Mais do que uma reunião de sensações internacionais de todos os gêneros e variações, o Lollapalooza também é uma das poucas oportunidades de presenciar a união de todas as tribos da indústria fonográfica brasileira, abraçando a miscigenação musical que o evento promove ano após ano entre estilos que partem da MPB ao rap.

O repertório de atrações nacionais nunca esteve tão abrangente como em 2019. Com opções para todos os gostos, a line-up passeia por nomes mais clássicos na cena musical, como Tribalistas e Gabriel, O Pensador, e pérolas da nova geração, das quais se destacam Silva e BK’, por exemplo. Há ainda espaço para artistas já conhecidos do festival e que prometem efervescer seus públicos em mais uma edição.

A menos de dois meses para o Lollapalooza, o Tracklist listou alguns dos grandes shows brasileiros que prometem agitar o Autódromo de Interlagos, em São Paulo, entre os dias 5 e 7 de abril.

5 DE ABRIL, sexta-feira

TRIBALISTAS

Quando anunciados como um dos headliners do Lollapalooza, o Tribalistas foi alvo de diversas críticas e reclamações internet afora — nem todas em razão de sua qualidade sonora, mas pela seleção de um artista nacional para ocupar um dos postos de destaque do festival. Contudo, tal escolha não foi infundada: trata-se de um dos maiores e mais simbólicos grupos que a música brasileira já revelou à indústria, e tamanha magnitude deve tomar o clima da plateia durante sua apresentação.

De volta aos palcos após 16 anos de hiato, o trio deve combinar seus grandes clássicos, como “Velha Infância” e “Já Sei Namorar”, com as canções de seu último e homônimo álbum de estúdio, lançado no ano passado. As novas faixas, entretanto, não devem causar estranheza alguma aos fãs menos antenados, uma vez que sua energia e sonoridade em muito se assemelham ao disco de estreia, que desde 2002 acumula cerca de 3,5 milhões de unidades vendidas pelo mundo.

Marisa Monte, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown prometem entregar ao público do Lollapalooza um show fluidamente intenso e nostálgico para as gerações mais antigas, ao mesmo tempo que levam às idades mais novas (geralmente maioria em Interlagos) algumas das mais brilhantes joias da música popular brasileira. Indubitavelmente, um fenômeno que não deve passar despercebido pelo festival.

SCALENE

Em sua última passagem pelo Lollapalooza, em 2015, o Scalene se apresentou para um público minúsculo em um repertório limitado ao seu primeiro disco, “Real/Surreal” — bem recepcionado pela crítica nacional e internacional, embora tamanha comoção não tenha refletido em suas vendas. Apenas dois meses depois, a banda viria a despontar como uma das surpreendentes revelações da cena musical brasileira ao se destacar entre os participantes do “Superstar”, show de talentos no qual terminou vice-campeã.

Quatro anos depois, o grupo liderado por Gustavo Bertoni não apenas se estabeleceu entre os grandes representantes do rock nacional, como também conquistou o reconhecimento de outros colossos do gênero no Brasil e a fama entre o público. Se seu último show no festival contou com pouquíssimas pessoas, em 2019 os brasilienses deverão performar diante de uma plateia atenta e fervorosa, entoando todos os seus maiores sucessos aos pulmões em uma apresentação bem dividida entre a histeria e a maciez. Enquanto “Extremos Pueris” e “Danse Macabre” levantam multidões desde os primeiros trechos, “Entrelaços” e “Cartão Postal” funcionam como verdadeiros momentos de anestesia aos ânimos, sempre acompanhadas pelo canto dos fãs.

Em meio à uma line-up recheada de nomes de destaque, o Scalene se evidencia devido à curiosa e meteórica construção de seu sucesso. Ainda que donos de uma trajetória curta, a banda já provou inúmeras vezes dotar de maturidade e talento em proporções raras entre os novos nomes da música brasileira, com os quais permitiu se solidificar como um dos grupos mais consistentes e completos que a indústria nacional produziu nos últimos anos — e uma das atrações imperdíveis do Lollapalooza.

MOLHO NEGRO

Ocasionalmente, o cenário underground revela nomes de grandes talento e personalidade, características escassas em uma considerável parcela do mainstream. O Molho Negro surgiu em um desses casos, conquistando grande reconhecimento da crítica nacional pelo seu rock potente e bem produzido e suas reflexões líricas (ora voltadas aos pequenos empecilhos do cotidiano, ora meras observadoras da sociedade: uma versatilidade rara em composições do gênero), ainda que o a repercussão midiática mal beire tamanha magnitude.

Todavia, o trio paraense formado liderado por João Lemos em nada se afetou devido à pouca popularidade. Pelo contrário: a banda apresenta uma notável crescente de qualidade ao longo de seus quatro trabalhos de estúdio lançados desde 2012, alcançando seu auge criativo com o recente “Normal”. Todos, porém, dispõem da mesma veemência sonora, fazendo com que os shows fluam em perfeita harmonia.

