Lady Gaga, tanto pelo seu impacto na indústria ou seus discursos políticos, elevou a música pop no início dos anos 2010. Ela é uma artista que impactou toda uma geração. Corta para alguns bons anos depois de sua estreia. Após ser um nome consagrado e globalmente reconhecido, Gaga foi constantemente questionada e criticada por suas escolhas. Ela tentava se reinventar (Artpop), experimentar com o Jazz (Cheek to cheek), se reconectar e apostar na música country (Joanne). Parecia que Gaga corria de si mesma, e queria de tudo para tentar desconstruir aquela imagem consolidada em The Fame. Não que ela tivesse vergonha do que criou, mas talvez os problemas que afetavam sua vida pessoal e a fama, a forçavam inconscientemente a fugir de suas raízes e do que a tornou famosa.

A espera do novo álbum ainda era um enigma. Será que ela “retornaria” ao pop? country? Ninguém sabia muito bem o que esperar desse novo trabalho. Até que na última sexta-feira (29), “Chromatica”, o seu sexto álbum de estúdio, foi lançado ao público.

Sendo bem honesto, fui escutar “Chromatica” um pouco receoso. Nunca fui tão fã de seus álbuns completos. Para mim, Gaga tem uma perfeita visão do que quer fazer. Em cada projeto planejava e executava estéticas coerentes, mas no final, quando ouvia seus discos, parecia que a escolha de seus singles era o ponto mais forte, mas no trabalho como um todo, faltava algo. Então, sem enrolação, segue aqui comigo para embarcar nessa jornada rumo ao mundo de Chromatica!

CHROMATICA

O disco com 16 faixas e 43 minutos de duração, foi produzido majoritariamente por Bloodpop, e com algumas parcerias com Ryan Tender, Max Martin e Shrillex. O álbum é dividido em três atos que conseguem captar nuances diferentes de Lady Gaga. Em “Chromatica”, Gaga explorar sua vulnerabilidade, o sofrimento de um coração partido, a luta de se reencontrar, e é claro, a liberdade de conseguir externar toda a sua dor em uma jornada poderosa, só que dessa vez, na pista de dança.

“Esta é a minha pista de dança pela qual eu lutei Um coração, é para isso que eu vivo”

(Trecho da faixa “Free Woman”)

As composições tristes e reflexivas não se encontram mais nas clássicas baladinhas de piano que Gaga costumava fazer. Agora você as escuta em fortes batidas eletrônicas, com influências da deep house, dance music e synth pop, todos os gêneros que tiveram grande destaque no cenário da música eletrônica, principalmente nos anos 80 e 90. Cheio de ritmo e músicas curtas, realmente não há um momento que não seja convidativo à dança.

Chromatica I

O primeiro ato é um dos momentos mais fracos do disco, o que é um pouco decepcionante para quem for ouvir pela primeira vez. Os destaques desse primeiro segmento ficam com “Rain On Me”, com fortes sintetizadores e batidas eletrizantes, em parceria com Ariana Grande. E também com “Alice”, produção clássica de house music, que mostra uma Gaga perdida no mundo, em procura de um momento de paz.

O problema desse ato é que além dessas músicas, o fluxo que segue torna-se repetitivo, diante de produções e estruturas previsíveis e similares entre si. Caindo muitas vezes nos antigos clichês da música eletrônica, sem apresentar algo novo para as músicas. Até “Fun Tonight” e “Free Woman”, com importantes mensagens e ótimas composições, perdem o seu potencial, ao apresentar produções monótonas, dentro da sequencia do disco.

Chromatica II

Felizmente, já no inicio do segundo ato as coisas começam a melhorar, mostrando onde o real triunfo do álbum se encontra. Começando com a transição de “Chromatica II”, um momento cinematográfico e orquestral, em uma batida pesada de deep house, beirando à trance music, em “911”. Esse momento evidencia exatamente o ponto fraco do ato anterior: é possível usar batidas eletrônicas de house sem se tornar clichê. A música que é um pedido de socorro contra si mesmo, conta com distorções vocais e melodias criativas no pré-refrão, que dão uma nova roupagem para o fluxo do álbum.

Essa é a minha sessão favorita do disco, com a sequência de “Plastic Doll”, “Sour Candy”, “Enigma” e “Replay”. “Sour Candy”, a parceira com o grupo de k-pop BLACKPINK, é um grande acerto. Por mais que seja curta, a base com o sample de “What The Say” , se aprofunda ainda mais na produção de house dos anos 90 , chamando atenção ao pianinho de fundo, sintetizadores e até tamborezinhos, formando uma atmosfera sexy e dark.

Chromatica III

 No terceiro e último arco, o destaque fica com “Sine From Above”, a aguardada parceria com Elton John. O surpreendente da faixa, que possui uma ótima entrega vocal de Gaga e Elton John, é a experimentação que ela adicionou na música. Perto do final da faixa, são adicionadas batidas frenéticas de bateria, fugindo da linearidade que a música estava seguindo. “Babylon” é o grande ponto forte do álbum. É uma faixa que aflora ainda mais toda a influência eletrônica dos anos 90, com uma clima de boate e vogue. Não só na produção, acompanhada dos clássicos acordes de teclado da house music, como também na forma que ela entrega os seus vocais e o refrão falado, acrescentando no decorrer da faixa um coral, que finaliza o disco de forma grandiosa.

O álbum possui seus defeitos, o primeiro ato é bem arrastado, perdeu a oportunidade de criar produções menos genéricas. Porém, ele consegue recompensar com criatividade no segundo e terceiro ato. Talvez o que eu mais tenho sentido falta, foi de uma produção que se arriscasse e experimentasse um pouco mais, já que as composições em si estavam bem lapidadas. “Chromatica” é um trabalho que com certeza vai representar um marco na carreira de Lady Gaga. Parece que foi o momento de renascimento da cantora, ao entregar um álbum envolvente, coerente e que tem o poder de transmitir, em suas batidas alegres e dançantes, a mensagem principal de todo o disco: encontrar a liberdade em sua jornada.

8/10

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