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Entrevista: Mahmundi fala sobre seus desafios como artista no Brasil

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Há quase dez anos, Marcela Vale se apresenta ao mundo como Mahmundi, uma das grandes revelações da música brasileira nos últimos tempos. Explorando diferentes estilos e possibilidades ao longo de sua carreira, a cantora e produtora tem se reinventado por meio de sua arte durante os últimos meses, trabalhando em novos projetos e planejando os próximos passos.

“Eu acho que nesses dez anos de trabalho aí, poder viver no conforto num país tão caótico como o Brasil é um privilégio, e eu posso dizer que, pra mim, a pandemia teve um lugar de criação e que acho que fez com que eu até abrisse a cabeça de novo”, comenta a carioca. “Chega uma hora que você tem que lembrar que você precisa destruir aquilo pra continuar, porque senão você se engessa.”


A trajetória de Mahmundi sempre foi marcada por redescobertas. No início, seu plano era produzir músicas para outras pessoas — um processo “muito difícil” para uma mulher no Brasil, em suas próprias palavras — até que, depois de um tempo, decidiu lançar a si mesma como cantora. “Eu queria produzir uma voz, minha ideia não era cantar, e eu não achei essa voz e aí eu falei: ‘ah, eu vou cantar!’. E aí, de repente, surge Mahmundi, que é ‘mundo de Marcela’”, diz.

Hoje, a artista é uma das atrações principais do Amazon Music Festival: Palco Queremos, que acontece no dia 18 de dezembro com nomes como BK, Carol Biazin, Tuyo e YOÚN e transmissão ao vivo na Twitch. O festival digital marca o seu retorno aos palcos com o repertório de seu último disco, “Mundo Novo”, lançado no ano passado e gravado antes da pandemia.

Em entrevista ao Tracklist, Mahmundi conversou sobre seus trabalhos mais recentes, suas expectativas para os novos shows e seus maiores desafios como artista no Brasil. “O processo criativo é infinito”, confessa. “Não saberia dizer nem que som eu faço, mas eu vou continuar fazendo!”

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Leia a entrevista com Mahmundi na íntegra:

TRACKLIST: Boa tarde, Mahmundi! Tudo bem? É uma honra pra gente conversar com você, a gente agradece muito o seu tempo! Como você tá, como tem sido esses últimos meses pra você?

MAHMUNDI: Cara, eu tô bem! Tô feliz, tô voltando pros shows. No final de semana, a gente fez dois shows em São Paulo, e hoje estamos aqui no Amazon/Queremos. Tô animada pra esse momento novo de retomada, terceira dose… Nada diferente do que você tá vivendo aí! (risos)

TRACKLIST: Boa! Sobre o Amazon Music Festival, como tem sido pra você e pra sua equipe retornar aos palcos e se apresentar depois de tanto tempo, e dessa vez com materiais inéditos, como o “Mundo Novo”? Como tem sido essa experiência?

MAHMUNDI: Cara, tem sido curiosa. É louco a gente estar executando discos que a gente não sabe como tá. Eu fiz um show agora e é essa coisa, ir pro ao vivo e ver que o tom é diferente, que a pegada é diferente. Esse show que a gente faz hoje aqui, a gente tá com o Filipe Coimbra nas guitarras e o Victor Cupertino, e eu tocando os beats nesse primeiro momento, que é uma coisa que eu amo. Eu tô animada, eu tô querendo me manter acordada. Eu passei um tempo só cantando muito nos palcos, então eu acho que essa retomada aí de fazer show, flertar depois do show, continuar tocando, vai fazer bem pra gente malhar de novo.

TRACKLIST: Imagino que a pandemia tenha afetado bastante também pra gravar as músicas, né? Como tem sido pra você gravar e compor durante esses últimos meses? Quais têm sido os principais desafios?