Apesar de pouco comentado, o Molho Negro é um dos grupos mais ímpares do Lollapalooza, que marcará sua apresentação de maior alcance popular na carreira. Entre tantas atrações dos mais diversos estilos e histórias, certamente vale a pena conferir o que Belém tem a oferecer ao rock nacional.

6 DE ABRIL, sábado

SILVA

Já nos primeiros passos de sua carreira, Silva demonstrava um perfil diferente em relação aos artistas de sua geração. O cantor, compositor e produtor exala sua versatilidade musical nos palcos desde 2012, quando estreou na cena musical com o multifacetado “Claridão”, responsável por conquistar uma base consideravelmente sólida de fãs poucos meses após seu lançamento — que ainda seria sucedido por outros três discos autorais e um álbum de covers de Marisa Monte nos anos seguintes.

Atualmente, Lúcio Silva de Souza é um dos mais populares representantes da MPB contemporânea e muitas vezes referenciado como um dos precursores do pop alternativo no Brasil. Gradativamente tecendo relações com algumas de suas maiores inspirações, como Lulu Santos e a própria Marisa, o capixaba bem arou sua reputação em um campo muitas vezes menosprezado pelo grande público e deu origem à sucessos instantâneos pelo país, como “Feliz e Ponto”, “A Cor É Rosa” e “Fica Tudo Bem”, recente colaboração com Anitta.

Dono de um repertório sonoramente vasto e fruto de ricas influências da música brasileira, Silva subirá ao palco do Lollapalooza pela primeira vez como um artista consolidado entre tantas promessas nacionais, o que deve movimentar um bom público de fãs e novos ouvintes para o seu show. A curiosidade não é vã: o cantor leva em sua voz os timbres que marcaram o passado e hão de abrilhantar o futuro, começando por uma ambiciosa performance em um dos maiores festivais do país. A tarefa é complicada, mas nada que o vitoriense não consiga lidar com seus talentos.

RASHID

Levando as vivências periféricas e suas autorreflexões para as rimas hipnotizantes, Rashid já demonstrava sua aptidão ao rap desde a infância, quando compunha versos influenciado pelos grandes ídolos da época. Tal fascínio o levou às batalhas de freestyle aos 14 anos de idade, garantindo-o visibilidade suficiente para emergir entre as revelações do gênero ao lado de nomes como Emicida e Projota (com quem, logo no início da carreira, havia formado o grupo Strondu) na virada da década.

Hoje estabelecido entre os artistas de maior alcance no Brasil, o paulistano se apresenta no Lollapalooza com muito a dizer. Alternando entre composições amorosas e épicos líricos com intacta destreza, o rapper constrói uma setlist eclética e bem dosada para suas performances — principal destaque que deve marcar sua apresentação no festival, como comprovam a sensível “Bilhete 2.0” e a crítica “Estereótipo”, por exemplo. Diante de uma audiência de diferentes gerações e origens, o MC promete um show para acolher a todos os públicos.

LINIKER E OS CARAMELOWS

O surgimento de Liniker e os Caramelows na indústria nacional foi repentino e, sobretudo, explosivo. A banda liderada pela cantora e compositora Liniker Barros assumiu popularidade e reconhecimento internacionais com o lançamento de seu EP de estreia, “Cru”, em 2015, seguido pela chegada do disco “Remonta” no ano seguinte, excursionando por 19 países — número surpreendente quando considerados os quatro anos de carreira do grupo de Araraquara, que logo conquistou destaque na imprensa estrangeira.

Com a constante reinvenção de seu repertório e a iminência de um novo trabalho de estúdio, o sexteto retorna ao Lollapalooza pela segunda vez, após ter tido seu show interrompido por vários problemas técnicos no ano passado. Desta vez com a apresentação completa, a banda promete transformar a atmosfera de Interlagos com sua ampla sonoridade, baseada na mistura do soul brasileiro com elementos diversos da música americana, como o jazz e o blues.

Indiscutivelmente uma das atrações mais interessantes de toda a line-up do festival, Liniker e os Caramelows trazem consigo o brilhantismo de um grupo despretensiosamente grandioso, rico e fundamental para a atual música nacional, resgatando a genialidade criativa que ela tanto carecia. Trata-se de uma das mais preciosas joias que a indústria produziu nos últimos anos — e, consequentemente, um show obrigatório para qualquer pessoa que vá ao Lollapalooza.

CARNE DOCE

O Carne Doce se firmou lentamente entre as gratas surpresas que a música brasileira revelou ao longo dos últimos anos, reunindo uma fiel base de fãs com sua consistente discografia em pouquíssimo tempo. A inexperiência no ramo criativo, contudo, nunca foi uma complicação para o grupo goianiense: em seis anos de vida, Salma Jô e companhia lançaram três trabalhos enormemente aclamados pelo país, dando o tom do que viria a se tornar o pop alternativo em território nacional.

