Após 4 anos afastada da música, Lily Allen tem retorno triunfante com o seu incrível quarto álbum de estúdio “No Shame”, lançado nessa última sexta feira, dia 8 de junho. A cantora britânica fez sua retomada ao universo da música sendo mais sincera do que nunca, após uma série de turbulências em sua vida pessoal. Ela já deixou claro desde o início, em várias entrevistas, que esse é o álbum mais pessoal e que dessa vez, diferente de seus trabalhos anteriores, ela focou mais no seu interior, em sua mente, do que no que no exterior, a sociedade.

Projetos anteriores

Lily Allen possui uma carreira cheia de hits, desde o seu álbum de estréia “Alright, Still” lançado em 2006, com os singles de sucesso “Smile” e “LDN”. A cantora já mostrava suas influências do Reggae e Hip-Hop em seu Pop britânico. E é claro, sempre com muita ironia clamava críticas sobre o comportamento da sociedade.

Em 2009, já com um som influenciado pelo Eletropop e Synthpop, Lily lançava seu segundo álbum de estúdio ‘‘It’s not me, It’s You”. Extraindo Hits memoráveis da carreira como ‘’Not Fair”, “Fuck You”, “22” e “The Fear”.

Depois de todo o sucesso, a cantora britânica resolveu dar uma pausa em sua carreira devido a sua recém maternidade. Apenas em 2014, voltou com uma pegada bem Pop com seu terceiro álbum de estúdio, “Sheezus“.  Nele ela fala um pouco sobre a maternidade, competição feminina e empoderamento. O álbum não teve tanto sucesso comercial, sendo considerado o trabalho mais fraco da cantora, e que recentemente em uma entrevista ao site NME, falou: “No meu projeto passado (Sheezus), eu não conseguia me convencer a cantar todas aquelas músicas toda noite e me sentir bem com quem eu sou”.

Vida pessoal

Nesse hiatus fora do mundo musical, a cantora passou por turbulências. Em 2016, a cantora revelou que desde 2008 recebia ameaças e era perseguida por um homem que alegava ser seu fã, e em 2015 a sua casa foi invadida por esse stalker. Após esse episódio o homem foi identificado e está preso até hoje. Lily contou todos os detalhes em uma entrevista emocionante, que você pode assistir na íntegra aqui:

Junto a isso, em 2016, a cantora iniciou o processo de divórcio ao seu ex-marido, Sam Cooper.

 

No Shame – A nova fase da carreira

Toda essa retomada é importante porque, após todas as turbulências, Lily volta com tudo. Com muita coisa para falar, e com sua ironia e sinceridade de sempre, a cantora optou por focar no seu interior. O álbum é quase como um diário, nos mostrando todos seus pensamentos e as dificuldades principalmente desses anos turbulentos que a cantora passou. Como a separação, a ansiedade, a maternidade e também conhecer pessoas novas.

No álbum, ela também comenta sobre os seus antigos vícios em drogas e álcool. É o projeto mais pessoal e confessional que Lily Allen já fez, falando sobre tudo sem nenhuma vergonha, assim com o título do álbum sugere. Como a mesma já citou em diversas entrevistas, nesse álbum ela teve controle criativo em absolutamente em tudo. Ela não queria a pressão da gravadora em fazer Hits e músicas que tocassem nas rádios, e sim contar sua história, para assim seguir em frente.

No Shame possui uma produção simples mas muito eficiente. Nota-se no álbum uma grande influência do R&B, tanto na produção como em suas melodias. Por isso, em certos momentos, o álbum lembra vagamente seu primeiro disco “Alright, Still”.

Vamos então agora explorar um pouco do interior da mente de Lily Allen, com as músicas que mais me chamaram atenção:

– “Trigger Bang (feat. Giggs)”: Esse foi o primeiro single lançado, que na verdade foi vazado no final de 2017, mas que logo depois a própria cantora lançou oficialmente nas plataformas digitais. Essa é uma das minhas favoritas do álbum, e nela temos uma vibe Hip Hop e R&B muito forte. Principalmente com a presença do rapper inglês Giggs, que funciona muito bem, em contraposto a voz aguda de Lily Allen. Na letra, a cantora narra um pouco sobre seu jeito de lidar com a fama, o medo da rejeição e principalmente sobre pessoas que podem servir de gatilho para sua vida ou situações que não a influenciam positivamente, como os seus vícios em álcool e drogas, e que agora ela cortou tudo isso de sua vida. O ritmo da música, em conjunto a voz aguda e alguns efeitos, deixa a faixa com um clima bem etéreo.

