O novo EP de Di Ferrero, "7" — lançado na última segunda-feira (7) — é...

O novo EP de Di Ferrero, “7” — lançado na última segunda-feira (7) — é curto, direto e cheio de camadas. Com apenas três faixas, o projeto funciona quase como um mini mergulho nos processos internos do cantor — uma espécie de inventário emocional embalado por batidas dançantes e atmosferas que equilibram leveza e profundidade.
A escolha do número não é aleatória: para Di, o sete simboliza recomeços, sorte e uma virada de página. A energia desse novo ciclo aparece nas letras, que falam sobre dúvidas, relações intensas e decisões que mudam tudo. “Às vezes a gente se pergunta ‘e se?’ — e isso pode ser uma prisão ou um empurrão”, ele comenta.
Neste sábado (12), o ex-NX Zero sobe ao palco no Rio de Janeiro com um show que promete misturar intensidade e contemplação. Além de hits da carreira, o cantor apresenta as faixas inéditas do recém-lançado EP. Em entrevista ao Tracklist, ele compartilhou reflexões sobre esse momento de transição, o processo criativo do projeto e o que os fãs podem esperar do futuro — incluindo possíveis encontros com o passado.
Di, você mencionou que o número 7 é associado ao autoconhecimento e aos ciclos da vida. De que maneira este EP representa um ciclo importante para você, tanto na música quanto em sua vida pessoal?
Bom, como o número “7” carrega todo esse simbolismo, ele representa mesmo um fim de ciclo e, principalmente, o início de um novo — um recomeço. Eu estou conseguindo viver essa transição, e sinto que essas músicas têm a energia desse momento, sabe? Me identifico com elas de várias formas: nas letras, no groove que elas trazem, e nessa ideia de algo mais orgânico, mais sensorial, entende?
O set também reflete essa virada do dia para a noite, ali por volta das sete horas, quando o sol já se pôs… Então existe todo esse simbolismo que representa bem o momento que estou vivendo: de contemplação, de entender onde estou, qual é o meu papel. Estou prestes a fazer quarenta anos [risos], já passei por muitas coisas, e fico pensando no que ainda posso ser. O que mais posso sonhar, o que mais posso desejar, o que ainda posso agregar, sabe?
Essas são as questões que estão presentes no EP. E, claro, ele também fala de amor… Passa por várias fases, vários momentos.
Também sabemos que o EP vem das “profundezas dos sentimentos”. Pode nos contar mais sobre o processo emocional por trás das músicas?
O EP começa com uma música chamada “Som da Desilusão“. E… desilusão é algo que todo mundo vive em algum momento — não é um privilégio meu. Justamente por isso, eu acho que muita gente vai se identificar com esse som. Ela tem um momento em que, no início, a música vai crescendo aos poucos até entrar um groove, e aí a gente começa a refletir sobre esse sentimento. Eu passei por algumas desilusões recentes, especialmente em relação a amizades. E embora ela possa representar várias situações, a pergunta que ficou pra mim foi: qual é o som dessa desilusão? Que som ela tem? Você consegue reconhecer esse sentimento através de um som? Sei lá… pra mim, é mais ou menos esse som.
“Além do Fim” fala muito sobre saudade, mas também sobre quando você está apaixonado e vive um monte de questões internas. Tipo: o que você quer da vida? Você quer ou não quer? Você reclama, mas ao mesmo tempo deseja. Sabe? Aí você se vê nesse limbo, preso numa decisão que é de outra pessoa, e você não quer ser essa pessoa indecisa. Então, “Além do fim” é isso: o que vem depois? Porque o fim sempre vai existir. As coisas acabam, voltam, recomeçam. É esse ciclo.
Já “Universo Paralelo“… o próprio nome diz muito. Eu estava viajando e comecei a pensar: “E se eu tivesse nascido aqui?”. Acho que eu estava nos Estados Unidos, visitando minha esposa — a Isabelle estava fazendo um desfile — e me peguei pensando nisso. Como seria minha vida se eu tivesse nascido nesse outro lugar? E se fosse outra vida? Aí começou a surgir a ideia da letra. Porque o lugar onde a gente nasce, as experiências que a gente vive, tudo isso molda nosso mundo. Mas e se fosse diferente? Se fosse em outro país, em outro contexto? Comecei a viajar nessa ideia, sonhar mesmo.
