"Free Spirits" reflete sobre o melhor momento da carreira do duo, mas deixa rastros da pressa comercial que vem com o sucesso

Foi com uma performance no Tiny Desk e um EP que Ca7riel & Paco Amoroso começaram uma febre mundial. Desde o ano passado, a dupla tem espalhado seus nomes pelo mundo com o seu estilo excêntrico e completamente satírico. No entanto, a autenticidade não chama a atenção somente pela aparência, mas sobretudo pela música, uma mistura de gêneros e influências que marcou o lançamento de “Papota” (2025) e os catapultaram ao sucesso e ao Grammy.
“Free Spirits”, o novo álbum de estúdio do duo lançado na semana passada, marca o ponto alto dos últimos meses de crescimento, mas também um passo apressado para uma trajetória tão curta. Os cantores argentinos já ensaiavam a chegada de um disco desde o ano passado, quando anunciaram um projeto inédito para dezembro, mas o lançamento foi cancelado devido ao esgotamento físico e mental causado pelo ano de sucesso da dupla.
Depois de alguns meses, o álbum chega em uma versão repaginada, que satiriza a ideia de bem-estar que é comercializada nas redes sociais com um “programa de cura”. Apesar de continuarem satíricos e afiados, Ca7riel e Paco parecem abrir mão de sua personalidade musical em nome de um disco que soa confuso e apressado, ainda que tenha suas boas ideias.
Enquanto estava a caminho para cobrir o Lollapalooza, decidi, curioso, a ouvir uma palhinha do novo disco. Foi também no festival que ambos se revelaram para o Brasil em um dos shows mais divertidos do ano passado, e assim angariaram uma base de fãs no país e pelo continente. Posteriormente, a dupla ainda retornaria com dois shows solo em agosto, além de se apresentarem como ato de abertura de Kendrick Lamar no mês seguinte.
Logicamente, não é o mais adequado fazer a resenha crítica de um álbum o ouvindo em partes e enquanto se faz outras coisas, então guardei minha opinião para outro momento. Mas as primeiras impressões não haviam sido animadoras. E bem, as segundas e todas as que vieram depois também não foram.
O que mais me chamou a atenção negativamente foi, em primeiro lugar, quão confusas as novas canções soam. As faixas não são necessariamente ruins ou mal produzidas (na verdade, a produção está entre as principais qualidades do disco), mas são bastante desconexas musicalmente entre si. A ideia que amarra o trabalho é bastante criativa, mas a execução deixa um pouco a desejar.
Ao longo do disco, Ca7riel e Paco dissecam os males da vida artística em uma ironia sorridente, como se, de fato, estivessem vivendo no “centro de cura” de seus videoclipes. A dupla aborda temas como a depressão, o medo do fracasso e a pressão da indústria em uma temática leve e bastante palatável.
O trabalho tem início com “Nada Nuevo”, música que reflete sobre como temem perder a criatividade artística à sua própria maneira, com piadas bem-humoradas e comparações entre Paco e Lady Gaga (e sim, eles estão idênticos). A dupla tenta transformar o divertido em apoteótico, mas nem sempre o grandioso é exatamente mais potente.
A lista de convidados também reflete essa ambição, para o bem e para o mal. Sting, lendário vocalista do The Police, é a mais grata surpresa do álbum em “Hasta Jesús Tuvo Un Mal Día”, faixa em que o trio se joga no pop rock com o cantor como um anfitrião simbólico. Em “Goo Goo Ga Ga”, o ator e músico Jack Black empresta o seu tom cômico para o refrão, em uma participação muito mais simbólica pela sua figura do que exatamente pela música.
Por trás dos rostos bem-humorados e do pop chiclete, porém, a composição propõe reflexões bastante pessoais. Paco canta que acredita já ter vivido “os melhores anos da sua vida”, e como teme não ter aproveitado a juventude. Já em “Soy Increíble”, o cantor desabafa sobre o seu medo de estar sozinho, mesmo em meio à fama. São vários outros os momentos ao longo do disco que a dupla esconde discussões ricas sobre a fama em suas piadas, mas o embaraço sonoro desvia a atenção da mensagem com alguma frequência.
Em “Ay Ay Ay”, por exemplo, a dupla chama Anderson .Paak em uma canção na qual se abrem sobre o seu vício em prostituição, mas a alegria explosiva do ritmo caribenho não somente soa demais, mas também desvia a atenção do ouvinte da mensagem ao invés de reforçá-la.
Os exageros sempre foram uma marca registrada do Ca7riel & Paco Amoroso, tanto na estética quanto na música. Em “Free Spirits”, no entanto, o descompromissado parece soar como uma regra, e não necessariamente como um recurso espontâneo. O que é divertido se torna caricato e, aos poucos, perde a sua força.
Mas o disco também tem momentos de puro brilhantismo. A dupla mergulha na música eletrônica em algumas canções, como nas vibrantes “Muero” e “Ha Ha” ou em “Lo Quiero Ya!”, sua segunda parceria com o produtor Fred Again. A segunda metade da obra é consideravelmente mais interessante e autêntica, e destaca o lado mais inventivo dos artistas, que bebem de influências de trance e do techno.
Mesmo em sua guinada mais pop até aqui, é curioso acompanhar como Ca7riel e Paco Amoroso continuam a ironizar a indústria musical e a vida de celebridades a qual foram inseridos. “Free Spirits”, porém, parece refém da pressa comercial que os próprios cantores se veem atados em seu momento de maior sucesso. É um paradoxo inusitado, mas que define bem a confusão do trabalho.
Nota: 5,5 / 10






