? E se ela tivesse uma cor também, eu acho que ela seria universal… Mas, eu acho que a arte mostra isso pras pessoas: não adianta você tentar calar uma determinada voz, ou determinado grupo, porque ela passa a voz adiante. E eu fico muito feliz, e espero que não apenas os jovens negros, mas todos os pobres, tenham mais oportunidades. E espero que em 2017 tenha esse avanço, porque 2016 foi um ano muito bom.

Arte não tem cor, como você disse, e também não tem gênero… Alguns veículos fizeram uma lista de artistas que estão quebrando estereótipos de gênero e incluíram você. O que você pensa desse movimento?

Quando as pessoas me colocam em vários movimentos, em vários lugares, eu não tenho como mensurar e não sei dizer também por que eu estou. Mas, eu fico feliz de estar sendo representante de alguma causa, ou representante da música, da voz, da juventude.

Eu prezo muito para que pessoas como eu, pessoas que vieram de um lugar como eu vim e não tiveram pais famosos, consigam mais espaço… Quando as pessoas me colocam como exemplo de representatividade, eu fico contente porque estou em função de mulheres e de qualquer pessoa, na verdade. Eu sempre digo também que existem várias bandeiras… Eu respeito todas elas, mas a minha bandeira é a música. Até por ser a que eu consigo falar com muita propriedade, as outras são mais uma troca genuína com as pessoas.

Mas, o que eu quero dizer pras pessoas hoje – se eu pudesse representar uma bandeira – é que é possível conquistar os sonhos com foco, determinação e talento. A arte sempre vai sobreviver e a gente tem que se esforçar pra isso. O Brasil vive um momento muito difícil hoje com crise mas, enquanto tiver jovens com fôlego, a gente consegue girar o país.

Por último, eu gostaria de saber quais músicas estariam em sua playlist de canções favoritas…

Eu tô me ouvindo, né, gosto muito da Hit. Eu gosto muito de Djavan também, que é um cara que ouço desde sempre… “Samurai” é uma música que gosto muito. Ultimamente, eu estou compondo mais, então não fico ouvindo tanto músicas. Geralmente, estou sempre em trânsito. Tenho lido muito, gosto muito dos meus livros favoritos de poesia… eu gosto muito do Waly Salomão, que tem um livro chamado “Poesia Total”. E é isso. O cinema também não tenho acompanhado e gosto muito de música clássica… Sei lá, eu indicaria algumas coisas de Vivaldi que é um músico que eu gosto muito e me acalma. Quando estou em trânsito e, o mundo fica muito barulhento, geralmente estou ouvindo uma música clássica no piano pra acalmar.

É isso! Muito obrigada! Você teria algo a acrescentar? 

Eu tô muito feliz pelo contato de vocês e espero que a gente se veja em breve. Espero que no ano que vem a gente tenha mais novidades pra contar. E eu fico feliz que a gente se encontrou… eu acho que esse é o grande barato da música: que eu tenha voz pra dizer coisas e que vocês tenham boas coisas pra me perguntar. E todas as vezes que eu consigo ter essas boas entrevistas eu fico feliz porque sei que o trabalho vai mais longe.

Então, me despedi de Marcela, a simpática e talentosa carioca com quem espero ter a oportunidade de entrevistar em outro momento. 

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