Não dá para negar que Jessie J tornou-se uma das artistas mais subestimadas e desvalorizadas do cenário musical de uns tempos para cá. E para você entender melhor o que foi dito acima, precisamos fazer um breve resumo dos altos e baixos da trajetória da britânica que nos leva ao trabalho atual.

Dona de um timbre ímpar, personalidade única e de um carisma borbulhante, a cantora lançou seu bem sucedido disco “Who You Are” em 2011, que vendeu mais de 12 milhões de cópias ao redor do mundo e nos forneceu ótimos singles como “Do It Like A Dude”, “Price Tag”, “Laserlight”, “Who’s Laughing Now” e a faixa-título. Dali em diante, era de se esperar algo na mesma medida do seu debut, então ela lançou seu segundo álbum “Alive” – que infelizmente não fez jus ao nome – . O álbum até apresentava algumas faixas interessantes (“Wild”, “Excuse My Rude” e “Thunder”) e uma sonoridade cativante, mas seu público sentiu uma Jessie J que parecia não se conectar aos versos que cantava. A ideia do álbum era mostrar um lado mais seguro da cantora, mas não convenceu. Muitos também culpam a falta de divulgação em território americano e a gravadora da cantora. Após isso, a britânica voltou aos estúdios para escrever seu terceiro álbum, com um maior apelo comercial e radiofônico intitulado “Sweet Talker”, e como primeiro single lançou a viciante “Bang Bang” com dois nomes de peso: Nicki Minaj e a queridinha do momento no Pop, Ariana Grande. A música foi um sucesso e o clipe já ultrapassa o 1 bilhão de views no Youtube, o álbum causou certo burburinho, chegou a ter outros dois singles (Masterpiece e Burnin’ Up), mas ainda estava longe de atender as expectativas, embora tenha uma qualidade indiscutível.

Além deste período difícil na carreira, Jessie se deparou com uma batalha dolorosa contra alguns problemas de saúde e a perda de seu avô durante sua pausa de dois anos. Enquanto seus fãs aguardavam a recuperação da cantora e um novo trabalho, ela foi uma das técnica na versão australiana de The Voice e, curiosamente, participou de um reality musical na China chamado The Singer, do qual saiu a vencedora. Aparentemente se recuperando de todas as adversidades e pronta para voltar a fazer o que faz de melhor, ela anunciou seu quarto álbum de estúdio chamado “R.O.S.E.” que, inclusive, é o nome de sua mãe. O novo trabalho foi lançado entre os dias 22 e 25 de maio em formato de 4 EP’s, cujas partes representam cada uma das letras que, por sua vez, têm temáticas diferentes abordadas pela cantora. São elas: Realisations (Realizações), Obsessions (Obsessões), Sex (Sexo) e Empowerment (Empoderamento), respectivamente; O disco já conta com 4 singles: “Real Deal”, “Think About That”, “Not My Ex” e “Queen”.

Ouvimos o álbum e preparamos uma resenha, faixa a faixa, para falarmos detalhadamente desse novo trabalho e dessa nova fase da cantora.

Capa da primeira parte do álbum

 PARTE 1 – R.EALISATIONS

Oh Lord – Neste interlude acompanhado de um baixo, tom Gospel e simples, Jessie J apenas pede dias melhores e que ela encontre seu caminho, sem ser pressionada a fazer o que não quer. Destaque para o registro grave da cantora que é o ponto alto da faixa.

Think About That – embora Real Deal (que também está no álbum) tenha sido lançada primeiro que Think About That, apenas a segunda veio a ser considerada como o primeiro single do álbum. Nesta faixa com influências Urban, despretensiosa e acompanhada de um piano, Jessie J relata um relacionamento abusivo onde ela se via pressionada à fazer coisas que ela não gostaria e se diz usada para gerar lucro. Aparentemente um shade – bem direto – para alguém que cuidava de sua carreira. Embora não cative tanto e tenha um refrão insosso, possui uma letra poderosa e profunda.

Dopamine – UAU, Certamente a minha favorita de todo o álbum por seu conteúdo lírico, essa batida urban e o baixo dando uns pequenos breaks na melodia. Nesse verdadeiro hino, Jessie J faz uma crítica à superficialidade e alienação. Não é errado dizer que vivemos em um período onde a interatividade nas redes sociais e até a própria televisão nos fazem acreditar em diversas coisas como se, de fato, fossem a realidade maravilhosa e feliz enquanto o mundo real está sangrando, passando por um caos, e mesmo assim buscamos nos antenar apenas no que é cômodo. E geralmente quando nos deparamos com todos esses tristes fatos, falamos deles por 2 segundos, subimos uma hashtag nas redes sociais e deixamos isso de lado logo em seguida para voltarmos a exaltar e nos distrairmos com futilidades alheias. É como ela diz no refrão, estamos viciados na dopamina. Estamos viciados na falsa felicidade que vemos e estamos viciados, inclusive, em reproduzí-la. Certamente uma das melhores e mais maduras músicas que ela já fez.