– “Family Man”: Com a primeira balada do álbum, a cantora finalmente relata sobre o seu divórcio. Aqui ela descreve sobre uma perspectiva diferente, falando como as coisas começaram a desandar e que mesmo o amando ela precisava de um tempo para ela. São explicitas a esperança de possivelmente reatarem e de resolverem seus problemas, mas principalmente fala sobre todas as dificuldades e desentendimentos desse antigo relacionamento. Esse enredo é acompanhado pelo piano e ao longo da faixa, é incluso a bateria, deixando a música crescer aos poucos, tornando-a grandiosa e sentimental.

– “Apples”: Possivelmente a música mais triste, escrita de maneira muito sensível, deixando-a extremamente bonita e emocional. No enredo da faixa, a inglesa fala mais uma vez sobre seu divórcio onde relembra todos os pequenos momentos especiais que ela teve nesse relacionamento. Aqui Lily Allen bota todo seu coração, junto ao instrumental intimista e falsetes, de forma mais sincera. Ela nos fala sobre suas escolhas e culpa que a levaram ao fim desse relacionamento. Além de usar o grande ditado popular para explicar o título da faixa “Eu acho que os frutos não caem distante da árvore”, fazendo alusão do divórcio de seus pais e como ela não queria aquilo para vida de suas filhas, mas a sua vida amorosa acabou se repetindo da mesma forma. O jeito que é abordado e escrito faz com que, nós ouvintes, nos ponhamos no lugar da cantora e sinta todos seus anseios e culpa. Recentemente no Twitter, a cantora falou que essa faixa foi muito inspirada na música “K“, da banda Cigarettes After Sex.

– “Everything to Feel Something”: A presença do piano em ritmo acelerado, cria um clima sombrio para falar sobre os momentos mais baixos de sua vida. Na faixa é descrito o quanto ela fez de tudo para tenta sentir algo, principalmente o vício em drogas e álcool, mas que na verdade só a fazia se sentir ainda mais vazia e que nada mais na vida a movia. Lily mais uma vez, em seus tons mais sinceros, se torna vulnerável e mostra-se totalmente quebrada por dentro.

– “Waste (feat. Lady Chanm)”: Com batidas de Reggaeton, transmitindo um clima de verão, ela nos traz uma música que remete aos seus trabalhos anteriores, em especial de seu primeiro álbum “Alright, Still”. Aqui nós vemos um estilo de letra bem clássico da britânica, por trazer uma batida tão pra cima e dançante, mas ter letras mais afiadas e sarcásticas. Nela ela fala sobre uma antiga amizade, que traiu sua confiança e era extremamente tóxica, porém em um ritmo super alegre, ela fala o quanto ela espera que essa pessoa tenha uma vida horrível! Tudo isso me remete aos seus antigos trabalhos, em especial a música “Smile”, visto ao estilo alegre em ver alguém sofrer.

– “Cake”: Como encerramento do álbum, Lily nos mostra o seu hino feminista! Essa é uma música de empoderamento, que ela questiona o quanto as mulheres são controladas e não podem ser quem elas querem ser. Ela  fala sobre o trabalho duro e questiona porque as mulheres não poderem “Comer da torta do patriarcado”, para assim aproveitar os seus próprios esforços e acabar com a sociedade machista. Assim no refrão, Lily estimula a luta e que todas as mulheres comam um pedaço dessa torta!

Considerações finais

O álbum mostra o auge da carreira de Lily Allen. Aqui vemos ela sem nenhum filtro e com toda a sinceridade, falando sobre seus antigos vícios, o amor que acabou, e refletindo sobre sua fama, seu papel como mãe, as impressões que a mídia tem dela e seu estado mental. Mesmo trazendo seu álbum mais pessoal, ela consegue fazer com que o público se conecte. Com produções e músicas coesas, Lily da um presente ao mundo Pop, com muita verdade e ironia, lançado no momento perfeito. Com aclamação do público e crítica, Lily Allen transforma toda sua angústia, dor e perdas, em seu álbum mais forte e confessional da carreira, entrando com certeza na lista dos melhores álbuns lançados até agora em 2018.

Nota: 10/10

Ouça o álbum completo no Spotify:

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