26 de maio de 2019 por Giovana Bonfim Escudine.

Na última sexta, 24/05, foi lançado o mais recente álbum de Lulu Santos, o “Pra Sempre”. É um álbum completamente dedicado à Clebson, seu companheiro que está junto desde o ano passado e quem no início desse ano pediu o cantor em casamento no palco do Circo Voador.

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O álbum possui onze faixas, sendo 8 autorais e um cover de “The Look of Love”. No meio dessas faixas, se tem uma colaboração com a banda O Terno – intitulada “Lava”.

Lulu descreve o álbum como um passo a passo do amor. “Uma polaroid, quase um eletrocardiograma”, diz ele. Nessa fase, o cantor encontra-se muito inspirado pelo atual relacionamento e em faixas como “Radar” revela sobre como foi achar algo que nem ao menos estava procurando, e, ainda assim ser maravilhoso.

Nessa semana, o Tracklist esteve junto com outros veículos da imprensa em uma roda de perguntas sobre o novo álbum com Lulu. Por lá, ele falou sobre o processo de criação, fases da sua vida, e, demonstra total atualização sobre referências da música pop atual. Leia a entrevista:

No clipe de “Pra Sempre”, você já inicia abrindo a porta, não sei se da sua casa, e logo de cara já aparece um quadro do Clebson. Uma pintura, dele; e a letra já diz logo “eu não vivo sem você”. Como que você chegou ao ponto de se abrir ali? Seus sentimentos, sua casa, seu companheiro. Como foi a decisão de fazer essa declaração e essa música com o clipe?

Na verdade não tinha muito outra alternativa. O que é a vida contemporânea se não a exposição dos nossos sorrisos, nossas vidas maravilhosas, nossas relações, cachoeiras e praias? Tudo isso a gente põe no Instagram o tempo todo. A vida contemporânea é uma vida que é exposta. E uma vez que existe essa prática, você pode fazer de uma forma mais ou menos controlada mas que ainda assim seja apenas o que é.

Veja, é um filme, tem que ter uma locação. Podia ter escolhido aqui também, mas tudo que você vê, é exatamente como minha vida se transcorre.

É mais ou menos como o feed de Instagram da Cardi B. Ela mostra como ela depila e tem 3 milhões de pessoas que curtem aquilo. Eu estou apenas vivendo como hoje em dia. De resto, não vejo motivo para não fazer.

Sobre a arte, aquilo foi me entregue por um menino em Petrolina chamado Keke, um pintor popular e um garoto que gosta de música pop. Todo show que passa em Petrolina ele leva óleos que ele pinta daquele jeito louco. Nesse dia, ele não levou um meu, ele levou do Clebson.

Você artista está acostumado há muitos anos com essa exposição. O Clebson já está há um tempinho com você e teve a vida muito exposta consequentemente. Ele topou de boa fazer o clipe? Você convenceu, foi difícil?

Não precisei convencer nada. Talvez a penúltima coisa que aprendi com Nelson Motta é que você não convence nada à ninguém. Se você tiver que convencer qualquer pessoa de qualquer coisa você já perdeu. Eu propus, ele aceitou porque ele quis.

Da mesma forma que recentemente semana passada nós tivemos a proposta do programa do Pedro Bial que ele estivesse junto na entrevista. Perguntei se ele queria, e foi.

Ele gosta de sentir essa coisa do extremo. Acho que isso fica bem evidente naquele vídeo do pedido de casamento. Uma coisa completamente protagonizada por ele. Eu não tinha a menor ideia de que ia acontecer.

Você é nosso eterno último romântico. Mas eu acho que você é o penúltimo, porque isso que o Clebson fez…

Ele foi, eu tive que mudar uma música, do que a gente ia fazer no programa do Bial por conta disso. Porque eu falei na entrevista que o último romântico era ele. O grau de romantismo que tem nas ações dele é tudo que você espera.

E essa felicidade explícita que você tem vivido nos últimos meses, como você traduz no álbum? Não só em Pra Sempre, mas no álbum todo.

Cada uma das canções são o passo a passo do amor. Da relação. Do início da descoberta da paixão. Eu era uma pessoa casada em uma hora, estava em uma relação antiga. Como diz na música Radar, “você estava num radar que francamente eu há algum tempo desligara”. Não estava olhando pra rua.

