2 de junho de 2020 por Gabriel Haguiô.

Ao longo dos últimos anos, passamos a consumir música de diferentes formas ao mesmo tempo; enquanto alguns se prendem aos videoclipes, outros escutam as mesmas faixas incansavelmente no Spotify, e por aí vai. Conforme as vendas físicas dão lugar às digitais, as gravadoras têm enfrentado um longo processo de readaptação para explorar os novos mercados e manter seus artistas no topo das paradas, o que deu início a uma era inédita na indústria fonográfica.

Hoje, as tabelas musicais de todo o mundo são contabilizadas a partir de vários cálculos em torno de uma só canção, a fim de aproximar seus resultados de sua real popularidade. A Billboard, responsável pelas paradas norte-americanas de singles e discos, foi uma das primeiras a propor esse novo modelo para as audições, adotando medidas diferentes para compras físicas e digitais, streamings, reproduções nas rádios e visualizações em videoclipes desde 2018, por exemplo.

Para esclarecer as discussões e polêmicas de toda semana sobre o assunto, o Tracklist preparou um especial para detalhar como são feitas as contagens da Billboard Hot 100 e da Billboard 200, respectivamente as maiores paradas de músicas e álbuns do mundo. 


As listas da Billboard são atualizadas nas terças-feiras (com exceção de feriados) e as dez primeiras colocações de cada são anunciadas no dia anterior. Nos Estados Unidos, a contagem é válida de sexta até quinta-feira, o que justifica as estreias tardias de alguns lançamentos: singles e discos lançados na sexta-feira levam quase duas semanas para acumularem pontos e estrearem em alta nas paradas, enquanto aqueles disponibilizados no meio da semana costumam figurar em menos tempo, embora em posições menores.

Ambas as tabelas são construídas por meio de um sistema de pontuação dividido de três a quatro categorias principais, cada uma com sua própria medida e classificadas na seguinte ordem de relevância:

1. Streams;
2. Airplay (reproduções em rádio);
3. Vendas digitais;
4. Vendas físicas (apenas para álbuns).

Para melhor entendê-las, vamos explicá-las uma a uma:

STREAMS

Os streams são os mais abrangentes nas contagens de cada lançamento. Em suma, são contabilizados a partir de reproduções em serviços de streaming e em visualizações de videoclipes no YouTube. Entretanto, a Billboard estabeleceu uma ordem de prioridade para cada plataforma baseada na assinatura de cada serviço. 

Desde 2018, audições em serviços com assinatura paga (como a Apple Music, a Amazon Music e a versão premium do Spotify) passaram a valer por um ponto inteiro, enquanto plataformas gratuitas (como a versão básica do Spotify e o SoundCloud) ou no YouTube contabilizam dois terços dele. Sendo assim, ouvir uma música na Apple Music contará como um stream na Billboard Hot 100, enquanto será preciso escutá-la pelo menos duas vezes no YouTube ou em um Spotify sem assinatura para contar o mesmo stream.

A mesma divisão também vale para a Billboard 200, classificada em unidades, de forma ainda mais rígida: 1250 reproduções de qualquer música de um álbum em plataformas pagas serão equivalentes a uma unidade dele, enquanto são necessários 3750 streams para contabilizar a mesma unidade em serviços gratuitos. Vale ressaltar que a Billboard 200 descarta as visualizações no YouTube ou em outros sites de vídeos em sua contagem final.

Atualmente, “Rockstar”, parceria do rapper DaBaby com Roddy Ricch, é a música com maior número de streams nos Estados Unidos, com aproximadamente 35,4 milhões de audições.

AIRPLAY (reproduções em rádio)

A Billboard monitora aproximadamente mil estações de rádio de diferentes gêneros pelos Estados Unidos para a contagem do airplay, que é feita excepcionalmente de segunda-feira a domingo. A Nielsen BDS, responsável pela coleta dos dados, acompanha a audiência das rádios e a programação de cada uma, de maneira a contabilizar quantas vezes uma mesma música é tocada ao longo da semana e para quantas pessoas.

O airplay é dado a partir de uma audiência aproximada de quantos ouvintes escutaram determinada faixa, e não quantas vezes ela foi reproduzida. Dessa forma, uma canção constantemente repetida em uma estação de pouco alcance provavelmente reunirá uma audiência menor do que uma música tocada apenas cinco vezes em uma rádio mais famosa, por exemplo.

“Blinding Lights”, de The Weeknd, foi a música mais ouvida nas rádios norte-americanas ao longo da última semana, sendo reproduzida para uma audiência de 77,4 milhões.

As reproduções em rádio são válidas apenas para a Billboard Hot 100.

VENDAS DIGITAIS E FÍSICAS

Não há grandes segredos por aqui: cada venda de um single ou disco é diretamente contabilizada em ambas as paradas, variando apenas em seu formato. As compras digitais são em grande parte referentes ao iTunes, ainda que muito menores que os streams ou as reproduções em rádio, e as físicas se restringem à venda de álbuns.

Na Billboard 200, compras físicas ou digitais valem a mesma unidade para um disco, embora elas também possam ser contabilizadas com a compra digital dez músicas desse mesmo álbum. Assim, comprar dez faixas de uma mesma tracklist equivalerão à compra da íntegra de um álbum — o que explica a popularidade de trabalhos de estúdio cada vez maiores nas paradas, já que contarão mais streams e, com mais de 20 faixas, poderão contar como duas unidades.

A Billboard também considera a venda de vinis de um álbum para a Billboard 200, embora sejam majoritariamente contabilizadas para discos mais antigos ou relançamentos.

“Rain On Me”, nova colaboração de Lady Gaga com Ariana Grande, registrou a melhor vendagem na última atualização da Billboard Hot 100, com cerca de 72 mil downloads.


É importante mencionar que o consumo de diferentes versões de um single passou a impulsioná-lo de forma única nas paradas. Como principal exemplo, temos “Old Town Road”, de Lil Nas X, que manteve números sólidos por semanas no topo da Billboard Hot 100 em 2019 com o lançamento de diferentes remixes. A mesma regra também é válida para a Billboard 200 quanto a reedições de discos, uma vez que muitos trabalhos antigos retornam às principais colocações através de versões comemorativas ou em vinil.

Para demonstrar o desempenho de um single na tabela, vamos analisar a 17ª semana de “Old Town Road” no primeiro lugar da lista — atualização na qual a música quebrou o recorde de maior tempo no topo. A canção reuniu 72,5 milhões de streams entre todos os seus remixes, 46 mil downloads via iTunes e uma audiência de 47 milhões de ouvintes nas rádios norte-americanas.

Na segunda posição, “Bad Guy”, de Billie Eilish, foi reproduzida para mais pessoas nas rádios (aproximadamente 89,3 milhões), mas teve números menores em streams (50,9 milhões) e vendas digitais (22 mil), dando um melhor exemplo sobre a prioridade da Billboard em seus quesitos.

Para obter sucesso nas paradas, um single não precisa dominar as três categorias. Trata-se do polêmico caso de “Gooba”, de 6ix9ine, que estreou na terceira posição com 55,3 milhões de streams e 24 mil downloads, mas com apenas 172 mil pontos em airplay.

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