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De anos em anos, alguns álbuns pop se tornam responsáveis pela identidade musical que uma época receberá. E se você pensar em como era o mundo pop em 2009 e 2010, com certeza recordará da excentricidade que Lady Gaga trouxe ao mercado com o glorioso “The Fame Monster”. O extended play de 34 minutos e 15 segundos foi lançado para ser o yin do yang “The Fame”. Se no álbum de estreia Gaga queria dançar e mostrar o mundo cheio de cores e ritmos causados pela fama, no trabalho seguinte era apresentado o lado escuro do sucesso, o lado monstro.

Gaga começou escrever as faixas do álbum em 2009, quando viajava o mundo pela primeira vez com uma turnê, a “The Fame Ball Tour”. Após se apresentar para multidões, ficava sozinha em um quarto de hotel, e isso somado ao conturbado namoro com Lüc Carl, foram as partículas necessárias para a explosão criativa que formaria o álbum mais importante da carreira da cantora. O conceito do disco é claro: cada faixa do álbum representa um monstro (medo) que a artista teve que enfrentar durante a vida.

  1. Bad Romance – Monstro do amor
  2. Alejandro – Monstro do sexo
  3. Monster – Monstro do compromisso
  4. Speechless – Monstro da morte
  5. Dance in the Dark – Monstro da vergonha
  6. Telephone (feat. Beyoncé) – Monstro da asfixia
  7. So Happy I Could Die – Monstro do vício
  8. Teeth – Monstro da verdade

De princípio, as faixas gravadas para o novo trabalho serviriam para um relançamento do “The Fame”, porém, após o trabalhar ganhar um formato, se tornou um EP lançado em conjunto com o primeiro trabalho. O sucesso comercial foi estrondoso. Na primeira semana foram 174 mil cópias vendidas apenas nos Estados Unidos. Hoje, as vendas do combo “The Fame + The Fame Monster” chegam a 15 milhões de cópias vendidas. Entre os principais prêmios arrecadados com a era estão três Grammy Awards, oito VMAs e três EMAs. O álbum recebeu 14 críticas especializadas que totalizaram a média 78 no Metacritic.

Aperte o play e vamos conhecer um pouco mais sobre o segundo álbum de estúdio de Lady Gaga.

A faixa “Bad Romance” abre o disco. Lançada oficialmente em 26 de outubro de 2009, uma versão demo da música caiu na net dias antes. A artista pediu que os fãs não ouvissem a música vazada, porque segundo ela, era de fazer os ouvidos sangrarem. A primeira audição da versão oficial do single aconteceu durante o desfile de Alexander MacQueen na Paris Fashion Week. Bad Romance representa o monstro do amor. Produzida e escrita por Lady Gaga e RedOne (responsáveis por grande parte do álbum), a faixa fala de um amor doentio, de quando um relacionamento traz a tona o pior que há dentro de cada um.

Nesta faixa Gaga deseja provar todos os lados do amado (Eu quero a sua feiura / Eu quero a sua doença / Eu quero tudo seu, contanto que seja de graça / Eu quero o seu amor), e fala sobre se apaixonar pelo melhor amigo e querer mais do que só amizade (Eu quero o seu amor / Eu não quero que sejamos amigos), e ainda entona versos em francês (Je veux ton amour / Et je veux ta revanche) que não estavam presentes na versão demo. Para alimentar o sentido doentio da música, Gaga se inspirou em clássicos do terror de Alfred Hitchcock, como “Psycho”, “Vertigo” e “Rear Window” (I want your psycho, your vertigo shtick / Want you in my rear window, baby you’re sick).

Com “Bad Romance”, Gaga bateu “Halo” de Beyoncé e “Teenage Dream” da Katy Perry e levou para casa o Grammy Awards de 2011 na categoria “Best Female Pop Vocal Performance”. O vídeo da faixa é tão grandioso e enigmático que mereceria uma análise individual só para explicá-lo. Nos charts, foi #1 em países como França, Alemanha, UK e Canadá . No Hot 100 da Billboard foi #2 por sete semanas, sendo barrado três vezes por “Empire State of Mind” de Jay-Z e Alicia Keys e quatro vezes por “TiK ToK” da Ke$ha.

O single seguinte,”Telephone”, é a música que mais foge do padrão do álbum. Originalmente escrita para integrar o disco “Circus” de Britney Spears, “Telephone” só entrou para o TFM após ter a participação de Beyoncé confirmada. A música representa o monstro do asfixia, o medo de ser controlada por algo ou alguém. Na faixa, Gaga diz para o amante que não pode atendê-lo no momento, pois prefere ficar na pista de dança.

A faixa “Alejandro” foi lançada como terceiro single do EP em abril de 2010. Para a canção, Gaga se inspirou nos grupos suecos Abba e Ace of Base e flertou com o música latina, abandonando o sotaque americano na música. “Alejandro” representa o monstro do sexo, a introdução da faixa é feita por um violino choroso, que faz parte do show “Csárdás” do compositor italiano Vittorio Monti.  Gaga súplica: “Eu sei que somos jovens/ E eu sei que você pode me amar/ Mas simplesmente não posso ficar com você desse jeito, Alejandro

Rumores apontam que a faixa trate de um antigo amor chamado Alessandro.  Gaga apenas confirmou que, tanto a faixa quanto o clipe, são uma homenagem aos amores gays, e que nela, fala sobre ménage à trois e deixar amantes sexuais partirem.

