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Review: Florence + The Machine desenha um retrato pós-pandêmico com “Dance Fever”

O novo disco do grupo nos apresenta à versão mais dançante de Florence e soa como a trilha sonora ideal para os tempos que vivemos

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Foto: Divulgação

Para a maioria de nós, os últimos meses têm simbolizado um recomeço à vida, às rotinas e à adrenalina que, por vezes, pensávamos que jamais viveríamos novamente. Depois de tanto tempo confinados e sem rumo, as festas parecem muito mais felizes, as reuniões têm sido muito mais emotivas, e hoje, até mesmo as músicas soam mais dançantes do que antes.

“Dance Fever”, o mais novo trabalho de estúdio do Florence + The Machine, traduz perfeitamente a alegria dos reencontros e dos reinícios que temos conseguido viver na medida do possível. Lançado nessa sexta-feira (13), o álbum convida os ouvintes a extravasarem as dores ao som das músicas mais eufóricas, contagiantes e refinadas já gravadas pela cantora.

Além de um retrato pós-pandêmico, o disco é, sobretudo, um importante testamento pessoal de Florence Welch. Várias de suas composições refletem sobre a sua trajetória após mais de uma década de carreira, e também celebram sua relação com a música como uma forma de cura — uma paixão que todos compartilhamos, e que dificilmente poderia ser tão bem expressada como em “Dance Fever”.

A “praga da dança” de Florence Welch

Em “Choreomania”, terceira faixa do disco, Florence canta sobre a coreomania, um fenômeno que aconteceu na Europa medieval que, na época, era visto como a “praga da dança”: na cidade de Aachen, na Alemanha, no ano de 1374, um grupo de pessoas começou a dançar para celebrar a festa sagrada de São João Batista e contagiaram tantos outros a dançarem junto por horas e horas. A mania se instaurou por meses pela região, fazendo com que multidões se reunissem para dançar, sem pausas para se alimentar ou se hidratar — o que levaram muitos até mesmo à morte.

De acordo com vários historiadores e estudiosos, apesar de não haver uma razão exatamente plausível para a “praga da dança”, uma das motivações por trás do fenômeno pode ter sido o estresse coletivo provocado pela Peste Negra, que dizimou milhões de pessoas pela Europa e deixou a sociedade em um verdadeiro colapso sentimental: enquanto muitos se isolavam para se preservar dos riscos da doença, muitos outros enxergavam a peste como uma punição divina, e buscavam aproveitar ao máximo as celebrações e os bons momentos. Todos, porém, tinham o que extravasar, e talvez a dança tenha sido a melhor forma que encontraram.

“Dance Fever” propõe exatamente o mesmo: uma “febre da dança” para superarmos os últimos dois longos anos de pandemia. Florence se inspirou nas histórias sobre a coreomania para gravar o álbum, o que reflete diretamente em sua estética e também em sua sonoridade, com vários elementos que remetem à Idade Média, desde as capas dos singles até o instrumental das canções, como o folk de “Girls Against God” e “Heaven Is Here”.

O principal impacto, entretanto, pode ser sentido nas músicas do disco. Por vários momentos, parece que a cantora jamais soou tão livre e eufórica como em “Dance Fever”, em um ritmo que se mantém do começo ao fim. Os singles “King” e “Free” dão início aos trabalhos com uma energia extremamente dançante, em um clima que se perdura ao longo de toda a obra, mesmo em momentos mais intimistas, como “Dream Girl Evil” e “Daffodil”.

Também há canções em que Florence experimenta novos elementos para a sua sonoridade, com toques mais modernos de disco. É, principalmente, o caso de “My Love”, faixa produzida por Dave Bayley, do Glass Animals, que está entre os grandes destaques do álbum, e também da própria “Free”, conduzida por uma percussão eletrônica e igualmente radiante.

A produção assinada por Jack Antonoff e Dave Bayley em grande parte das canções é uma das principais novidades do disco, e também uma de suas maiores qualidades. O vocalista do Glass Animals e o produtor de artistas como Taylor Swift, Lorde e Lana Del Rey dão uma nova cara ao álbum, dinamizando o som de Florence de forma sutil e se distanciando de seus últimos trabalhos, soando como um trabalho muito mais compacto e coeso do que os demais.

Um verdadeiro retrato pós-pandêmico

Apesar do ritmo alegre e descontraído, a maioria das faixas de “Dance Fever” compartilham as inseguranças de Florence em sua vida pessoal através das composições. Em “King”, por exemplo, Welch reflete sobre a dúvida entre focar em sua carreira musical ou seguir seus desejos mais íntimos, como a vontade de ter filhos, enquanto “Free”, segundo a própria cantora, é um retrato de sua ansiedade.

Os últimos anos de pandemia também são um tema recorrente em meio às canções, como não poderiam deixar de ser. Em “Girls Against God”, Florence dedica a música a Deus enquanto reflete sobre os tempos de confinamento, ao mesmo tempo que faixas como “Back In Town” e “Daffodil” simbolizam, com mais clareza em suas letras, os meses após a quarentena.

Apesar de ter sido idealizado antes mesmo da pandemia, a grande maioria das músicas foram escritas durante o período de isolamento, o que torna nossa identificação com “Dance Fever” ainda mais fácil. Lançado em um momento no qual estamos, aos poucos, dividindo as ansiedades em retomar o convívio social, a proposta do disco faz muito mais sentido e nos toca de maneira única.

Com mais de uma década de carreira e dona de uma discografia invejavelmente sólida, Florence Welch já não tem mais nada a provar para a indústria. Porém, “Dance Fever” é uma reafirmação de sua visão artística e de seu talento para encontrar novas formas de envolver o público através de sua música, sem jamais perder a identidade ou a genialidade.

8 / 10

Melhores momentos: “Free”; “Dream Girl Evil”; “My Love”

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