Alguma luz muito forte acendeu e um certo sentido acelerou uma insatisfacao que eu ja sentia e tem um momento que você se descobre apaixonado. Você já experimentou isso? ‘Caramba, eu to apaixonado de novo’.

Pra mim teve esse sabor, e acendeu de novo aquela mesma chave; que você achava que era uma coisa que se esgotava com a juventude. Não, você fica jovem quando se apaixona de novo. Você experimenta aquele grau de insegurança. Aí as canções foram nascendo ao sabor de cada uma das estações.

O álbum é cronológico?

Não. O álbum não é cronológico. A primeira canção conhecida foi “Orgulho é Preconceito”. Que eu apresentei no The Voice lá em agosto ou setembro do ano passado. Mas a primeira canção que eu fiz foi a terceira do álbum, “Tão Real”. E a última, “Pra Sempre”. A música que acabou dando título ao disco, encapsulou a ideia foi a última canção que eu fiz agora em fevereiro.

Praticamente eu já estava de férias em Miami, com meu violão de madrugada sem sono; lembrei de uma coisa que já tocava antes e transformei em um passo a passo. Foi a última que gravei. Tem varios aspectos: tem o aspecto emocional, tem o aspecto técnico e de composição. Então quando eu me descobri fértil, motivado, meu motor foi mesmo a questão romântica. Me fez fazer talvez as melhores canções. Ou melhores ou mais conhecidas. Uma força maior.

“Pra Sempre”. E pra sempre é forte, né, Lulu?

Pra sempre. Eu sei que nada é pra sempre. Ela é a última canção que eu fiz e fiz em fevereiro. Terminei no último dia de gravação do disco. Depois a gente percebeu que aquilo, o que eu tava falando é que tem o aspecto emotivo e tem o aspecto técnico do compositor. Eu fui adiando o instrumento da composição, uma vez redespertado.

E foi melhorando; quando eu vi eu tava… sabe quando uma pessoa volta à correr? Está parado há um tempo, e os primeiros 5, 10 quilômetros… Com o tempo volta, reganha… É mais ou menos a mesma coisa com a composição. Então no decorrer de fazer essas 8 canções, mais a peça instrumental e esse cover, tudo isso é relacionado ao que tem acontecido comigo nos últimos meses.

É uma biografia musical?

É uma Polaroid do momento. É um eletrocardiograma.

Você também gravou The Look of Love da Diana Krall.

Não é da Diana Krall. the look of love é uma canção de Hal David e Burt Bacharach, que foi gravada originalmente por Dusty Springfield, depois foi gravada por Nina Simone, e mais recentemente, há cerca de 5 anos, brilhantemente pela Diana Krall.

Mas é uma canção muito emblemática da minha formação e Sérgio Mendes fez uma gravação muito importante para música brasileira. E eu regravei.

Um dos primeiros lugares que Clebson me levou, às vezes a gente entrava no carro no sábado de manhã e ele não me dizia onde a gente ia. Quando eu vi a gente estava em Inhotim. Lá, entre algumas das obras que a gente visitou, nessa manhã e tarde que a gente passou lá, a última coisa – e ele já conhecia, embora eu não tenha certeza mas eu suspeite que ele soubesse o que era – , a última obra que a gente visitou era um pavilhão circular no alto da colina. Tinha as dimensões de uma boate circular com uma pequena porta que você entrava e dentro era tudo escuro, com uma luz vaga de boate e todo forrado em espelho. E tocava The Look Of Love. O resto vocês imaginam.

A canção ficou completamente tecida ali no momento da gente. A gente andava procurando versões dela, escutando no carro pra cima e pra baixo em Minas Gerais e foi o que a gente fez nos primeiros 3,4 meses. Eu conheci a cidade e o estado como alguns mineiros. Inhotim, Brumadinho.

Pegando o gancho dessa canção, ela é diferente do que você costuma fazer. Ela tem uma pegada mais eletrônica né?

Caramba, eu faço música eletrônica há pelo menos 20 anos.

Mas é diferente das músicas românticas que você costuma fazer. Na hora de inovar, você tem um pouco de receio?

Se eu tivesse, não inovava.