Claro que tudo isso tem a ver com o momento que eu estou vivendo. Não é só uma viagem solta — tem várias camadas ali. E o mais legal é que, apesar da profundidade dessas letras, todas as músicas têm groove. As três foram pensadas já com a ideia do show ao vivo, pra dançar mesmo.
Porque eu amo falar sobre essas coisas mais densas, profundas… mas também gosto de me mexer. Não precisa ser algo triste, parado. Eu adoro coisas mais melancólicas, tipo Cigarettes After Sex, tem aquela vibe indie, bem ‘sad boy‘, que eu curto também. Mas nesses sons do EP, mesmo com letras bem intensas, o som tem peso, tem gruvão. A gente sente o som no corpo, sabe?
O conceito de “E se?” está muito presente nas faixas do EP. Quando você olha para sua trajetória artística, quais são os “E se?” que você já refletiu, seja sobre escolhas musicais ou pessoais?
Nossa, essa é uma pergunta profunda [risos]. Em “Universo Paralelo”, eu fico pensando: por que eu nasci no Brasil? Tenho minha banda, o NX [Zero], minha carreira solo… E o Brasil não é exatamente o país do rock, né? Sempre ouvi muito esse tipo de coisa. E isso foi o ponto de partida pra ideia do “e se”. Tipo: e se fosse diferente?
Se eu tivesse nascido em um lugar onde o rock é mais popular, será que minha trajetória teria sido outra? Será que eu teria ido mais longe, teria mais espaço, mais visibilidade? Esse pensamento é meio utópico também, eu sei. Porque no fim das contas, as coisas são como têm que ser.
O “e se” é só uma provocação, um exercício que a gente faz num momento de reflexão. Porque, por mais que a gente planeje, eu acredito que tem algo no nosso destino que acaba nos guiando. Claro, a gente tem o poder de escolha, de ir para esquerda ou para direita… Mas, no fim, a gente acaba fazendo aquilo que, lá no fundo, sempre quis. E se a gente se perde nos “e se” da vida, acaba desviando do caminho. Pode ser que aprenda algo nesse desvio, mas você sente quando não é aquilo que você realmente quer.
Por exemplo: eu nunca tive um plano B. Sempre quis cantar. Se eu tivesse ficado em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, talvez hoje tivesse mais grana, sei lá — trabalhando numa fazenda, em alguma coisa assim. Mas eu tenho certeza de que estaria infeliz. Eu sei o que eu quero, mesmo que, às vezes, a rotina e os desafios do dia a dia façam a gente se questionar. “Ah, eu quero só dinheiro…” Não. Dinheiro é importante, claro. Eu também quero conquistar minhas coisas, comprar algo legal, ter conforto. Mas não é só isso.
Esses “e se” sempre vão aparecer. A gente só não pode deixar de tentar. Porque, no fundo, a gente sabe o que quer. A gente só precisa rasgar essa capa que cobre quem realmente somos. E, pra mim, o pior arrependimento é o do que não foi feito. Quando você tem clareza do que quer, mas o medo de sair da zona de conforto te paralisa. Esse medo, sim, é o mais perigoso.
Além disso, tem toda a questão do dia a dia, né? Aquele medo que bate. Tipo: “Tá, eu quero cantar, é isso que eu amo”, mas aí vem a realidade — o trabalho que paga o salário, as contas, as responsabilidades… E o mundo é foda, não é fácil, a gente já sabe disso.
Mas mesmo assim, a gente precisa tentar. A gente precisa correr atrás do que a gente realmente se propôs a fazer, do nosso sonho, do que pulsa no nosso coração. E aí surgem todas essas questões internas, esse conflito entre o que você quer e o que você vive.
É aí que entra a história do “e se”. Porque a gente está onde está por algum motivo. E ponto. O foco tem que ser no agora. No que dá para fazer daqui para frente. Os “e ses”, pra mim, só servem como lição. Não como lamento. Não tem espaço pra arrependimento ou pra ficar remoendo o que poderia ter sido. Acredito muito nisso.
