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Review: Halsey alcança outro patamar em novo álbum, “If I Can’t Have Love, I Want Power”

Se minimamente você acompanha a carreira de Halsey, possivelmente já percebeu que os seus discos trazem um grande conceitos e estéticas por trás. Em “Badlands(2015) ela criou o conceito de um sociedade distópica; já em 2017, no Hopeless Fountain Kingdom, “Romeu + Julieta” de Baz Luhrmann foi a sua inspiração para falar sobre um grande término; e no último disco, lançado no começo de 2020, “Manic” representa um lado seu menos metafórico e mais sobre a sua vida real como Ashley, com muitas referências cinematografias, que vão de “Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança” a “Garota Infernal”. E é claro, que no seu quarto disco de estúdio, o “If I Can’t Have Love, I Want Power”, lançado nesta sexta-feira (27), a coisa não seria diferente.

Foto: Divulgação/ Lucas Garrido

Além do álbum, o projeto é acompanhado de um longa nos cinemas, que expande toda a estética e ambientação feita para o disco. Quem imaginaria que aquela artista, que começou ali pelo Tumblr e cantando em shoppings, lançaria o seu quarto disco de estúdio produzido por nada mais nada menos que Trent Reznor e Atticus Ross, da disruptiva banda de rock industrial Nine Inch Nails?

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Como rolou o feat entre o rock e Halsey?

Adotando uma estratégia bem diferente dos seus últimos projetos, desse vez o quarto álbum de estúdio chegou sem muitas informações prévias. Pegando todos de surpresa, no início de julho, Halsey publicou no seu Instagram a capa do “If I Can’t Have Love, I Want Power” (inclusive, com uma das melhores capas do ano). Mas até quando você escuta o disco por completo, você entende o motivo.

Foto: Reprodução

Não é segredo para ninguém que o rock voltou a se popularizar no cenário pop e mainstream. Exemplos não faltam: Olivia Rodrigo, Travis Barker, WILLOW… e a lista continua. Mas na verdade, a paixão de Halsey está distante de ser apenas para cumprir uma tabela do que está em alta no momento.

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Na verdade, se você olhar um pouquinho nas suas influências e até em seu repertório, Halsey sempre foi um grande fã do gênero, destacando em várias entrevistas as suas grandes inspirações em The Cure e Nirvana. Até se formos recapitular, essa junção de Halsey com o rock já aconteceu antes. Começou em 2019 como a sua participação em “11 Minutes”, música de YUNGBLUD com Travis Barker.

No mesmo ano Halsey lançou o single de comeback, “Nightmare”, que misturava o trap nos versos com momentos explosivos de rock com acordes de guitarra agressivos e baterias no refrão, encapsulando o momento de raiva da cantora. Para a tristeza de muitos fãs, a música ficou de fora do Manic (descanse em paz).

Em 2020, a cantora participou também de “forget me too”, uma música bem pop-punk anos 2000, do Machine Gun Kelly.

Não podemos esquecer também do single que fez parte a trilha sonora do filme “Aves de Rapina”, com “Experiment On Me”, onde ela aflorou todo o seu lado heavy-metal na música.

Bom, o terreno para essa era roqueira já estava pronto. Mas o que não sabíamos é que só chagaria agora em 2021. Até no “Manic” tem alguns momentos em que ela cruza a sua música com o rock, como em “3 AM”, que tem toda aquela sonoridade pop-rock anos 2000. Inclusive, quem toca bateria na música é Chad Smith, baterista do Red Hot Chili Peppers. Mas só foi agora em “If I Cant’ Have Love, I Want Power” que os dias do rock para Ashley chegaram. E até de um jeito inesperado, contra a corrente do momento.

“If I Can’t Have Love, I Want Power” funciona?

Diferente de todos os álbuns de Halsey, na primeira vez que terminei de escutar eu tiver que dar um tempo para absorver o que tinha acabado de ouvir. Mas não porque é ruim. Longe disso, é um dos melhores discos até então da sua carreira. O projeto é um dos mais ambiciosos da cantora, tanto pela magnitude, como pela sonoridade e da estrutura como um álbum. Bem distinto de tudo que ela já fez.

E talvez por esses pontos que seja um álbum mais difícil de absorver de uma vez. É um disco que precisa de várias audições para enfim formar uma opinião mais concreta. Então ouvindo pela segunda vez, as músicas fizeram mais sentido e assim consegui apreciar cada detalhe e significado por trás de cada verso.

Dá uma sensação de que é uma grande história épica, cheia de nuances, que está sendo contada. É uma verdadeira imersão de emoções, com muitas analogias que de início podem passar despercebidas, mas olhando mais de perto, se transforma em algo genial.

Nine Inch Nails + Halsey

O que Nine Inch Nails tinha de tão inovador na época que começou, no final dos anos 80, era o sentimento de revolta, intensidade e aquela estética e atitude gótica de suas músicas. Trazendo o rock industrial, até mais tarde flertando com a música eletrônica, o conjunto conseguiu levar esse tipo de sonoridade pouco comercial, na época, para o topo das paradas, vendendo milhões de cópias. Trent Reznor e Atticus Ross, integrantes do conjunto, elevaram toda a visão cinematográfica que Halsey já tinha em suas músicas. Afinal, a dupla nos últimos anos tem trabalhado em trilha-sonoras originais para filmes, que resultou em duas estatuetas do Oscar. Uma em 2010, pelo filme “A Rede Social”, e outra em 2021, pela animação “Soul”.