Um pouco de receio do público estranhar…

Eu nunca trabalhei com receio. Receio é um ingrediente que não faz direito, e quando eu percebi aquela canção, aliás, tinha acabado de ouvir o disco inteiro da Ariana Grande. Ouvi todo o 7 Rings, 7 Rings que se chama? Ouvi o álbum inteiro todo mundo falando bem, eu conhecia o thank you, next, mas não conhecia o resto. Gostei, adorei o álbum e vi peculiaridades ali.

Minhas referências são muito contemporâneas, não sei a quanto tempo você está ouvindo meus albuns. Última vez que lancei um álbum você tinha 21 anos. Se você for ouvir ele hoje, ele já tem muitos desses elementos com os quais eu venho lidando no meu tecido sonoro já, sobretudo música eletrônica.

Além do seu relacionamento quais foram as influências e as inspirações do álbum, mesmo que musical?

Inspiração mesmo foi o que moveu a fazer cada uma das músicas. O que é importante no álbum é primeiro você ter uma coleção de canções legais. Depois se você conseguir ajustar aquelas canções sem elas perderem o conteúdo delas, é uma questão de produção. Aí é um segundo trabalho.

Primeiro você tem que ter uma coleção de músicas legais. E eu percebi que as canções eram boas, até que a gente foi realizando pouco a pouco, na
medida. Mas primeiro foram lançadas “Orgulho e Preconceito” em setembro do ano passado, 3 meses depois “Gritos e Sussurros”, aí na final do The Voice em outubro foi a “Hoje em Dia”, que fizemos com Sérgio Santos.


Qual a sua favorita?

Acho que “Orgulho e Preconceito”, o processo dela foi mais contemporâneo. Aliás eu assisti uma entrevista interessante do Mark Ronson falando sobre como tinha sido fazer Uptown Funk com o Bruno Mars, e o tempo que demorou, o processo para fazer e a forma como foi feita, nessa música uma possibilidade de fazer com um processo mais contemporâneo, você constrói a música a partir do esquema sobretudo de, um esquema sonoro mais pronto.

Eu só saí com refrão mesmo quando eu ganhei a batida e aí a gente gravou, e aí eu reorganizei a canção. A canção terminou no estúdio, não nasceu, mas terminou no estúdio.

Todas as outras eu levei completamente prontas, início, meio, fim e o arranjo. Essa (Orgulho e Preconceito) a gente foi pro estúdio, mecanismo de confiança de que você vai conseguir dar uma forma boa aquilo. E foi essa a intenção de levar Teozinho, que eu já sabia que fazia umas coisas interessantes. Quatro pessoas, eu na guitarra, Riroche no baixo, Téo mandou a batida, e o tecladista.

Durante o processo de criação você mostrava as músicas pro Clebson e ele opinava?

Tudo! Porque eu infelizmente não sou capaz de surpreender, ele é quem sabe surpreender. Talvez eu devesse fazer isso um pouco mais. Quando eu fiz “Tão Igual”, gravei um aúdio no
Whatsapp e mandei pra ele, e aí veio aquela resposta “Você quer me matar?”
Foi muito lá no iníciozinho, porque foi a primeira, quando a gente se conheceu. A gente se conheceu em fevereiro mas só foi se encontrar em abril.

Me corrija se eu estiver errada, são 35 anos de carreira, não é isso?

A nossa diferença de idade é maior, é 39. Não, mas você pode considerar isso, porque eu faço música desde a década de 70. Sendo muito franco, em 74 eu já era do meio né, 45 (anos, talvez)… eu não conto!

Você não conta, mas você conseguiria fazer uma rápida avaliação desses 40 anos?

É muito difícil porque pra mim é algo contínuo. Pensa o tanto da minha história, o que eu conhecia mudou de 2012 pra cá, quando eu comecei a fazer o The Voice. E já faz 8 anos, essa enorme etapa da minha vida já faz quase uma década.

Eu sei que eu tenho uma tendência obliterada de fazer mais esforço, provavelmente passei mais do que eu queria passar, tive que fazer coisas que eu não faria, pra me adaptar para a carreira ou talvez aprendendo a ser um profissional. Ou não aprendendo, às vezes errando. Acho que na
década de 90 posso até ter dado mais na trave, não era mais dono de mim mesmo. Acho que com o tempo fui dando uma equilibrada nessas forças aí


Lulu, sobre Hoje Em Dia, a faixa tem uma pegada mais reggae?

