Brockhampton se entrega à sua nova fase em “Roadrunner: New Light, New Machine”

O disco expõe a versão mais transparente e artística que já vimos do grupo até então, mostrando a todos como o impulso criativo do Brockhampton se fortaleceu ao longo dos últimos anos

Por em 23 de abril de 2021

Os tempos são outros para o Brockhampton. Pelos últimos cinco anos, o grupo tem percorrido uma estrada de altos e baixos em meio ao espaço que conquistaram despretensiosamente na música alternativa, tornando-se, de fato, “a maior boyband do mundo”, uma alcunha que já foi muito mais chamativa do que realista para Kevin Abstract e companhia.

Com a trilogia “Saturation”, lançada de maneira 100% independente em 2017, o grupo conquistou notoriedade com uma forte personalidade, satirizando uma fama que lhe parecia improvável apesar dos números aumentarem disco após disco. Hoje, os 13 integrantes (incluindo rappers, produtores e diretores) se encontram em um momento inédito na carreira, consolidados entre os nomes mais criativos da indústria atual conforme lidam com sucesso e pressão crescentes.

“Roadrunner: New Light, New Machine”, o sexto álbum de estúdio de sua discografia, abraça sua nova fase e nos conduz a uma outra direção em sua trajetória. Mais seguros de si, a banda explora temáticas mais densas enquanto refina a sua sonoridade à sua mais sólida forma em muito tempo; àqueles que pensavam que o Brockhampton poderia ter perdido o seu gás, o trabalho representa o respiro artístico e criativo do qual o grupo tanto precisava.


Um novo recomeço para o Brockhampton

“Roadrunner” foi feito durante o maior hiato do Brockhampton desde a sua formação, em um intervalo de um ano e sete meses. Com as gravações estendidas por conta da pandemia, o grupo teve tempo para polir melhor e adicionar novos elementos às suas músicas, apresentando-nos a lados até então desconhecidos de seu som sem abrir mão de sua identidade.

Desde o desligamento de Ameer Vann, afastado em 2018 devido a acusações de abuso sexual e psicológico, a banda tem tentado se reinventar ao seguir novos caminhos nos dois trabalhos posteriores, “Iridescensce” (2018) e “Ginger” (2019), notáveis por adotarem um estilo mais sentimental e experimental que os demais. “Roadrunner” assume a mesma proposta com músicas mais impactantes, inspiradas e, sobretudo, verdadeiras.

As 13 faixas do disco transitam entre diferentes instrumentações, transformando o trabalho em uma experiência eclética e imersiva. Os versos de “The Light” e “What’s The Occasion?”, por exemplo, ganham ainda mais força com a bateria e linhas de guitarra ao fundo, enquanto faixas como “Buzzcut” e “Don’t Shoot Up The Party” têm as produções mais explosivas do trabalho.


As participações especiais do disco também ajudam a nos apresentar às novas versões do mesmo Brockhampton, criando um clima diferente para cada música. Na pegajosa “Bankroll”, outra produção de destaque do álbum, A$AP Ferg entrega algumas das melhores rimas de sua carreira, assim como JPEGMAFIA em “Chain On”, uma das mais simples gravações do grupo. 

“Count On Me”, um dos melhores momentos da tracklist e o maior hit em potencial do disco, reúne o maior número de participações, apesar de nenhum deles ser creditado. A canção tem versos de A$AP Rocky e SoGone SoFlexy e um refrão viciante liderado por três vozes: Jabari Manwa e os convidados Ryan Beatty e, sim, Shawn Mendes — além de um videoclipe estrelado por Lil Nas X e Dominic Fike.

Com exceção de “Count On Me”, em nenhuma faixa os convidados chegam a roubar o protagonismo dos integrantes do próprio Brockhampton, que parecem estar mais afiados do que nunca em “Roadrunner”. Kevin Abstract e Merlyn Wood têm alguns dos seus melhores versos da obra, tal como Dom McLennon e, principalmente, Joba, que protagonizam os vários momentos mais sensíveis do álbum.

A jornada sentimental de “Roadrunner”

“Roadrunner: New Light, New Machine” explora diversos temas simbólicos para os rappers, incluindo questões familiares, a união entre os integrantes e sua autodescoberta em meio ao sucesso. Durante as gravações do disco, Joba perdeu seu pai por um suicídio, o que refletiu diretamente no clima no estúdio e, consequentemente, no peso emocional das canções, não só em suas letras mas também nas demais.

Ambas as partes de “The Light” se destacam entre os momentos mais tocantes do disco, conforme o próprio Joba expõe seus sentimentos  —  com indignação e aflição de uma música para a outra, mas sempre com uma sinceridade jamais vista antes em suas rimas. Kevin o acompanha nas duas faixas, relatando as mudanças na sua vida ao lidar com a fama e rememorando sua infância.


Dom McLennon também divide vários dos melhores versos do álbum, contando suas experiências pessoais em boa parte das canções. Em “When I Ball”, outra das faixas mais inspiradas do trabalho, o rapper se aprofunda na relação com a sua mãe e sua família enquanto a produção de Chad Hugo, do N.E.R.D., reforça a atmosfera sofisticada da música.

Com tantos estilos se contrapondo no decorrer do disco, por vezes o ritmo da tracklist é quebrado por uma faixa mais ou menos animada que a anterior. É o caso da esquecível “I’ll Take You On”, que desvia a sequência das seis primeiras músicas para um amontoado de autotunes desnecessários, salvos apenas pela colaboração de Charlie Wilson. Apesar de figurar entre as melhores gravações da obra, “Don’t Shoot Up The Party” também ajuda a interromper o andamento do trabalho após a sucessão das emotivas “What’s The Occasion?” e a própria “When I Ball”.

A química do grupo segue intacta em “Roadrunner”, apesar de poucas faixas do disco contarem com a maioria dos integrantes ao mesmo tempo. Somente em “Windows”, de longos seis minutos de duração, todos têm ao menos um trecho para cantarem e mostrarem a harmonia entre si.

Contudo, chama a atenção o desempenho abaixo da média de alguns dos rappers, como Matt Champion, cujos versos parecem estarem mais “tímidos” do que em outras obras. Bearface e Jabari Manwa colaboram apenas em algumas faixas específicas, proporcionando alguns momentos de destaque — como o refrão pegajoso de “Old News” e “Dear Lord”, que funciona quase como um interlúdio para o encerramento.


Um esforço inegável por parte do Brockhampton é a entrega individual de cada integrante aos seus próprios sentimentos. Nenhum outro trabalho da banda soa tão verdadeiro e artístico como “Roadrunner”: trata-se da versão mais transparente de si que o grupo já revelou ao mundo, mostrando a todos como seu impulso criativo resistiu e se fortaleceu ao longo dos últimos anos.

É questionável se “Roadrunner” representa ou não o Brockhampton em seu auge, mas certamente se trata de sua melhor fase desde a genial trinca de “Saturation”. O disco simboliza, acima de tudo, o amadurecimento da “boyband” que a banda sempre sonhou em ser para o “supergrupo” que rapidamente se tornaram, construindo uma identidade à altura de seu status como uma das grandes revelações do rap e da música alternativa nos últimos tempos.

8 / 10


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