MAHMUNDI: Eu acho que o meu desafio foi sair um pouco do tema da pandemia, que era lembrar que você vai ver seus amigos ou que você tá com saudade, algumas memórias… Esse tempo muito do isolamento, de se manter ativo, ter que dar resultado… Chegou uma hora que as lives ficaram exaustivas, e também tem uma coisa de ficar exaltando a sua saúde mental nesse caos, enfim, acho que foi um momento que todo mundo ficou meio patinando nisso. 

Eu tirei esse tempo pra estudar, na real. Acho que foi o tempo que eu fiquei mais voltada pra música, pegando os equipamentos. Eu era uma pessoa que vivia muito em lan house, então pra muita coisa eu tinha que juntar dinheiro pra ficar na lan house. Eu comecei a rever coisas que eu queria ver, artistas que eu não tive tempo, livros que eu queria comprar. Foi um momento que, graças a Deus e ao universo, eu consegui me conectar com arte — e você sabe que nosso rolé de arte, no geral, é sempre muito caro. Eu acho que nesses dez anos de trabalho aí, poder viver no conforto num país tão caótico como o Brasil é um privilégio, e eu posso dizer que, pra mim, a pandemia teve um lugar de criação e que acho que fez com que eu até abrisse a cabeça de novo. Você vai criando a sua personalidade, não sei o que… Chega uma hora que você tem que lembrar que você precisa destruir aquilo pra continuar, porque senão você se engessa, então essa pausa foi legal e voltar pras ruas, voltar pros bailes, voltar pro funk, voltar pra zoação, voltar a ver show dos amigos, tá sendo bem maravilhoso.

TRACKLIST: Essa foi uma curiosidade que eu tive pensando sobre o processo criativo durante a pandemia. Boa parte de suas músicas giram em torno de relacionamentos, falando muito sobre a proximidade e o afeto; como foi pra você escrever ou deixar de escrever sobre esses temas em um momento de isolamento social, em que todos nós tivemos que ficar afastados uns dos outros?

MAHMUNDI: O “Mundo Novo”, especificamente, foi um álbum que eu quis ser intérprete. Tem talvez uma música que eu fiz com o Castello Branco, que é meu amigo, ele postou um negócio no Instagram, eu fui lá e musiquei, que é a “Nova TV”. Mas eu tava muito interessada só em cantar coisas. Eu tenho tentado variar entre os relacionamentos de pessoas ali que se namoram pra relacionamentos humanos. Até a intro do Paulo Nazareth, que é meu amigo que é pastor, a gente trocava muito áudio de zap, e aquele zap é real mesmo! 

Era muito sobre como eu vejo no outro, como coisas que eu não tenho controle gritam quando você se comunica com as pessoas, e viver isso num momento de pandemia foi muito difícil. Mas aí eu fiz esse processo, que foi a Mahmundi FM, que eu ficava entrando no Instagram e fazendo live com a galera, então foi muito maneiro porque eu passei um tempo ouvindo só as pessoas. É diferente de você ficar ali indo pra rua e performar qualquer coisa, eu recebia muito áudio e isso me alimentou muito! Eu acho que esse movimento de ouvir o outro fez muita diferença nesse momento de pandemia. Eu comecei a perceber o quanto era importante, pra mim, também ter essa generosidade e esse cuidado, porque afeto, às vezes, é você só ouvir. Essa é talvez uma coisa que eu explore nos próximos projetos…

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Foto: Divulgação/Universal Music


TRACKLIST: Nos seus últimos projetos, você tem trabalhado bastante como produtora, seja nos lançamentos solo ou nos paralelos, como o “Sorriso Rei”. Como é essa experiência pra você e como você diria que tem te agregado artisticamente?

MAHMUNDI: Cara, eu preciso confessar que eu gosto mesmo é de produzir música! No Brasil, é muito difícil. Nos Estados Unidos, é muito mais fácil você dizer que tem o Pharrell, que tem o Kanye West, que tem sei lá quem… A Alicia Keys, por exemplo, é uma mulher que demorou muito pra indústria legitimar ela como uma personalidade. Você vê a timeline dela e é: mulher, clipe com homem, outro clipe com homem, e aí quando a indústria a entende, ela vira uma representante do Grammy e tudo mais. É um processo difícil pra você ser só produtora musical, e ainda ser uma produtora mulher no Brasil, temos um delayzão aí.