Imagem: Reprodução/Youtube

Os sintetizadores, guitarras estouradas, bateria frenética que bem conhecemos do Nine Inch Nails está presente ao longo das 13 faixas do “If I Cant’ Have Love, I Want Power”. Essa raiva, insatisfação, dor e encontro com seus próprios demônios são traduzidas de forma tão eloquentes e precisas em cada pedacinho da produção do disco. A sequência das músicas são inteligentemente articuladas, de tal forma que é difícil imaginar elas como um componente solitário. É como se uma precisa da outra, dentro de um contexto do álbum, para brilhar na sua melhor forma. A produção refinada só engrandece a ambientação grandiosa e cinemática do disco, evocando todas as nuances de emoção que Halsey provoca em suas letras.

Seja em momentos mais introdutórios, e que rementem ao começo de um fábula de horror, como em “The Tradition” e “Bells In Santa Fe”; Até chegar no clímax de revolta e explosão, em “You asked for this” e “I am not a woman, I’m a god”; e também captando a sensibilidade em momentos mais introspectivos sobre vida, morte e posterioridade, como no enceramento do disco “Ya’aburnee”, essa combinação inesperada da dupla com a Halsey é um grande acerto. Algo que até fez com que a cantora saísse da sua zona de conforto, já que na maioria dos seus álbuns trabalhava com quase a mesma equipe, principalmente com Lido e Benny Blanco. Inclusive, o álbum tem participações especiais de Lindsey Buckingham (Fleetwood Mac) tocando violão em “Darling”. E também David Grohl, vocalista do Foo Fighters, nas baterias da faixa “honey”.

Os destaques do álbum

Easier than Lying”

O começo da música com a bateria frenética ecoando junto com a guitarra e sintetizadores, deixou quase uma sensação do início de um show ao vivo, sabe? Cantando sobre uma desilusão amorosa, mas especificamente sobre aquele momento de realização que a pessoa simplesmente não te amava, o refrão explosivo combina com o vocal quase gritado, libertando toda a raiva e descontentamento. Aqui é como se fosse o momento de ação dentro do filme. Com certeza é o momento mais Nine Inch Nails do álbum!

“Girl is a Gun”

Esse é um dos momentos mais divertidos, leves e até sexies do disco. Ao mesmo tempo que Halsey canta sobre conquistar alguém, em um tom bem provocativo, ela também deixa bem claro o quanto é perigosa, e talvez seja até melhor procurar outra garota. A produção é embalada por sintetizadores frenéticos, que em certo momento pareceu até uma espécie de drum and bass dos anos 90.

“Darling”

Entre vários momentos introspectivos do álbum, essa talvez tenha sido a que mais me tocou. Destacando o momento acústico do álbum, só com voz e violão, Halsey mostra um lado mais vulnerável seu. Falando sobre pequenas coisas que a davam esperança, mesmo crescendo em um lar longe de ser prefeito, mas que mesmo nos momentos mais difíceis, há espaço para achar o amor. É uma carta de amor, que devido a todo o contexto, suponho que seja dedicada ao seu filho.

“Whispers”

Trazendo mais um momento sombrio do disco, essa é uma faixa que estaria em um dos momento mais aterrorizantes de um filme, em que tudo dá errado e se torna assustador. Na letra Halsey faz um grande introspecção sobre suas vontades e impulsos, mesmo que não se orgulhe deles e tente se distanciar. E esse clima junto aos sussurros que ilustram os impulsos de sua cabeça, lembra até uma pouco algumas faixas do primeiro álbum. É como se fosse uma versão mais adulta de “Control”.

Considerações finais

Imagem: Divulgação

Não que seja um álbum “cabeça” ou difícil. Mas acho que com composições e produções tão ricas e amarradas muito bem em uma linha narrativa e conceitual, e até difícil absorver tudo que ele tem a oferecer apenas de uma vez. É aquele tipo de álbum para reservar um tempo, botar os fones e entrar de cabeça nesse universo.

No final, é um projeto que fala sobre equilíbrio e conquista. É sobre abraçar e explorar o seu lado poderoso, mas também reconhecer a sua faceta destrutiva e sabotadora, que muitas vezes vem de você mesmo.

Em um pouco mais de 42 minutos de disco, entramos no subconsciente de Halsey, e conhecemos esse seu lado introspectivo, e por vezes sufocantes. No final, “If I Can’t Have Love, I Want Power” é um dos trabalhos mais grandiosos e bem polidos da cantora, tanto em composição como na produção, e que daqui uns anos vai ser olhado como um grande marco em sua carreira. Livre de querer se provar para a indústria ou público, Halsey mostra a maturidade e consistência de mais um trabalho.

Nota: 9/10

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