23 de março de 2018 por Gabriel Haguiô.

Em uma indústria tão saturada e padronizada, vários nomes consagrados do rock passaram a tomar outros rumos, partindo para uma direção mais comercial em seus trabalhos. Claro que, quando se fala de um gênero com tantas influências e história, sempre haverão exceções — entretanto, há quem diga que o bom e velho rock ’n’ roll tem beirado o seu fim desde a virada do milênio.

Quem acompanhou o show do Royal Blood na noite desta quinta-feira (22), sabe que essa história está longe da realidade. O duo britânico, considerado um dos nomes emergentes de maior talento do gênero nos últimos anos, trouxe para a sua primeira apresentação solo para o público brasileiro no Cine Joia, em São Paulo, sua sonoridade suja, agitada e recheada de influências que ajudam a compreender o atual estado do rock.

O concerto faz parte das Lolla Parties que aconteceram pelo país nessa semana e é uma grande prévia da passagem da banda pela edição nacional do Lollapalooza. O grupo se apresenta nesta sexta-feira (23) às 17h25 no Palco Onix, prometendo ser um dos principais destaques do primeiro dia do evento.

Nesta quinta-feira, o Royal Blood realizou sua primeira apresentação em São Paulo após duas passagens pelo Rio de Janeiro e também seu único show inteiramente solo no Brasil

As expectativas não são em vão. Mesmo com pouquíssimos anos de estrada, o Royal Blood já apresenta um perfil consistente em cima do palco, seja para plateias grandiosas ou públicos mais tímidos, para enormes festivais ou casas de show mais limitadas. A química entre o vocalista e baixista Mike Kerr com o baterista Ben Thatcher é capaz de cativar quaisquer audiências e conduzir um espetáculo fervoroso do início ao fim, sem intervalos para momentos calmos e longas pausas.

Desde os primeiros instantes de “Where Are You Now?”, faixa que deu início aos trabalhos minutos depois do horário estipulado, a dupla já contava com a participação do público em um coro que seguia as linhas de baixo da canção até seu ápice. A adrenalina percorreu as músicas seguintes, como “Lights Out”, primeiro single de seu último álbum de estúdio que também marcou um dos momentos de maior comoção dos fãs; e “Come On Over”, extraída do disco homônimo de estreia. Qualquer que fosse o momento do show, os ingleses tinham as vibrações, os gritos e a energia da audiência em suas mãos.

Apesar de ainda terem uma apresentação agendada diante de milhares de fãs no Autódromo de Interlagos, é possível dizer que o espaço limitado do Cine Joia fez do último show do grupo sua melhor experiência ao vivo em terras brasileiras. A refinada combinação de baixo e bateria do duo soava muito mais barulhenta e imersiva, euforizando as menos de mil pessoas que levavam o lugar a um estase não visto normalmente em festivais — e, especialmente, presenteando um público só seu.

“Qualquer que fosse o momento do show, os ingleses tinham as vibrações, os gritos e a energia da audiência em suas mãos”

Por exemplo, dificilmente se veria uma plateia entoando faixas como “You Can Be So Cruel” e “I Only Lie When I Love You” aos pulmões em performances de abertura para outras turnês, como as do Foo Fighters, do Queens Of The Stone Age e do Pearl Jam (vide seu concerto mais recente no Rio de Janeiro, realizado nessa quarta-feira). Estas, além de tantas outras ocasiões durante as quase duas horas de apresentação, ajudaram a esclarecer a diferença entre os outros concertos da banda no Brasil e seu primeiro show 100% individual — como confessado pelo próprio Mike Kerr em um dos momentos mais marcantes da noite.

Em meio a gratas surpresas como “She’s Creeping” e “Blood Hands”, alguns de seus maiores sucessos não poderiam ter ficado de fora do repertório. Já não fossem suas versões de estúdio grandiosas, Kerr e Thatcher adicionaram ainda mais lenha às canções em suas performances ao vivo: “Little Monster”, um dos hits de maior reconhecimento da plateia, foi sucedida por um incrível solo de bateria que ditava os cantos dos fãs.

A presença de palco e a conexão de ambos também foram espetáculos à parte. Mike guiava as faixas com vocais sempre pontuais enquanto movimentava-se e distribuía caretas, enquanto Ben exibia seus truques de bateria e encarava os fãs, arrancando sempre muitos gritos. A dupla se fazia presente mesmo sem trocar muitas palavras, ocasionalmente pedindo a energia do público (em literalmente todos os cantos do Cine Joia), declarando seu amor por “uma das melhores cidades para se apresentar no mundo” ou se jogando na multidão.

Já nos instantes finais do show, o baterista sentou-se à beira do palco enquanto Mike conduzia o riff de “Figure It Out”, o grande hit de sua carreira que tomou a atmosfera do local de imediato e marcou provavelmente o momento de maior euforia da noite. A canção ainda precedeu um bis para “Ten Tonne Skeleton” e o sucesso “Out Of The Black”, encarregado de encerrar as atividades com uma performance extremamente explosiva, estourando os amplificadores (e os ouvidos).

Se o futuro do rock ‘n’ roll depende de sua nova geração, o que foi visto nessa última noite certamente foi um alívio. Apresentando-se para um público tão apaixonado e entusiasmado quanto pouquíssimos em sua carreira, o duo de Brighton não apenas provou da alcunha de uma das maiores bandas de rock da atualidade, mas também provou ser competente ao título. O rock vive — e muito bem.

Confira a setlist completa do show:

1. “Where Are You Now?”
2. “Lights Out”
3. “Come On Over”
4. “You Can Be So Cruel”
5. “I Only Lie When I Love You”
6. “She’s Creeping”
7. “Little Monster”
8. “Hook, Line & Sinker”
9. “Blood Hands”
10. “Hole In Your Heart”
11. “Loose Change”
12. “Figure It Out”

BIS:
13. “Ten Tonne Skeleton”
14. “Out Of The Black”

Comentários

Mais lidas
Alguns direitos reservados / 2013 - 2017.
Desenvolvido por Lucas Mantoani.