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Opinião: Por que fomos ensinados a odiar as mulheres na música e no entretenimento?

De Anitta a Taylor Swift, é incontável o número de mulheres que já foram desqualificadas só por serem mulheres na arte

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Foto: Reprodução/Instagram

Se você não vive debaixo de uma pedra, provavelmente já deve ter visto algum comentário maldoso destilado contra uma artista da música, ou do entretenimento em geral. Talvez, você mesmo já tenha sido essa pessoa a comentar. As últimas semanas, para quem acompanha a indústria musical e cinematográfica, foram um prato cheio para entender esse cenário. Seja com indiretas às tatuagens de Anitta até as controvérsias envolvendo o processo de Amber Heard, as críticas nunca pouparam as mulheres nesse universo. De fato, apenas pioraram.

Não que sejamos obrigados a gostar de uma artista X unicamente por ser uma representante feminina, ser do nosso país (até quando a gente não gosta, a gente fica um pouco patriota vendo os recordes históricos, não é mesmo?), ou por ter relação com outra pessoa que gostamos. Na verdade, ninguém é obrigado a gostar de nada. Mas existem certos limites entre não gostar e propagar ódio gratuito, que vai muito além da “birra” pela notoriedade ou discordância com as atitudes.

Rivalidade feminina

Um dos pontos mais estressados das últimas décadas, sem dúvida, foi a rivalidade feminina. O caso mais emblemático é de Britney Spears e Christina Aguilera, a partir do boom da música pop como conhecemos em 1990 e 2000, e do fim do relacionamento de Britney com Justin Timberlake. As princesinhas do pop, queridas pela imprensa, eram alvo de amor e ódio. Afinal, em algum momento passou a ser proibido gostar das duas. Uma, ou outra. Um cenário idêntico se repetiu poucos anos depois, entre Lady Gaga e Madonna. 

Racionalizando esse pensamento, fica evidente o quão frágil é a argumentação. Quem tem mais hits? Quem ficou mais tempo nas paradas da Billboard? Quem vendeu mais? Quem tem mais carisma? Quem é mais bonita? Esses são questionamentos que, arrisco dizer, as bandas de rock não ouviam naquela época. E nem ouvem, até hoje.

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Britney Spears e Christina Aguilera foram “rivais” na música na era de ouro do pop | Foto: Reprodução

Fast-forward para meados dos anos 2000, Destiny’s Child também entrou no palco da mídia para a promoção da briga entre mulheres. Quando Beyoncé decidiu partir em carreira solo, foi, praticamente, o fim da carreira para as outras. Dentre elas, somente Kelly Rowland conseguiu ressurgir e ainda foi responsável por um dos maiores hits da década, mas você não a vê por aí lançando superprojetos. Muito pelo contrário: sobram comentários como “nunca será Beyoncé”.

No Brasil, provavelmente um dos casos mais conhecidos é o de Ludmilla x Anitta. Pode até ser que elas não sejam melhores amigas atualmente, mas muito disso também pode ser sustentado pelos rótulos criados para uma e outra. Desde quando começamos a competir por quem representaria melhor o funk? Ou tem o maior número de streams no Spotify? Ou que tem as melhores parcerias? Qualquer mérito desses, é um gosto meramente pessoal.

Slutshaming na indústria musical

Esse tópico será rápido pois não necessita de tanta explicação, apenas pequenas mostras para que você consiga entender o quão problemático tudo isso se tornou. Luísa Sonza é, provavelmente, uma das mulheres que mais sofre nesse aspecto. Tudo isso porque ela terminou um relacionamento com um homem famoso. E tudo isso, também, porque seguiu sua vida, fazendo música, sendo jovem, se divertindo e sendo bem sucedida, como já diria “successful”, de Ariana Grande.

Luísa é diariamente atacada na internet por n motivos. Sua roupa (ou falta dela), seu sotaque, sua voz, sua forma de se expressar e dançar. Quando refletimos sobre isso, percebemos o quanto negamos a uma artista usar todo o seu potencial para fazer arte. E a troco de quê? O que ganhamos com isso? O que a música ganha com isso? E desde quando essas artistas precisam pedir permissão?

Propriedade intelectual feminina

Mais um tópico que será rápido de mostrar evidências. Aqui vão dois casos para jogar luz no quão tóxico tudo se tornou: novamente, Britney Spears. E, pela primeira vez, Taylor Swift. Acompanhamos de perto (talvez até perto demais, um dia precisaremos falar mais sobre isso…) todo o processo #FreeBritney, que finalmente culminou na liberdade da cantora poder ser dona de sua própria vida. Dessa vez, nem será necessário citar que todos os seus trabalhos e royalties estavam na mão de homens enquanto ela era impedida até mesmo de ver os filhos.

Já o caso de Taylor Swift foi menos extremo, mas tão triste quanto. Ao assinar o contrato com gravadora pela primeira vez, aos quinze anos, a cantora não tinha a menor noção de que, a partir dali, não seria mais dona de seu próprio trabalho. Ela foi negada diversas vezes a possibilidade, arriscando perder tudo o que havia conquistado até então. Foi quando concebeu o seu maior ato de rebeldia na música: regravar tudo, do seu jeito. E de uma forma revolucionária, possivelmente foi a primeira cantora a emplacar uma música de dez minutos no topo da Billboard em muitos anos. Um marco importantíssimo para a geração TikTok, como já falamos por aqui.

As “fangirls”

Não somente as artistas estão sujeitas a lidar com o ódio na música, como fãs também estão. O conceito de fangirl já foi muito difundido na nossa geração, e usado de maneira corriqueira para definir as fãs mais apaixonadas por determinados artistas.

Porém, quando buscamos a raiz dessa palavra, facilmente compreendemos que, por muitos anos, esse foi um termo utilizado para classificar o fanatismo e a histeria. De certa maneira, todas as piores demonstrações de admiração por um artista estão atrelados à espécie fangirl, meninas jovens e aparentemente descontroladas, histéricas e insuportáveis. Seria apenas uma coincidência?

Conclusão: Ainda dá tempo de mudar

Como dito no início desse texto, obviamente não precisamos e nem somos obrigados a gostar de ninguém. Você, que ainda está lendo isso, pode ter torcido o nariz ao ver certos nomes citados aqui. O famoso “é sobre isso, e tá tudo bem”.

O problema é que não tá tudo bem, muitas das vezes. Não é saudável, para ninguém, essa guerra velada onde é natural termos mais uma polêmica envolvendo qualquer mulher simplesmente por ser uma mulher. Por estar namorando quem ela quer, por usar as roupas que ela quer, falar e cantar sobre o que gosta, expressar sua sexualidade ou as filosofias de vida que segue. 

Ainda é possível criar um ambiente mais harmonioso. Pelo menos aqui, entre nós, essa união precisa existir. Já entre gravadoras e tablóides… É uma mudança que precisamos exigir, mas são passos muito mais largos para chegar até lá. Da mesma forma que nós não somos amigos dos artistas, o que não nos dá direito de xingar ou falar o que quisermos (aliás, nem se fôssemos amigos seria legal, dessa forma), também não precisamos ser inimigos deles. Ou criar inimizades por conta disso. 

Há de se lembrar, sempre, que a música é um dos melhores meios de chegar à felicidade plena, pelo menos por alguns minutos. Ficamos tempos demais trancados em casa, sem acesso, para perdermos tudo porque banalizamos talentos em troca de rancor.

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