Easy On Me – De todo o álbum, esta é a faixa favorita da cantora. Ainda seguindo com o Soul e R&B, Jessie J pede para que não seja pressionada e clama para que respeitem seu tempo de amadurecer. É como se aqui fosse mais uma crítica às pessoas que cuidavam de sua carreira, pois não é novidade para ninguém que, após o baixo desempenho de seu álbum Alive (e até durante ele), ela precisou adotar uma postura mais comercial e assim tentaram fazer dela mais uma show woman da indústria, quando na verdade ela gostaria de seguir outro caminho. Ao final da canção, é possível ouvir a voz de um homem; É a voz do avô de Jessie J incentivando-a a não ser tão dura consigo mesma e buscar o que gosta e o que acredita, nunca fazer o que a obrigam. Eles tiveram essa conversa uma noite antes dele falecer devido aos problemas cardíacos que sofria pois sofria. Não sei vocês, mas fiquei muito emocionado e arrepiado enquanto ouvia essa música.

Capa da segunda parte do álbum

PARTE 2 – O.BSESSIONS

Real Deal – Como dito lá no início, esta foi a primeira faixa a ser lançada, porém Jessie disse que não seria esta que começaria os trabalhos do álbum. Com uma melodia cativante, aqui, a britânica mergulha de cabeça no R&B e no Urban enquanto canta sobre encontrar algo que, de fato, a faz feliz e que a deixa confortável de ser quem ela é. Honestamente, quando soube que esta música entraria para o disco, eu não me animei. Não morro de amores por ela, mas agora, pelo conteúdo lírico e pela similaridade ao som do “Who You Are”, entendo as razões para ter sido incluída.

Petty – Nada pior do que pessoas que perdem seu tempo destilando ódio e raiva ao invés de fazerem algo produtivo em benefício próprio, não é? Em um tom urban mais pesado e um refrão que gruda na cabeça instantaneamente, Jessie J questiona as razões que levam as pessoas a destilar tanto ódio e difamá-la por aí, os típicos haters que querem apenas uma atenção mínima por nada a não ser raiva gratuita. Uma das minhas favoritas.

Not My Ex – No segundo single do álbum e provavelmente o mais popular, Jessie J mexe em suas feridas amorosas, expondo suas dores do seu antigo relacionamento para poder se curar e se permitir ser amada. Com um tom acústico e um baixo ao fundo, ela relata todas as suas frustrações e ilusões ao seu novo romance e que, embora tenha passado por todos esses traumas de um relacionamento abusivo, não quer ter medo de se entregar novamente. Ela reconhece que quer ser amada e que não deve levar bagagem de um relacionamento para outro, a vida anda para frente. Pessoas vão nos machucar, mas acima de tudo elas nos ensinam a não sermos como elas. Outra música com uma linda mensagem para quem precisa seguir em frente.

Four Letter Word – Fiquei assustado com a letra dessa música. Jessie J grávida? Se olhar minuciosamente, dá a entender que sim, mas aparentemente é só uma metáfora para o seu novo disco. Aqui a cantora fala sobre recomeço e voltar ao seu próprio caminho, reassumindo sua identidade.

Capa da terceira parte do álbum

 PARTE 3 – S.EX

Queen – “Eu amo meu corpo. Eu amo a minha pele. Eu sou uma deusa. Eu sou uma rainha”, não é preciso ouvir mais de uma vez para esse refrão grudar e você se pegar cantarolando vez ou outra. Intimista, empoderada, carregada de emoção e segurança, Jessie J não apenas sabe que é uma rainha, mas também quer que todas as mulheres se vejam assim. Nos versos do terceiro single do álbum, a britânica implora para que as mulheres deixem de se guiar pelo padrão da sociedade e as opiniões alheias e busquem o seu amor e segurança dentro de si. Recentemente ela lançou um clipe simples e direto apresentando mulheres de todas as maneiras, tamanhos, cores e tipos físicos, esbanjando elegância e força. A música mergulha nas influências R&B, apresentando uma melodia simples, equilibrada e com uma letra sem rodeios.