É uma reggae.

Nesse álbum, quais são os elementos que você quis incorporar nas composições?

Elas são iguais de uma forma diferente, um pouco propositais e o exemplo melhor e mais contemporâneo o que eu tinha de um reggae muito bem feito com os elementos que eu queria. Eu comecei a mexer com a questão de música mais pra pista, direcionando minha música para isso na década de 94, quando eu fiz “Assim Caminha a Humanidade”.

Por causa dessa canção e depois por causa do disco de remix, o terceiro disco, que nós temos juntos, então não faz muito tempo que a minha música saiu do formato de pop rock e foi buscar uma outra coisa. Não é atoa que eu brinquei com o funk, fiz a minha versão do “Deixa Isso
Pra Lá”, que é feita pelo Maõzinha que há 15 anos. Ele é produtor da Anitta hoje em dia.

Gravei com Marcinho, gravei com o Buchecha, gravei com Catra, levei Catra pro Rock In Rio, quer dizer, eu tô fazendo essas apostas de acordo com o tempo. E no caso da “Hoje em Dia”, na medida em que ela nasceu, o reggae, eu queria que ela tivesse uma baixa frequência, profunda, e que fosse executada de uma forma que eu mesmo não ia conseguir fazer.

Se eu fosse fazer sairia um reggae meio pop/rock, desses que o catálogo do pop brasileiro tá cheio, mas se eu entrego pro Raceu e para Serginho eles me devolvem aquilo exatamente do jeito que eu queria, sem eu ter que dizer cada detalhe.

Eu não tenho capacitação técnica para ser um produtor de disco, você precisa ter entendimento, um uso de equipamento e eu não tenho.

No caso de Orgulho e Preconceito, quando ele mandou de volta pra mim, eu falei “Hummm, não tô me reconhecendo aí… vamos voltar para o estúdio, pegar elementos disso e refazer de uma forma que eu me reconheça”. A segunda música então a gente ficou quase 6 meses indo e voltando, até a gente voltar pro estúdio e mudar de tom, botar um pouco mais de violão, fazer presente um pouco mais a minha identidade.

Sobre essa turnê, uma característica dos seus shows é que você nunca decepciona seus fãs, você sempre toca sucessos além das músicas novas, vai continuar sendo assim?

Mas é claro! “Orgulho e Preconceito”, uma vez que entrou, “Gritos e Sussurros” saiu, porque eu de fato fiquei muito insatisfeito com a primeira versão. A primeira versão que a gente lançou não é a que está no disco, foi uma que fizemos para o programa e tinha uma participação do Michel Teló, mas a produção daquilo eu pensei “Não, eu posso fazer algo
melhor”, ter mais a cara daquilo que as pessoas se identificam como Lulu Santos clássico.

O som da guitarra baiana, o violão, tem uma pegada mais pop/rock, a bateria e com poucos elementos eletrônicos.

Você trabalhou com O Terno, você já conhecia a banda?

Conheço, claro que conheço! Conheço o pai do Tim, o Tim deve ter ido a muitos show meus sem eu saber de fato quem ele era. Da mesma forma, ele apareceu no camarim lá do shows de São Paulo. E eu conhecia o primeiro disco do Terno e eu tinha achado aquilo muito engraçado e interessante, muito doido como que aquilo processava uma parte que pra mim é tão importante da mpb e de forma geral não teve seguimento. Que é aquela
psicodelia do rock paulista, e aí junta também a capacidade do Tim e dos meninos… o Gabrielzinho.

O Tim eu fiquei com curiosidade porque Lava era uma canção que eu não
queria me deixar estragar, porque eu não queria eu mesmo gravar. Tinha que ser de uma forma que fique mais excêntrica do que eu mesmo consigo fazer. E aí eu pensei neles, bingo!


Tem algum artista da nova geração que você queria trabalhar junto?

Nova? Eu tenho trabalhado com os que tenha me dado mole assim né, não gosto de ficar me oferecendo muito. O Silvaa, nossa relação vem do fato dele ter me chamado para participar de um single dele, há quatro anos atrás. Depois a gente fez isso de novo, ele foi como meu convidado, no mesmo dia que a Claudia Leitte estava levando Daddy Yankee, que depois
fez despacito com o Luis Fonsi.

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