Entrevista: Bruno Martini fala sobre seu álbum de estreia, parcerias e o cenário da música eletrônica

Você pode não conhecer o Bruno Martini, mas provavelmente já escutou o trabalho dele por aí!

Por em 12 de março de 2021

Por: Ana Clara Pinheiro

Você pode não conhecer o Bruno Martini, mas provavelmente já escutou o trabalho dele por aí! De ter uma banda de rock na escola ao virar o encanto da Disney com College 11, o artista foi se aventurando no mundo da música até dar o primeiro passo em direção à carreira solo. Ao lado de Zeeba e Alok, ele é hoje o dono do recorde de música brasileira mais tocada no Spotify com seu debut single.

Com um começo desses e com suas seguintes faixas, o seu álbum de estreia era um projeto esperado por muitos. Depois de muita expectativa, “Original” finalmente está entre nós! O Track teve o prazer de conversar com o DJ/produtor para elogiar a obra e perguntar sobre como foi dar esse próximo passo na carreira. Vem conferir!

Bruno, você vive ao redor de música desde pequeno e seu background é super interessante. Para nossos seguidores que possam não te conhecer, você pode contar um pouco sobre como você começou na música e se apaixonou por ela?

Pra mim a música sempre foi um processo natural porque meu pai também é músico. Quando você é exposto da forma que eu fui, aquilo acaba se tornando parte de você, sabe? Eu via meu pai tocando guitarra, vinham vários músicos na minha casa, meu pai tem banda até hoje [a Double You]. Eu comecei a tocar violão com 8, 9 anos de idade, roubei o primeiro violão lá de casa e comecei a querer fazer aula. Na minha escola tinha aula de música com um professor que me ensinava a tocar violão também. Meu pai gostava muito de rock, então eu ouvia muito rock clássico, tipo Deep Purple e Led Zeppelin. Comecei a tentar tirar solo na guitarra e foi uma bola de neve! Fiz uma banda de escola com 11, 12 anos e vendia ingresso a 1 real pra conseguir alugar a caixa de som hahaha. Sempre foi muito natural todo o processo, sabe? Com 14 anos, comecei a querer fazer minhas músicas e comecei a compor. Conheci a Mayra, que é uma super parceira minha até hoje, e a gente começou a fazer música juntos. Ela tinha voltado pro Brasil depois de morar 10 anos nos Estados Unidos, ficamos super amigos e começamos a fazer música juntos. Isso foi bem na fase que eu tava aprendendo a mexer e compor… Começou a acontecer um monte de coisa a partir daí.

Quando falamos da sua carreira solo, a sua trajetória é incrível! Seu debut “Hear Me Now” é hoje a música brasileira mais reproduzida do Spotify, você já colaborou com grandes nomes do cenário internacional, como Timbaland, Lady Gaga, Jason Derulo, etc. Como você se sente com esse tipo de reconhecimento com o seu trabalho?

Eu me sinto muito grato que as pessoas, de alguma forma, escutam minha música. O Timbaland pra mim foi o meu maior ídolo desde pequeno e eu não falo isso porque fiz música com ele não haha. Ele revolucionou a música! Hoje em dia, a gente tem acesso a vários tipos de sons por causa da tecnologia, mas na época dele era tudo muito difícil. O que o Timbaland fez era uma sonoridade muito revolucionária pra época e pra mim aquilo era genial… Eu tentava fazer as coisas que ele fazia e falava que queria trabalhar com ele. Quando eu fiz minha carreira solo, ele ouviu uma música minha que se chama “Living On The Outside” e se apaixonou. Eu tava fazendo um show em Las Vegas no Festival EDC e meu time recebeu um e-mail falando que o Timbaland queria entrar em estúdio comigo. Eu não acreditei, né? Eu tinha várias músicas gravadas, mandei pra ele, ele adorou e falou pra eu ir pro estúdio. Era pra gente ficar dois dias juntos, acabou que eu fiquei dez dias com ele. Foi a partir daí que começou o processo do meu álbum, o “Original”.

A Lady Gaga também, né? Quando chegou um email da gravadora falando que a Lady Gaga queria que eu fizesse um remix pra ela, eu falei: ‘Ah, tá bom’ haha! Eu fiz sem criar esperança, até lançar eu não falo nada, porque tudo pode mudar. Acabou que ela amou, e ele (o remix) foi super bem recebido! Fiquei super contente com tudo que rolou.

Distribuição

Depois de muita espera, seu primeiro álbum, “Original”, já está com a gente. Como foi para você fazer passar de singles para um projeto extenso que tem a sua cara?