Eu amo fazer isso. Inclusive, eu queria produzir uma voz, minha ideia não era cantar, e eu não achei essa voz e aí eu falei: “ah, eu vou cantar!”. E aí, de repente, surge Mahmundi, que é “mundo de Marcela”, que é onde eu comecei a colocar meus áudios no MySpace. Minha tara sempre foi produzir, e aí hoje eu tenho a felicidade de ter amigas e amigos queridos, como o Diogo Nogueira, como a Liniker, como o Xande de Pilares, convites que eu recebo da Universal, que é minha gravadora, pra produzir com o Martinho da Vila e com o BK… É uma experiência incrível porque as pessoas têm essa ideia de que produção musical é você tocar tudo. Produção musical é você ouvir um artista, tomar café com ele, é saber a letra, é saber o momento… Você fica ali num 360º pra descobrir, então eu aprendo muito! Eu acho que é meu melhor momento, eu sou médica assim, né? Médica de músicas! (risos) E tá sendo maravilhoso, eu quero voltar a fazer mais músicas e ampliar esse repertório. Quando você conhecer alguém aí, pode me indicar! (risos)

TRACKLIST: Pode deixar! Como produtora do seu próprio trabalho, eu imagino que seja algo que te dê muita liberdade pra criar, né? Cada um dos seus discos têm uma roupagem muito única, como o “Para Dias Ruins”, que tem mais sintetizadores, ou o “Mundo Novo”, que traz uma coisa mais orgânica… Pra você, como é transitar entre um projeto e outro nesse sentido?

MAHMUNDI: Eu gosto de música, né? Eu gosto muito de música. É uma loucura, porque as pessoas ficam assim: “o que você vai lançar agora?”, e eu falo “cara, eu não sei, talvez a música que eu gostaria de ouvir”. Eu lanço coisas que eu gosto de ouvir e tenho a sorte e o companheirismo do meu público de ouvir comigo. Eu deveria, como uma boa produtora que trabalha na indústria, fazer música para você, para os outros… Também é um processo, né? É o que a galera geralmente faz com público e massa, o foco é o ouvinte. 

Eu gosto desse processo artístico porque eu também vou me descobrindo, vou me aprendendo, e é estranho. Com o “Mahmundi”, que é um álbum de 2017 que tem a capa laranja, eu lembro dos meus amigos me zoando falando que era música da Xuxa, e eu falei “beleza, vamos aguardar!”. E aí, estamos em 2021 e tá todo mundo fazendo isso, e eu falo “ó, a Xuxa tá aí há um tempão!” (risos) Tem toda a pesquisa, e isso me interessa muito. E música não tem isso, né? O processo criativo é infinito. Eu gosto de optar de fazer o processo criativo, porque daqui 20 anos, a gente vai tá falando de como inventar e fazer outras coisas, então eu fico muito feliz. Não saberia dizer nem que som eu faço, mas eu vou continuar fazendo!

TRACKLIST: Pra finalizar, eu gostaria de perguntar o que a gente pode esperar do seu show no Amazon Music Festival e o que a gente pode esperar da Marcela e da Mahmundi pros próximos meses?

MAHMUNDI: Da Marcela, eu acho que vou esperar dar uma emagrecida, malhar. Meu corpo, minhas regras, e minhas regras esse ano é eu ficar no shape pra voltar pros palcos! A Mahmundi, que sou eu nesse alter ego, vai lançar um disco que ela tem que lançar. E aqui, no palco do Amazon Music Festival, eu vou fazer um show que tem violões e guitarras, um show novo que eu tô descobrindo como é que ele vai ser, então a gente vai descobrir isso ao vivo! (risos) Vai ser maravilhoso. Tô muito feliz pelo convite, pela confiança, pela troca, então bora que bora que, já já, a gente se vê por aqui.

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