A mais recente das obras é “Tônus”, que chegou às lojas em julho do ano passado e conferiu uma nova personalidade ao quarteto. Medicando a vulnerabilidade dos sentimentos com versos sinceros e instrumentalizações inovadoras, a banda criou um estilo próprio para abordar diferentes temas, em sua maioria voltados à introspecção particular de cada ser. Grande parte deles devem ser expostos em performances autênticas ao público do Lollapalooza, que, em seu primeiro contato com o Carne Doce, poderá desfrutar de uma experiência única no cenário alternativo.

7 DE ABRIL, domingo

GABRIEL, O PENSADOR

Em um longínquo 1992, ecoava nas rádios pelo país o anúncio da morte do atual presidente do Brasil — não pelos plantões jornalísticos ou debates matutinos, mas pela voz de um jovem rapper em sua polêmica demo de estreia, “Tô Feliz (Matei o Presidente)”. Bem recepcionada em meio à tensão política que o país ultrapassava, a canção foi prontamente censurada pelo governo após conquistar a atenção do hip-hop nacional, que assistiu Fernando Collor de Melo deixar o maior cargo da república vinte dias após o lançamento da faixa. Aquele era o primeiro dos diversos testamentos que tornariam Gabriel Contino em Gabriel, O Pensador.

27 anos depois, o carioca ocupa um privilegiado posto entre os grandes nomes da história do rap brasileiro e revive o breu governamental que permitiu a explosão de sua carreira. A nova de seu primeiro trabalho não apenas evidencia os poucos passos que a política brasileira caminhou em quase três décadas, mas reforça a posição de Contino como uma das grandes influências da velha e nova gerações com suas rimas conscientes e mensagens atemporais que devem reverberar pelo Autódromo de Interlagos em abril.

Gabriel, O Pensador sobe ao palco do Lollapalooza para celebrar sua carreira, dando vida nova à sucessos como “Cachimbo da Paz”, “Astronauta” e “2345MEIA78” e replicando as críticas de seus sete discos à atualidade. Carregando uma trajetória grandiosa às costas e um renome monumental, é mais do que fundamental que você pare para ouvir o que o pioneiro do rap nacional tem a dizer em 2019.

BK’

Em contraste aos veteranos de seu gênero, BK’ se apresentará no Lollapalooza como um dos maiores representantes da nova geração do rap brasileiro. O MC carioca se consolidou na cena musical ao longo dos últimos anos com obras plurais e histórias introspectivas, exprimindo suas experiências de vida em músicas transparentes sobre racismo, desigualdade social e seu crescimento no Catete.

Abebe Bikila Costa Santos, nome de batismo do rapper, conta com o repertório renovado pelo lançamento de seu último álbum de estúdio, “Gigantes”, que chegou às lojas em outubro do ano passado. Ao lado de títulos de contemporâneos como Djonga e Baco Exu do Blues, o disco firmou seu espaço entre os melhores projetos de 2018 e ajudou a desenvolver uma identidade própria de BK’, utilizando-se da variedade de influências musicais para dar origem à uma sonoridade ambiciosa como seus próprios versos.

Em uma programação que inclui atrações como o mestre Pensador e o mais importante rapper da atualidade, Kendrick Lamar, o tímido nome de BK’ também possui seu simbolismo. Apesar dos curtos três anos de carreira, o carioca chega ao festival com um dos shows nacionais mais aguardados dessa edição, mantendo sempre a postura de um verdadeiro gigante — grandeza e pretensão que traduzem o ímpeto dos futuros proprietários do hip-hop no Brasil.

E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE

Apesar de terem se reunido em 2013, os paulistanos do E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante conquistaram seu renome de forma definitiva entre os grandes nomes emergentes da música brasileira apenas no ano passado, com o lançamento de seu aclamado projeto de estreia, “Fundação”. Desde então, o grupo tem crescido exponencialmente em números e arrancado elogios da imprensa e de outros artistas do espaço alternativo.

Pode-se dizer que o reconhecimento por parte de público e crítica foi tardio. Há tempos a banda tem apresentado, por meio de seus EPs e singles, uma forte unidade entre seus contemporâneos com uma sonoridade inteiramente instrumental e baseada em diferentes efeitos sobre a guitarra, o baixo e a bateria. A ausência de palavras ainda confere ao ouvinte uma interpretação própria das canções, o que torna a experiência ainda mais universal e curiosa.

Ao vivo, a energia das faixas soa ainda mais poderosa, envolvendo públicos inteiros a partir das histórias criadas no consciente de cada indivíduo enquanto os riffs se perpetuam e a vivacidade sonora do conjunto se alastra. E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante introduz ao Lollapalooza uma nova forma de se conectar com os ouvintes com timbres tão profundos quanto composições inteiras, transmitindo reflexões, agonias, euforias e melancolias a cada audição.

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