“Diabo Veste Prada 2” defende o jornalismo em um reencontro de velhos amigos do público

O longa mostra que há de se ter esperança no jornalismo e que bons personagens tem a longevidade de roupas de alta costura

Pedro IbarraColunasNotícias29 de abril de 2026

"O Diabo Veste Prada 2" chega aos cinemas com uma mensagem para transmitir | 20 Century Studios/Divulgação

Na onda da nostalgia recente, fazer uma continuação para narrativas que parecem fechadas é como dar um tiro no escuro. Os diversos questionamentos sobre a necessidade de mais um capítulo para aquelas histórias são constante. No entanto, “O Diabo Veste Prada 2”, mesmo sendo uma dessas sequências com cara de desnecessárias, subverte a lógica e traz personagens amados para um contexto atual com reflexões importantes. “O Diabo Veste Prada 2” defende o jornalismo ao olhar para o mundo de forma crítica sem se perder da essência que fez o longa original, de 2006, ser um sucesso.

O novo filme conta com o retorno de praticamente todo o grupo que foi importante para o primeiro da franquia dar certo. Anne Hathaway retorna ao papel de Andy Sachs, Emily Blunt volta a interpretar Emily, Stanley Tucci dá vida mais uma vez ao sagaz Nigel e a gloriosa Meryl Streep inferniza todos como Miranda Priestly novamente. Sem contar que o diretor David Frankel e a roteirista Aline Brosh McKenna assinam a sequência.

Enquanto o primeiro longa discutia moda, cultura e os costumes do presente, agora longínquo, de 2006, o lançamento desta semana nos cinemas se volta para como os profissionais que contam essas histórias estão.

O jornalismo sempre foi muito retratado como um lugar glamouroso no audiovisual. Desde os gritos de: “parem as máquinas”, em histórias investigativas, passando por discursos calorosos e chegando as icônicas figuras que escrevem sobre moda e costumes nas telonas e nas telinhas.

Nomes como Carrie Bradshaw, de “Sex and the City”; Andie Anderson, de “Como Perder um Homem em 10 Dias”; Will McAvoy, de “The Newsroom”; e até as mais recentes Alex Levy e Bradley Jackson, de “The Morning Show”, são alguns dos exemplos de figuras da ficção que influenciaram muitas pessoas a seguir esta carreira na vida real.

No segundo “Diabo Veste Prada”, Andy Sachs não é mais uma sofrida assistente, ela está no mesmo patamar de relevância e expertise desses outros grandes nomes das redações retratadas em filmes e séries. Porém, o longa escolhe mostrar a personagem em um mundo mais real.

Apesar de dar até algum espaço para o lado atrativo da profissão, o filme afunda o dedo em uma das feridas que mais doem nos jornalistas da atualidade. A produção fala sobre as demissões em massa por cortes de gastos, os salários e orçamentos baixos, a falta de oportunidades de estabilidade, os preconceitos da profissão, o desespero por cliques e a inteligência artificial.

Ao mostrar até a preocupação daqueles que estão no topo da cadeia alimentar da profissão, como a tirana Miranda Priestly, “Diabo Veste Prada 2” transmite uma mensagem cristalina de que as mudanças do mundo nem sempre são para melhor.

Sem precisar apelar para catástrofes causadas por fake news ou excesso de tecnologia, o filme consegue passar o desespero de uma profissão que enfrenta um momento chave da própria história. Não é mais um retrato apocalíptico sobre como o jornalismo está em crise, mas um ponto de vista real sobre o que é necessário para tirar esta carreira tão importante de um lugar muito ruim.

Esperança na bondade

A produção aponta para o que enxerga de errado na realidade em um roteiro que traça um caminho para a solução, a partir da crença de que um futuro melhor é construído por pessoas que fazem o bem. A esperançosa Andy, muito mais profunda na pele de Hathaway 20 anos depois, encabeça este movimento.

A personagem é escrita para acreditar que até as piores pessoas tem um lado bom, mas sem ser otimista ou excessivamente positiva. Andy é uma irremediável esperançosa que contagia até as almas mais amargas. Dessa vez, nem Miranda, em mais um trabalho ímpar de Streep, escapa do magnetismo da jornalista desengonçada que continua vestindo 40.

A partir dessa figura carismática, o longa constroi uma narrativa em uma fórmula bem similar a do primeiro. A protagonista vai cativando os outros personagens, um por um, para conseguir executar o que dela é exigido. Andy cria uma rede e as coisas começam a dar certo até que o trabalho passa afetar demais a própria vida pessoal.

Entretanto, o grande achado desta continuação é olhar para o antecessor como referência para ser melhor. Assim, a partir do terceiro ato, o filme passa a ser algo original e único, mas que apara as arestas deixadas pela produção anterior. As injustiças feitas com todos os personagens no primeiro longa são remediadas e o sentimento que fica é de que o amanhã pode ser mais próspero que hoje.

Em uma reflexão profunda, calcada na verdade e digna das grifes da alta costura, os personagens atemporais olham para novas incertezas com a mesma esperança que tinham há 20 anos, mas com muito mais experiência.

Dessa forma, “Diabo Veste Prada 2” permite que um reencontro com velhos amigos seja motivo para acreditar que a bondade humana pode ser a resposta para um futuro melhor, seja ele para o jornalismo, ou para qualquer um desses questionamentos que perturbam o mundo com as mudanças impostas pelos novos tempos.

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