Como está Porto Rico após a residência de Bad Bunny?

Com a série de shows o cantor foi nomeado como 'amuleto milionario' da ilha

Ludmilla CorreiaNotíciasColunas27 de abril de 2026

Bad Bunny colocou Porto Rico no mapa com a residência 'No Me Quiero Ir de Aquí' (Eric Rojas/divulgação)

A música deixou de ser apenas um movimento; seu impacto ultrapassa a cultura e hoje se tornou um catalisador econômico. Uma prova disso foi a residência de Bad Bunny em sua terra natal: além de colocar Porto Rico nos holofotes do mundo, impulsionou o turismo e a economia local, e seu efeito segue sendo sentido pelos moradores da Ilha do Encanto.

Intitulada como “No Me Quiero Ir de Aquí”, a série de shows de Benito teve início em 11 de julho e foi finalizada em 20 de setembro de 2025. Trata-se de um feito inédito para o arquipélago latino-americano, que viu sua música e tradições no centro das conversas ao redor do globo, ganhando destaque por seu valor histórico e político.

Após anos turbulentos, a turnê de Bad Bunny trouxe uma fonte de esperança para os “boricuas”, gíria local para os moradores de Porto Rico.

‘Amuleto milionário’

Porto Rico, que é um território não incorporado dos Estados Unidos, viveu uma década de crescimento econômico lento por vários motivos. As feridas do furacão Maria, por exemplo, ainda não estão totalmente cicatrizadas. O desastre natural, que aconteceu em 2017, matou 3.000 pessoas e destruiu a infraestrutura local. Outro fator importante para a região é o turismo, que foi drasticamente afetado pela pandemia de COVID-19.

“A economia explodiu de forma bastante positiva, especialmente em termos de emprego e turismo. Também ajudou a mostrar o que é Porto Rico em nível mundial”, disse o criador de conteúdo porto-riquenho Dean Huertas de 29 anos, em entrevista ao Tracklist

As datas da residência foram escolhidas estrategicamente por Benito, visto que é o período de baixa econômica por conta da temporada de furacões. A “No Me Quiero Ir de Aquí” levou pessoas de diferentes lugares do mundo com a ilha do encanto, assim como a reporter que vos escreve.

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As apresentações aconteciam sempre às sextas, sábados e domingos. Segundo a equipe do artista, todas foram esgotadas e tinham capacidade para 15 mil pessoas.

Segundo um levantamento da Visa, um dos patrocinadores da residência, os gastos em hotéis de San Juan feitos por turistas estrangeiros aumentaram 35% em comparação com 2024. O maior dia de gastos na capital porto-riquenha no período foi em 1º de agosto de 2025, data em que os shows de Benito foram abertos para visitantes internacionais. A receita nesse dia foi 50% superior à média da temporada.

Não à toa, Bad Bunny foi chamado “amuleto milionário” pelo jornal El País. “Nossa análise mostra que a residência de Bad Bunny não apenas atraiu fãs, como também gerou benefícios econômicos tangíveis para os setores de turismo, hospitalidade e pequenas empresas de Porto Rico”, disse Javier Vázquez, líder regional da Visa Consulting & Analytics para a América Latina e o Caribe no relatório da companhia.

Mas nem tudo são flores

Com o crescimento de turistas, comerciantes viram uma oportunidade de inflar os preços, também afetando os moradores locais. “Tudo tem seus altos e baixos. Infelizmente, os preços aumentaram em muitos estabelecimentos que quiseram aproveitar o turismo”, comentou Dean Huertas, que é natural da cidade de Bayamón.

Por ser um território não incorporado dos Estados Unidos, a ilha só é lembrada por parte dos norte-americanos quando lhes convém. Com isso, os moradores são historicamente afetados em diversas áreas, desde necessidades básicas, como água e luz, até mesmo moradia.

Para eles, a ilha é um paraíso fiscal, visto que, por meio da Lei 22, quem investe na bolsa, criptomoedas e nos chamados bens de raiz (imóveis) está livre de impostos.

“Investidores estrangeiros veem Porto Rico como uma grande oportunidade para adquirir propriedades e abrir negócios com isenções fiscais, das quais muitos moradores locais não podem se beneficiar. Em uma ilha onde ainda se luta ativamente pelo acesso livre às praias (que são públicas por lei), isso pode facilitar a privatização do acesso a áreas privilegiadas”, conta a modelo e artista porto-riquenha Camelia Márquez.

Além de abordar história e cultura, Bad Bunny também fala sobre política em suas obras. Em “El Apagón”, o cantor denuncia o processo de privatização da rede de energia elétrica de Porto Rico, que, com um sistema sucateado, faz com que a ilha sofra apagões frequentes, deixando os moradores dias sem luz e cobrando um valor absurdo.

No videoclipe da faixa do álbum “Un Verano Sin Ti” (2022), Benito fez um minidocumentário falando sobre este e outros problemas de sua terra natal. O despejo de moradores, o fechamento de escolas públicas e a privatização das praias também são abordados no curta “El Apagón – Aquí Vive Gente“.

Com o boom econômico e as cifras movimentadas, quem é de fora de Porto Rico imagina que problemas com questões básicas, como água e luz, tenham acabado ou, ao menos, diminuído. Mas, na realidade, não é assim.

“[Os apagões e a falta de água] continuam. O sistema energético do país é muito antigo, e os problemas entre a privatização e a burocracia tornam o processo de reparo ainda mais complicado. Ao mesmo tempo, o governo rejeita projetos de energia sustentável, como a proposta da Casa Pueblo”, pontua Camelia.

“Eu tenho uma melhor amiga que está há 16 dias sem água. Aconteceu um problema de vazamento em uma avenida. Eles estão trabalhando nisso, mas, há 16 dias, a água chega às 6, vai embora às 8 e, no resto do dia, não tem [água]”, compartilhou Lorén Aldorando, vocalista do grupo Chuwi, que foi responsável pelo ato de abertura da turnê de Bad Bunny, que passou por aqui no mês de fevereiro.

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“Porto Rico está assim. Não estamos falando de Isabela, que é uma cidade mais longe, estamos falando da capital San Juan”, concluiu.

Sopro de esperança

Ao final, além de altas cifras e movimentações na mídia, a residência de Bad Bunny em Porto Rico trouxe efeitos intangíveis, como a volta da confiança e da dos boricuas. Em busca de melhores oportunidades, sempre houve um êxodo “natural” dos moradores da ilha, especialmente os mais jovens. Agora, muitos deles querem lutar por sua terra ou se reaproximar de suas raízes.


“Em termos de mentalidade, de paixão e de se apaixonar por Porto Rico, há uma mudança muito bonita no apoio ao que é local. As pessoas estão mais conscientes disso, mas é como um grão — algo muito importante que está acontecendo, porém ainda restam muitos microproblemas”, ressalta Lorén, do Chuwi.

“Benito nos lembrou que somos grandes, eloquente e que somos cultura”, exalta a modelo Camelia.

“Inspirando os moleques, botando pressão nos mais velhos (…)/ Meu nome vai pros museus, vai pros livros/ Sou a estrela da minha ilha, por isso eu brilho”.

Os versos acima são da música “ACHO PR”, do álbum “Nadie Sabe Lo Que Va a Pasar Mañana”, de 2023, lançada dois anos antes da residência de Bad Bunny. De certo modo, ele estava “prevendo” o futuro, visto que sua prova de amor por Porto Rico o tornou o líder de uma revolução, e sua única arma foi a arte.

Ouça os maiores sucessos de Bad Bunny

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