Disco é o mais ambicioso da carreira da cantora, que reforça sua enorme força criativa

Os sentimentos têm sua própria linguagem, mas alguns ganham novos contornos em certos idiomas e formas. Também existem emoções que não podem ser traduzidas em palavras, mas ressoam perfeitamente em notas musicais. Em “Lux”, o primeiro disco de Rosalía em três anos, a cantora amplia ainda mais o seu horizonte musical para encontrar um novo meio de se expressar.
Para abraçar o que nem todas as palavras dizem, a artista recorre à fé. Durante uma hora, visitamos um mundo próprio, em que sua religiosidade guia cada faixa em uma busca pela luz. Orquestras grandiosas percorrem todo o álbum, cantado em 13 idiomas diferentes ao todo, e influências do flamenco, da música espanhola e de sua formação artística complementam a jornada.
A quebra de expectativas, tão presente na carreira da cantora, é mais uma vez o ponto de partida para a sua nova fase. Rosalía segue a contramão de uma indústria cada vez mais imediatista para criar o seu projeto mais grandioso. “Quanto mais eu sinto que estamos na era da dopamina, mais eu quero o oposto”, resumiu, em entrevista ao The New York Times.
E, de fato, “Lux” é o caminho contrário do convencional. O disco é um dos trabalhos mais ambiciosos dos últimos anos na música, e uma incontestável demonstração da força artística de um dos mais talentosos nomes do pop atual.
Desde o lançamento de “Berghain”, parceria surpreendente com Björk e Yves Tumor, ficou clara a direção que Rosalía seguiria em seu novo disco: uma essência católica, conectado às suas origens em Barcelona, mas também profundamente experimental. Ao lado da Orquestra Sinfônica de Londres, a cantora usa a religião e a música clássica como planos de fundo para inovar em sua estética e sua sonoridade.
Antes de tudo, é preciso entender o norte que guia “Lux”. O projeto é completamente oposto ao seu antecessor em quase todos os sentidos: nas palavras da própria espanhola, “Motomami” (2022) é um trabalho bastante minimalista, enquanto a proposta de “Lux” é maximalista desde a sua concepção. As intenções podem ser muitas, mas em um mundo cada vez mais artificial, fica claro como a grandiosidade é capaz de nos reconectar com a arte.
“Sexo, Violencia y Llantas” dá início ao disco com uma orquestra crescente, enquanto Rosalía canta sobre seus próprios conflitos. “Quem dera viver entre os dois: primeiro amarei ao mundo, depois amarei a Deus”, indaga. A transição para “Reliquia” é igualmente intrigante: conduzida por um violino sutil, a artista se recorda de suas vivências em diferentes cidades pelo mundo, reforçando a universalidade que “Lux” carrega.
A escolha por cantar em múltiplos idiomas, aliás, não só é interessantíssima, mas também complementa a proposta do álbum. É nítida a preocupação de Rosalía em criar uma experiência que ressoe entre diferentes públicos e culturas, e a cantora se aproveita de várias linguagens para dar os tons que busca para as músicas — seja para soar dramática em alemão, misteriosa em latim, moderna em japonês ou até mesmo nostálgica em português.
Também há algo especial no esforço e, sobretudo, no estudo da artista com o projeto. “Lux” encanta não somente pelas orquestrações ou pela variedade de idiomas, mas sobretudo pela riqueza de detalhes que cada canção traz consigo — um perfeccionismo que se tornou marca registrada da carreira de Rosalía, e que poucos de seus contemporâneos compartilham. A produção segue o mesmo detalhismo, e consegue soar erudita ao mesmo tempo que moderna. “Porcelana” é o melhor exemplo, quando batidas eletrônicas dão um ritmo acelerado, em contraste aos violinos que abrem a canção. Já em “De Madrugá”, o refrão repetitivo e as castanholas remetem aos momentos mais pegajosos de “El Mal Querer” (2018).
Ainda que esteja rodeada de orquestras e corais, Rosalía se mantém como a força central do disco. Sua potência vocal é que dá brilho à grande parte dele: a cantora se aproveita de seu talento e alcance para comover o ouvinte de muitas formas, em diversos sotaques e idiomas. O italiano da ópera angelical “Mio Cristo Piange Diamanti”, por exemplo, é tão comovente quanto os trechos em árabe de “La Yugular”, nos quais a cantora jura “rasgar o céu ao meio e fazer o inferno ruir”.
Mesmo em uma peregrinação “em direção à luz”, Rosalía ainda encontra espaço para estancar seus traumas pessoais. Em “La Perla”, a canção mais divertida do álbum, a artista desabafa em um tom tragicômico sobre o seu relacionamento com Rauw Alejandro, com quem namorou entre 2021 e 2023 e noivou meses antes de terminarem. Ao ex-noivo, restam rótulos como “terrorista emocional”, “red flag andante” e muitos outros versos engraçados.
O drama que rodeia “Lux” envolve diferentes temas: o amor, o perdão, o desejo e, especialmente, a figura feminina. Rosalía evoca o divino para cantar sobre o terreno, retratando assuntos cotidianos com a sua devida grandeza. Cada canção forma uma só narrativa, em que a cantora busca a força espiritual para escapar da própria realidade.
Em “Magnolias”, canção que encerra essa jornada, Rosalía imagina seu funeral: a cantora diz subir aos céus enquanto Deus retorna para a Terra, e assim se encontram no meio do caminho. O final é tão suntuoso quanto o restante do disco: nos momentos mais dramáticos, “Lux” encontra um ápice de talento e detalhes que é raro encontrar em qualquer outro trabalho da atualidade.
A artista continua desafiando seus ouvintes, mas principalmente a si mesma e à sua capacidade de criar. “Lux” não é só mais um capítulo de uma carreira dinâmica e inovadora como a sua, mas também um marco para os padrões da música pop, tão preocupados com o que o algoritmo entrega ao fim do dia. Rosalía, porém, não teme em seguir direções que miram para além dos números, e o resultado parece ter vindo dos céus.
Nota: 10 / 10