One Night Lover – “É hora de perceber que há muito mais para mim do que ser apenas sua amante por uma noite”. Esse verso logo no início da música já diz muito sobre ela. Jessie J reconhece seu valor e percebe que merece muito mais do que ser alguém disponível apenas para quando seu ex embuste achar conveniente e quiser satisfazer suas vontades. É mais uma mensagem para quem precisa seguir em frente. Sabemos que términos são bem complicados de superar, ainda mais se tratando da questão sexual, afinal, somos seres humanos, mas precisamos desapegar.

Dangerous – Provavelmente a faixa mais sensual do álbum inteiro, e é bem interessante. A influência R&B dos anos 80 é evidente nesta faixa. Assim que começou a tocar, eu me lembrei do hino “Ain’t Nobody” de Chaka Khan que também tem um apelo sensual ótimo. Em Dangerous, Jessie J exalta o sexo com um cara que a impressiona e mexe com sua curiosidade, pois ele tem um ar misterioso. Ela mesma disse que quando estava com ele, não tinha hora e nem lugar, pois ele despertava seu wild side.

Play – Espera aí, eu já ouvi esse sample em algum lugar. Claro! Cheryl Lynn e sua icônica Go To Be Real (1978). Jessie J na pegada Disco é uma grata surpresa, casou otimamente com seus vocais. Play é uma faixa upbeat contagiante e a única faixa do álbum que não foi escrita pela britânica. A letra não é tão profunda como as outras faixas, aqui vemos uma Jessie J mais descontraída e apelando, sem exageros, para o lado sensual. Ela só quer atenção de seu amado num jogo de sedução e que ele a satisfaça. Certamente uma das minhas favoritas.

Capa da quarta parte do álbum

PARTE 4 – E.MPOWERMENT

Glory – Uma faixa R&B onde Jessie J aparentemente quer que vítimas de algum tipo de violação não se calem e se sintam sozinhas. “É uma vida da qual não podemos fugir, então vamos consertar isso agora“, foi um dos versos que mais chamou minha atenção, principalmente imaginando uma perspectiva feminina: aparentemente ela canta sobre assédio sexual. Embora a letra interessante, não é uma faixa que se destaque.

Rose Challenge – É apenas um interlude de cinquenta e cinco segundos, mas através do Instagram, Jessie J lançou um desafio para incentivar cantores e compositores. Então você que deseja seguir a carreira musical, escreva uma música, faça um vídeo seu cantando-a e mande para ela usando a hashtag #RoseChallenge. Mais informações no Instagram da cantora.

Someone’s Lady – Que vocais poderosos! Que afinação! Que música linda! É notável que desde o “Who You Are”, onde Jessie J explorava alguns arranjos no estilo Soul, nunca mais vimos nada daquele calibre até chegarmos ao “R.O.S.E.”. Someone’s Lady é uma faixa que lembra bastante o seu debut. Aqui, ela resgata suas raízes no Soul sem medo, abusa dos seus melismas implorando para ser amada e que reconheçam seu valor. Resumindo, é um grito de socorro, de dor. É sobre valorizarmos todo o seu processo como artista e toda sua dedicação que a fez chegar até aqui, onde ela se encontra e onde ela quer estar. Ela quer resgatar aquela energia que a levou ao topo em meados de 2011 e 2012 pois é o que a motiva a ser melhor e fazer melhor. E, convenhamos, essa faixa é a prova de que ela merece.

I Believe in Love – A última faixa do álbum soa como um suspiro de alívio, uma verdadeira brisa leve depois de tórridos momentos. Jessie J finalmente se encontrou, se ama e sabe por onde deve seguir. A maravilhosa I Believe in Love é uma ótima maneira de concluir essa nova jornada. Com um toque de Jazz e Gospel, ela canta sobre superação e compreende que todas as experiências do passado foram como aprendizados, e que o amor tudo cura. Com mais controle sobre sua carreira e sobre sua vida, ela agora acredita que tudo acontece por uma razão e que dias melhores sempre virão.

CONCLUSÃO

Embora tenha falhas, “R.O.S.E.” é um álbum poderoso, totalmente despretensioso e com uma bela história. Denso, mas com arranjos simples e sem oscilação melódica ou apelo comercial, honesto, carregado de emoções, aprendizados e mensagens motivacionais. É possível sentir a verdade de Jessie J e sua alma no disco. Uma cantora com um grande potencial, qualidade, talento e que, acima de tudo, é mais do que números. Ter coragem para expor suas feridas de uma maneira tão franca e autêntica como ela fez aqui é admirável. Vê-la resgatando sua identidade é muito bom. Valorizem esse trabalho, vale mais do que números de vendas e posição nas paradas.

Nota: 9,7

FAIXAS PARA OUVIR: Dopamine, Petty, Play e I Believe in Love.

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