Cara, é muito louco, porque hoje em dia as pessoas até ficam se perguntando se ainda escutam álbuns. Eu tentei realmente fazer alguma coisa que tem a ver comigo, contar minha história. Como artista é muito importante ter uma trajetória. Não só de singles, mas um álbum também, porque ele é um marco pra cada artista. Eu sempre tive esse sonho de poder lançar um álbum meu. Eu sou DJ e amo música eletrônica, mas não é um álbum de música eletrônica. É um álbum com referências do Bruno Martini, de coisas que eu escuto a vida inteira… Eu quero que as pessoas tenham acesso a esse lado que talvez elas não sabem.

“Original” é um álbum eclético, cheio de referências e, claramente, deve ter sido uma jornada incrível pra ti, explorar tantos gêneros diferentes. Essa era a ideia inicial do disco?

Eu pensei muito menos que isso, foi muito natural. O start disso tudo foi o marco com o Timbaland por tudo que ele significa pra mim. Eu sei o peso que tem fazer coisa com ele, sabe? Eu falei que não podia fazer isso tudo sozinho, queria que algum artista cantasse também. A primeira pessoa que veio na minha cabeça foi a IZA, já que ela tem tudo a ver com a letra e estilo. Ela cantou “Bend The Knee” e eu mostrei “Original” pra ela e ela adorou a música. Entre eu e ela a gente gosta muito de “Original”! Ela é diferente, vocês vão ouvir… é outra pegada. O que que é ser original, né? É ser você mesmo. A gente às vezes se prende às coisas pra esconder quem a gente é. Referências são sempre importantes na nossa vida, tem várias músicas que eu escuto que eu queria ter feito. No fim das contas, o original é ser você e esse é o maior diferencial que tem da vida. Foi a partir disso que comecei a desenhar todo o projeto do álbum.

Seu novo single, “Ain’t Worried”, chegou nesta sexta-feira junto com o álbum e é a única música com duas participações femininas. A Luísa Sonza, que não precisa de apresentações, e Diarra Sylla, que participava do Now United e recentemente lançou seu debut solo “Set Free”. Como foi o processo de produção e como você juntou as duas meninas na faixa?

Eu recebi um email da Diarra falando que adorava minhas músicas e perguntando se eu tinha alguma coisa pra gente fazer juntos. Eu tinha acabado de fazer “Ain’t Worried” com a Mayra, várias canções do álbum eu escrevi com ela. Eu mandei essa música pra Diarra e ela se apaixonou! Perguntou se podia cantar e eu falei que era óbvio, mas ela sumiu e eu achei que não ia rolar mais. Depois de um tempo, eu tava no estúdio de madrugada com a Mayra e fomos pra uma padaria comer um misto quente. Começamos a conversar e pensar em quem poderia cantar em “Ain’t Worried”, e ela sugeriu fazer com a Luísa. Eu mandei mensagem pra Luísa sem nem conhecer ela e ela respondeu na hora falando que adorou. Um dia antes da gente gravar, a Diarra apareceu! Eu perguntei se rolava fazer nós três e as duas piraram na ideia e foi tudo acontecendo.

Você pode falar mais um pouquinho pra gente sobre o videoclipe? Como foi a construção do conceito?

Esse vídeo é muito especial pra mim. O diretor desse vídeo (Seven Zee) é meu VJ, ele é quem me acompanha nos shows. O Zee sempre foi muito bom, eu falei que ele tinha que fazer videoclipe e ele topou. Ele fez “Skin” e o clipe ficou outro nível, então eu dei o desafio de bolar um plano pra “Ain’t Worried” e ele aceitou. Eu perguntei se ele segurava “a bucha” porque é um clipe grande, a gente tinha que representar, né? Ele falou: “Mano, vamos pra cima”! Apresentei tudo pra Universal e o resultado final ficou maravilhoso. Acho que é o videoclipe mais bonito que eu já fiz de todos, sério.

Qual foi a produção do álbum mais complexa ou difícil pra você terminar?

Eu tenho um processo meio maluco. Eu sou um cara muito apaixonado, então se eu estou no estúdio com pessoas legais e a energia tiver certa, as coisas vão fluir naturalmente. A gente grava a música em um dia. Se a música demora, as coisas não fluem. Talvez o mais difícil de tudo isso é fazer tudo encaixar. Por exemplo, “Ain’t Worried” foi um processo… pegar o vocal de uma, gravar com a Luísa, trazer o vocal da Diarra de Los Angeles, encaixar na música. A pós-produção também é difícil porque sou muito perfeccionista.

