Opinião: Bad Bunny propõe um novo olhar sobre a indústria com residência em Porto Rico

Por muito tempo, artistas latinos encontraram nos Estados Unidos uma forma não somente de crescerem...

Gabriel HaguiôColunas23 de julho de 2025

Foto: Divulgação

Por muito tempo, artistas latinos encontraram nos Estados Unidos uma forma não somente de crescerem em suas carreiras, mas levarem a sua música mais perto de conterrâneos que partiram em busca do “sonho americano”. “Un Verano En Nueva York”, canção do grupo El Gran Combo de Puerto Rico, foi responsável por levar a salsa do Porto Rico para os clubes nova-iorquinos nos anos 70, e se tornou um clássico que simboliza a imigração cultural dos povos latinos. Exatos cinquenta anos depois, o refrão da música voltou a ecoar nos Estados Unidos — desta vez, nas mãos de outro artista porto-riquenho: Bad Bunny.

Benito, o cantor mais ouvido do mundo hoje e que tem vivido o maior ano de sua carreira, abre o seu disco mais recente com “Nuevayol”, faixa que transforma a salsa em batidas de reggaeton e dembow. Desta vez, porém, os Estados Unidos não são mais o destino final da história. Caso você esteja por dentro do que tem rolado na música em 2025, certamente você ouviu falar de “Debí Tirar Más Fotos”. O novo álbum de estúdio do Bad Bunny é a obra mais popular do ano no mundo até aqui, e celebra a identidade artística do Porto Rico ao retratar as influências que formam a sua música. Mais do que isso, o disco as usa como uma forma de preservar a memória de sua terra natal, diante das disputas por sua independência e o apagamento cultural que se alastra sobre a ilha ao longo dos últimos anos.

Como Bad Bunny tem desafiado a indústria e o público a pensarem diferente

Os passos mais recentes do cantor reafirmam esse propósito. No último fim de semana, o artista deu início a uma residência de 30 shows em San Juan, capital do Porto Rico, onde permanecerá até setembro antes de partir em uma turnê mundial. As apresentações do projeto “No Me Quiero Ir de Aquí” são uma forma de celebrar a cultura local e presentear a população da ilha, com cenografias que remetem à região e mensagens que prezam por sua independência e, sobretudo, o senso coletivo de seu povo.

De acordo com a Bloomberg, as apresentações devem atrair mais de 600 mil turistas e se espera que gerem um impacto de cerca de US$ 181 milhões na economia local (o equivalente a R$ 1 bilhão, na atual cotação do dólar). Os números, caso concretizados, representariam um aumento de 0,15% ao PIB de Porto Rico segundo a agência Moody’s, o que seria um marco histórico para a região. “Você tem o artista número um do mundo que acaba de lançar um álbum e está dizendo aos seus seguidores: ‘Não vou sair em turnê, vou fazer 30 shows e, se quiserem me ver, venham para a minha ilha’”, declarou Jorge Pérez, gerente geral do Coliseu de Porto Rico, onde acontecem as apresentações.

O impacto é economicamente sem precedentes, mas também vai muito além dos lucros. Hoje, mais porto-riquenhos moram nos Estados Unidos do que na própria ilha, um êxodo populacional que tem crescido nos últimos anos conforme a procura por melhores oportunidades socioeconômicas cresce entre a população. O Departamento do Censo dos Estados Unidos aponta que 500 mil residentes deixaram o Porto Rico entre os anos de 2008 e 2019.

Bad Bunny convida seus fãs a fazerem o caminho contrário, e assim tem sido durante todo o ano. Ao anunciar as datas de sua próxima turnê mundial, por exemplo, os fãs estadunidenses sofreram um baque com a ausência de datas no país, o principal mercado musical do mundo e destino praticamente certo para qualquer artista, de qualquer tamanho ou nicho. Não para ele. Meses depois, em entrevista à Variety, o cantor foi questionado sobre o que motivou a decisão de não se apresentar nos Estados Unidos, e foi bastante sucinto em sua resposta: “É desnecessário”.

Mais recentemente, o artista também fez barulho com o clipe de “Nuevayol”. O vídeo estreou no dia 4 de julho, data em que se comemora o Dia da Independência estadunidense, e é repleto de referências à resistência porto-riquenha. Em determinado momento, Bad Bunny faz alusão ao ativista Tito Kayak, que subiu a Estátua da Liberdade em 2000 para pendurar a bandeira do Porto Rico em seu topo, em protesto à autonomia da ilha como um território independente dos Estados Unidos.

Todas as últimas movimentações de Bad Bunny parecem contestar a lógica de um mundo e, especialmente, de uma indústria moldada em torno dos Estados Unidos. O auge que o cantor vive hoje torna tudo mais simbólico: foram raríssimos os momentos na história em que o artista mais ouvido do mundo não cantava na língua inglesa, e Benito escolhe o seu momento para desafiar seu público e seus contemporâneos a pensar diferente.

Apesar disso, é inegável dizer que Benito se apoia em elementos da cultura pop estadunidense para expandir sua projeção global. Sua última turnê, por exemplo, foi inteiramente realizada no país, com o repertório de um disco de trap muito mais próximo à sonoridade norte-americana do que a porto-riquenha. Sua conexão com os Estados Unidos também ocorre de outras formas, desde sua presença constante em eventos de grande visibilidade, como nos jogos do New York Knicks e no tapete do Met Gala, até às parcerias com nomes como Drake e Travis Scott – e de forma indireta, até na atenção midiática que recebe em torno de seu relacionamento com Kendall Jenner. 

Entretanto, Bad Bunny se inseriu em um meio que raramente acolhe celebridades de fora e parece usar dessa contradição, justamente, para dar voz às suas causas. Existem exemplos de artistas latinos de grande sucesso entre o público norte-americano no passado, mas talvez nenhum tenha sido tão firme e impactante com a sua mensagem como Benito  —  e o momento é mais urgente do que nunca. 

Em junho, 51 mil imigrantes se encontravam detidos pelo Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês), o maior número registrado desde 2019, alegando-se causas como a falta de documentação para residirem nos Estados Unidos. Uma parcela significativa dos detentos, porém, não possui passagens anteriores pela polícia. Autoridades da Casa Branca dizem esperar que o ICE possa ultrapassar à marca de 3 mil prisões por dia, o que mais do que triplicaria a média histórica de detenções.

De modo silenciosamente gritante, Benito chama a atenção do mundo sobre a realidade de seu povo e levanta a sua música como um símbolo de resistência cultural em um momento em que é impossível ignorá-lo. Suas canções tocam em todo o mundo e seu nome é celebrado por onde passa, mas ele faz questão de lembrar à audiência para quem está cantando.

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