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Na balada “Spechless”, Gaga canta sobre o monstro da morte. A faixa foi escrita após uma ligação da mãe da cantora depois de um show da “The Fame Ball Tour”, one Gaga foi informada que a situação do coração de seu pai, Joseph Germanotta, estava piorando. Joseph havia passado cerca de 15 anos com problemas cardíacos, e sempre se negou a fazer uma cirurgia de tratamento. Após o telefonema, Gaga se isolou, e como não podia abandonar turnê para estar com o pai, decidiu escrever uma canção sobre como o ato de se negar a fazer uma cirurgia era egoísta. (E depois de todas as bebidas e bares a que nós fomos/ Você desistiria de tudo?/ Será que eu poderia desistir de tudo por você? […] Eu nunca mais vou falar novamente/ E eu nunca mais vou amar novamente/ Eu nunca mais vou escrever uma canção/ Não vou nem mesmo cantar)

Pelo twitter, Gaga comunicou aos fãs que o pai havia realizado a cirurgia. “Depois de longas horas, e depois de muitas lágrimas, eles consertaram o coração dele. E o meu”, escreveu. A cantora decidiu lançar a música para lembrar aos fãs que os pais não são eternos. A faixa é uma das favoritas da cantora, que a cantou ao vivo em diversos programas, como na Oprah, no AMA’s e no Grammy. Já a crítica não gostou tanto da canção. Devido a influência de bandas de rock dos anos 70, como o Queen, a Slant Magazine chamou a canção de uma fraude, já o The Observer relatou que a faixa evidência a dificuldade que a cantora tem para lançar boas baladas.

Outra destaque do álbum é a faixa”Dance in the Dark”, que junto de “Bad Romance” foi a música melhor aceita pelos fãs e pela crítica. Na canção, Gaga canta sobre o monstro da vergonha, falando sobre pessoas que não se sentem confortáveis com seus corpos, e que durante o ato sexual só se soltam quando às luzes estão apagadas. Na canção, Gaga faz referências a vampiros e lobisomens, que também só se libertam sob a luz da lua. (O seu beijo é um sorriso de vampiro/  A lua ilumina enquanto ela uiva pra ele/ Ela parece bonita, mas o namorado diz que ela é uma vagabunda/ Ela é uma vampira/ Mas ela ainda faz a sua dança/ Ela é uma vagabunda/ Ela é uma vampira/ Mas ela ainda arrebenta na dança/ Baby adora dançar no escuro/ Porque quando ele está olhando ela desmorona). Na faixa, a dança cantada por Gaga seria o ato sexual. “Ela ama transar no escuro, pois quando ele olha ela desmorona”.

Em DITD, Gaga cita diversos nomes de pessoas mortas, grande parte delas faleceram de modo trágico e misterioso. (Marilyn, Judy, Sylvia/ Digam como se sentem, garotas) Marilyn Monroe, Judy Garland e Sylvia Plath foram encontradas mortas em suas casas após cometerem suicídio por meio de drogas.  (A. Ramsey irá assombrar como Liberace/ Encontre sua liberdade na música/ Encontre seu Jesus/ Encontre seu Kubrick). JonBenet Ramsey era uma modelo mirim que foi estuprada e morta no porão da própria casa, já Liberace foi um pianista americano que morreu devido a complicações causadas pela AIDS. Stanley Kubrick era um diretor de filmes que tratava bastante de doenças psicológicas e da busca a liberdade e justiça, ou seja, nessa frase Gaga poderia rogar para que os mortos até então citados recebam justiça e liberdade. (Você nunca vai desmoronar, Diana/ você continua em nossos corações/ nunca deixaremos você desmoronar/ juntos vamos dançar no escuro) Lady Diana foi sempre uma grande inspiração para Gaga. A princesa do povo, como era conhecida, morreu em um acidente de carro em 1997 quando era perseguida por paparazzis.

“Dance in the Dark” seria o terceiro single do álbum, mas acabou sendo substituída por “Alejandro” devido um desentendimento com entre a artista e a gravadora. No fim, acabou sendo lançada como quarto single apenas na Austrália e em alguns países europeus. Até hoje a canção costuma aparecer em listas sobre as músicas que deveriam ser singles, mas não foram. Mesmo sem ser single na América, “Dance in the Dark” foi indicada ao Grammy Awards 2011 na categoria Melhor Gravação Dance, mas perdeu o prêmio para “Only Girl (In the World)” da Rihanna.

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Em poucas semanas Lady Gaga nos presenteará com um novo trabalho, “Joanne”, que mesmo antes do lançamento, já é alvo de diversas críticas negativas. Assim como na construção da era da “The Fame Monster”, Gaga também viveu nos últimos meses um período conturbado e de emoções a flor da pele . A artista continua participando assiduamente de todas as vertentes do novo trabalho, e assim como em 2009, tenta mostrar um lado novo para o público. Se o novo trabalho fará tanto sucesso quanto o épico “Monster”? Dificilmente. Mas Gaga poderá sim, trazer um material que pode, novamente, mudar os rumos de como se fazer música pop nos anos 2000.

E você, qual sua nota para o The Fame Monster?

Olá, pessoal. Me chamo Pedro Grigori e estarei aqui no Tracklist quinzenalmente contando um pouco sobre o que há por trás de alguns dos maiores álbuns pops da atualidade.  Digam pra gente o que acharam da primeira postagem da coluna, e indiquem novos álbuns para serem resenhados.

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