Resenha: Rosalía orquestra o divino e o humano em “Lux”

Disco é o mais ambicioso da carreira da cantora, que reforça sua enorme força criativa

Gabriel HaguiôNotícias8 de novembro de 2025

Foto: Divulgação

Os sentimentos têm sua própria linguagem, mas alguns ganham novos contornos em certos idiomas e formas. Também existem emoções que não podem ser traduzidas em palavras, mas ressoam perfeitamente em notas musicais. Em “Lux”, o primeiro disco de Rosalía em três anos, a cantora amplia ainda mais o seu horizonte musical para encontrar um novo meio de se expressar.

Para abraçar o que nem todas as palavras dizem, a artista recorre à fé. Durante uma hora, visitamos um mundo próprio, em que sua religiosidade guia cada faixa em uma busca pela luz. Orquestras grandiosas percorrem todo o álbum, cantado em 13 idiomas diferentes ao todo, e influências do flamenco, da música espanhola e de sua formação artística complementam a jornada.

A quebra de expectativas, tão presente na carreira da cantora, é mais uma vez o ponto de partida para a sua nova fase. Rosalía segue a contramão de uma indústria cada vez mais imediatista para criar o seu projeto mais grandioso. “Quanto mais eu sinto que estamos na era da dopamina, mais eu quero o oposto”, resumiu, em entrevista ao The New York Times.

E, de fato, “Lux” é o caminho contrário do convencional. O disco é um dos trabalhos mais ambiciosos dos últimos anos na música, e uma incontestável demonstração da força artística de um dos mais talentosos nomes do pop atual.

O caminho para a luz

Desde o lançamento de “Berghain”, parceria surpreendente com Björk e Yves Tumor, ficou clara a direção que Rosalía seguiria em seu novo disco: uma essência católica, conectado às suas origens em Barcelona, mas também profundamente experimental. Ao lado da Orquestra Sinfônica de Londres, a cantora usa a religião e a música clássica como planos de fundo para inovar em sua estética e sua sonoridade.

Antes de tudo, é preciso entender o norte que guia “Lux”. O projeto é completamente oposto ao seu antecessor em quase todos os sentidos: nas palavras da própria espanhola, “Motomami” (2022) é um trabalho bastante minimalista, enquanto a proposta de “Lux” é maximalista desde a sua concepção. As intenções podem ser muitas, mas em um mundo cada vez mais artificial, fica claro como a grandiosidade é capaz de nos reconectar com a arte.

“Sexo, Violencia y Llantas” dá início ao disco com uma orquestra crescente, enquanto Rosalía canta sobre seus próprios conflitos. “Quem dera viver entre os dois: primeiro amarei ao mundo, depois amarei a Deus”, indaga. A transição para “Reliquia” é igualmente intrigante: conduzida por um violino sutil, a artista se recorda de suas vivências em diferentes cidades pelo mundo, reforçando a universalidade que “Lux” carrega.

A escolha por cantar em múltiplos idiomas, aliás, não só é interessantíssima, mas também complementa a proposta do álbum. É nítida a preocupação de Rosalía em criar uma experiência que ressoe entre diferentes públicos e culturas, e a cantora se aproveita de várias linguagens para dar os tons que busca para as músicas  —  seja para soar dramática em alemão, misteriosa em latim, moderna em japonês ou até mesmo nostálgica em português.

Rosalía é a força central de “Lux”

Também há algo especial no esforço e, sobretudo, no estudo da artista com o projeto. “Lux” encanta não somente pelas orquestrações ou pela variedade de idiomas, mas sobretudo pela riqueza de detalhes que cada canção traz consigo  —  um perfeccionismo que se tornou marca registrada da carreira de Rosalía, e que poucos de seus contemporâneos compartilham. A produção segue o mesmo detalhismo, e consegue soar erudita ao mesmo tempo que moderna. “Porcelana” é o melhor exemplo, quando batidas eletrônicas dão um ritmo acelerado, em contraste aos violinos que abrem a canção. Já em “De Madrugá”, o refrão repetitivo e as castanholas remetem aos momentos mais pegajosos de “El Mal Querer” (2018).

Ainda que esteja rodeada de orquestras e corais, Rosalía se mantém como a força central do disco. Sua potência vocal é que dá brilho à grande parte dele: a cantora se aproveita de seu talento e alcance para comover o ouvinte de muitas formas, em diversos sotaques e idiomas. O italiano da ópera angelical “Mio Cristo Piange Diamanti”, por exemplo, é tão comovente quanto os trechos em árabe de “La Yugular”, nos quais a cantora jura “rasgar o céu ao meio e fazer o inferno ruir”.

Mesmo em uma peregrinação “em direção à luz”, Rosalía ainda encontra espaço para estancar seus traumas pessoais. Em “La Perla”, a canção mais divertida do álbum, a artista desabafa em um tom tragicômico sobre o seu relacionamento com Rauw Alejandro, com quem namorou entre 2021 e 2023 e noivou meses antes de terminarem. Ao ex-noivo, restam rótulos como “terrorista emocional”, “red flag andante” e muitos outros versos engraçados.

O drama que rodeia “Lux” envolve diferentes temas: o amor, o perdão, o desejo e, especialmente, a figura feminina. Rosalía evoca o divino para cantar sobre o terreno, retratando assuntos cotidianos com a sua devida grandeza. Cada canção forma uma só narrativa, em que a cantora busca a força espiritual para escapar da própria realidade.

Em “Magnolias”, canção que encerra essa jornada, Rosalía imagina seu funeral: a cantora diz subir aos céus enquanto Deus retorna para a Terra, e assim se encontram no meio do caminho. O final é tão suntuoso quanto o restante do disco: nos momentos mais dramáticos, “Lux” encontra um ápice de talento e detalhes que é raro encontrar em qualquer outro trabalho da atualidade.

A artista continua desafiando seus ouvintes, mas principalmente a si mesma e à sua capacidade de criar. “Lux” não é só mais um capítulo de uma carreira dinâmica e inovadora como a sua, mas também um marco para os padrões da música pop, tão preocupados com o que o algoritmo entrega ao fim do dia. Rosalía, porém, não teme em seguir direções que miram para além dos números, e o resultado parece ter vindo dos céus.

Nota: 10 / 10

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