Um ponto bem legal do álbum é que as participações nas 17 faixas estão bem equilibradas entre artistas femininas e artistas masculinos. Em sua visão de produtor, qual o maior benefício musical de trabalhar com cada um?

Acho que nenhum. É diferente, depende da música, da letra, do que encaixa melhor pro artista. Pra mim depende da vibe, eu sou muito grato de ter várias vozes fortes femininas no meu álbum. Tem a IZA que é um ícone pra gente no Brasil por tudo que ela representa. A Luísa também, a Becky Hill. Ter essas vozes tão fortes e de formas diferentes foi um desafio pros artistas. Você escuta a música com a Luísa e se pergunta se você já ouviu ela cantar assim, entende? Foi um desafio também pros artistas toparem fazer isso, já que é sair um pouco da zona de conforto e do que eles tão acostumados a fazer. O papel do produtor é fazer acontecer e extrair o melhor do artista.

Mais legal ainda é ver nomes fora do mainstream no seu álbum, como a Carol Biazin. Me conta um pouco sobre como você enxerga seu papel nesse contexto de dar mais espaço para nomes em ascensão.

Pra mim, a música fala mais alto. Por exemplo, eu tive a oportunidade de conhecer a Carol pra outro projeto e eu não conhecia o trabalho dela, vou ser sincero. Quando eu fui atrás, eu falei: ‘Meu Deus do céu’! Vi um vídeo dela cantando e ela canta muito, é surreal. Ela veio gravar no estúdio e eu fiquei abismado com o talento dela. Falei que tinha uma música perfeita pra ela (“Stay”) e ela topou fazer. Inclusive, é uma das minhas músicas favoritas do álbum! Se a música não tivesse ficado legal na voz dela, é um papel meu falar que talvez a gente tivesse escolhido errado. A gente tem que deixar um pouco o ego de lado e pensar no melhor da música. Eu não me importo em trabalhar com artistas menores não. Tudo bem que a repercussão talvez não seja tão alta como com um artista popular, mas mesmo assim, eu faço pela música.

Mudando um pouco de assunto, pra você, o que mudou na cena eletrônica com as plataformas de streaming na pandemia?

Cara, a música eletrônica é meio complicada hoje em dia, pois a gente vive muito de pista, né? Muitas músicas são criadas na festa. Como DJ, eu tava acostumado a fazer shows de quinta a domingo, uma rotina bem louca de show. E eu amo discotecar, né? Ficar parado foi bacana pelos primeiros três meses, mas agora parece que o último show que fiz foi muito distante. As músicas eletrônicas às vezes são hits de pista, mas não necessariamente são hits nos meios tradicionais, tipo na rádio. E isso não importa, porque quando você toca nos shows, parece que a casa cai. (A música eletrônica) é construída de forma diferente e é isso que é muito legal. Parece que vem do underground, você cria com a galera das festas e é muito orgânico. Acho que a gente sente falta disso. Por exemplo, eu tô com várias músicas de pista que eu tô segurando um pouco pra lançar, já que não é a mesma coisa do que crescer a música em festa. Em contrapartida, a música eletrônica mais pop tá super em alta! MEDUZA tá indo super bem, vários artistas fazendo a diferença. O momento não é ruim, só é diferente.

“Bend The Knee” é uma das minhas músicas favoritas de 2020. É uma daquelas que te deixa feliz só de ouvir, uma vibe muito feel good. Qual música te deixa assim ultimamente?

Eu escuto de tudo, sério! Vou até procurar aqui pra você, são tantas. Ah, eu tava escutando essa agora há pouco (“The Thrill” do Wiz Khalifa com Empire of the Sun) e ela me deixa feliz. Essa música é muito good vibes!

Fazendo um trocadilho com sua música, se você pudesse se perder no tempo (“Lost In Time”), você iria para o passado ou para o futuro?

Ah, pro passado! Ainda mais agora que acabei de assistir “Vikings” haha. Não, tô brincando, mas eu queria ir pro passado. Imagina como é gravar com uma banda com toda a tecnologia que a gente tem hoje? Se parar pra pensar como eram feitas as coisas, imagina como era naquela época? As bandas tinham que ser muito ensaiadas e muito boas sem as opções de hoje.

Você pode mandar um recado pro pessoal que segue o Track?

Galera do Track, aqui quem fala é o Bruno Martini, tô muito feliz de falar com vocês. Eu espero de coração que vocês curtam “Original”, meu álbum novo, tanto quanto eu. Aproveitem muito, escutem da forma que quiserem e depois me contem sua música favorita. Beijo pra vocês!


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