Saindo um pouco do foco do EP, você apresentou seu bloco “Se Fui Triste Não Me Lembro” em São Paulo este ano. Para 2026, você pensa em expandir e levar a festa para outras cidades, para que os emos de diferentes lugares também possam curtir essa experiência?
Então, essa foi a primeira vez que eu fiz, foi algo que eu sempre quis: montar uma festa de rock — um festão mesmo — mas que não fosse só rock, sabe? Eu queria que tocasse de tudo. E foi isso que rolou. Tocou samba, o Mi, do Gloria, cantou “Eva”, o Badaui mandou várias, até o Pe Lanza entrou na brincadeira. A gente fez um verdadeiro bloco, no sentido de ser um espaço de diversão mesmo. Fui triste? Nem lembro! [risos].
E deu muito certo. Foi muito bom. Aí pensei: agora, sim, posso expandir, levar pra outros lugares. Fazer essa festa no Rio, em São Paulo, BH… E onde mais esse projeto me levar, porque foi uma experiência muito divertida.
E esse bloco é sobre isso. É uma grande mistura, uma mistureba mesmo! Coloquei mais gente na percussão, aumentei a banda… Foi muito legal. Foram quatro horas de show — quatro horas de curtição! Rolou de tudo: teve Péricles com Paramore, depois veio um Alceu Valença, “Coração Partido”, e claro, não podia faltar “Evidências”.
Impossível estar com você e não perguntar da época do NX Zero. Quando você olha para trás e vê a trajetória com a banda, o que mais te marcou e o que você sente falta daquela fase?
Ah, eu guardo comigo só as alegrias. Claro que tiveram momentos complicados — como toda família, como toda banda — mas o que fica mesmo são os momentos incríveis. E o que ainda tá fresco na memória é essa última tour. Então, pra mim, tá tudo lindo. Pra ser sincero, eu não sinto muita falta. Tenho mais vontade de fazer algo lá na frente do que saudade, sabe? Porque eu sou muito focado no meu dia a dia. Não deixo de fazer o que eu quero, tô sempre me movimentando. Mas acho que, na hora certa, a gente acaba se reunindo e faz alguma coisa nova, sim. A gente acabou de matar a saudade com essa última turnê — e foi bem especial.
Então dá pra dizer que, se o destino colaborar, o NX Zero ainda pode surpreender a gente com algo no futuro?
Claro. Eu acho que tem que rolar! Não tem por que não rolar, né? Em algum momento. E é muito saudável todo mundo viver, fazer outras coisas, trabalhar em outras paradas, ter experiências diferentes. Eu acho que é isso que deixa a banda viva. Às vezes, ela está só sobrevivendo ali, só por causa daquele lance que a gente falou — do comodismo e tudo mais. Tem que fazer muito sentido, tem que ser muito incrível pra todo mundo: pra quem vai no show, pra quem vai tocar, sacou?Você tá indo se divertir, tá pagando pra ver, pra curtir, pra sentir. E tem que ser real, a parada. Então é isso: na hora que todo mundo tiver esse clique, for o momento… é isso.
A turnê ‘Outra Dose’ está se aproximando do fim. Quais caminhos você pretende trilhar a partir daqui?
É. Vai acabar no dia 17 de maio, aqui em São Paulo. Vou fazer um encerramento da tour. Tô fazendo as capitais. E aí o Rio [de Janeiro] é dia 12 de abril. E acaba mesmo em São Paulo, que é a minha casa. Acaba pra começar uma outra história também.
Meus próximos passos têm muito a ver com esse começo aí do EP “7”, que já vai mostrar o caminho pra onde eu tô indo. Só que eu tenho muitos lançamentos esse ano, muita música, muita coisa, assim, diferente. Músicas que eu fiz lá fora com outros produtores também, que eu conheci. Fui pra Los Angeles recentemente lá, foi mó legal. Inclusive, o Gee [Rocha] fez som comigo. O Gee, o Mateus Asato… Tipo, tem várias coisas legais. Então, assim, é só o começo de um novo caminho. Por isso que é legal encerrar essa tour, que tá aqui, a maior turnê que eu já fiz, inclusive, assim, de quantidade de show, de festival, de galera. Eu passei por muito lugar que eu não tinha passado solo, sabe? Essa “Outra Dose” foi muito… foi muito incrível mesmo!
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