A banda fez o primeiro de três shows na capital paulista nesse sábado (10), com muitos sinalizadores e rodas punk

Não poderia haver uma energia melhor para receber o System Of A Down de volta a São Paulo. Depois de quase dez anos desde a sua última passagem pelo Brasil, a banda voltou a se apresentar na capital paulistana neste sábado (10) — mas desta vez, diante de um público ainda maior, mais barulhento e, principalmente, mais emocionado.
Em 2025, completam-se 20 anos desde os últimos álbuns de estúdio lançado pelo grupo, “Hypnotize” e “Mezmerize”. Foram durante essas duas décadas, porém, que sua música começou a atravessar diferentes gerações pelo mundo e o nu metal se tornou um fenômeno global. A espera poderia ser menor, é claro, mas só reforçou sua relação intensa com os fãs durante todo esse tempo.
Assim que as luzes se apagaram, não haviam dúvidas de que a demora valeria a pena. A chuva caía sobre o Allianz Parque quando o quarteto surgiu sobre o palco em um repente, sob muitos gritos e celebrações, e retribuiu o carinho cumprimentando ao público. O refrão frenético de “Attack” anunciava o início do show e entrava em sintonia com a catarse na plateia.
Um dos principais destaques da apresentação está em seu estilo sobre o palco, direto ao ponto e sem rodeios. As canções alternam com muita naturalidade entre o barulhento e o melódico, desde os refrões aos riffs de guitarra, algo que sempre deu um ar único à sua sonoridade — e que ao vivo, funciona ainda melhor. Foi sendo fiel ao seu estilo que o System ganhou um lugar especial no rock dos anos 2000, e assim que a banda agitou a multidão no estádio.
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“Prison Song” e “Aerials”, canções do disco mais clássico do grupo, “Toxicity” (2001), são bons exemplos desse estilo, e foram prontamente recebidas com muita empolgação. Os primeiros sinalizadores começaram a acender entre o público — uma tendência que se seguiria durante todo o show, principalmente nas músicas mais agitadas. As rodas punk também foram uma atração à parte, e se formavam com a frequência na pista.
A conexão entre fãs e banda, afinal, é um dos maiores pilares em que se ergueu a carreira do System Of A Down, o que fica ainda mais nítido nos shows ao vivo. Mesmo com poucas interações e discursos durante a apresentação, o grupo não deixa a energia cair por um só instante, e enfileira as canções uma atrás da outra para prender a atenção de todos.
Apesar de curta, toda a discografia da banda tem espaço em meio à setlist, com aperitivos para todos os fãs. O grupo alterna entre as várias fases de sua carreira com muita suavidade, e sabe bem como dividir as canções mais eufóricas dos momentos mais tranquilos. “Temos músicas mais raivosas, mas também temos músicas muito, muito bonitinhas”, brincou Daron Malakian em determinado momento. O caos do hit “B.Y.O.B”, por exemplo, é seguida pela dançante “Radio/Video”, e a revolta rapidamente dá espaço à descontração.
A impressão que fica é que os quatro integrantes nunca estiveram tão à vontade sobre o palco. O guitarrista Daron Malakian e o baixista Shavo Odadjian conduzem com maestria e muito talento o ritmo do show, mas também não deixam de esbanjar seu carisma, com caras e bocas que arrancavam muitos sorrisos. O baterista John Dolmayan lidera as muitas viradas na percussão, e os vocais de um modesto e mais sereno Serj Tankian parecem ter envelhecido pouco desde a última passagem da banda.
Desta vez, a banda também trouxe uma estrutura muito mais arrojada para a sua turnê. O jogo de luzes e a disposição dos telões chama bastante a atenção, com fileiras que se moviam ao longo das músicas e efeitos visuais que complementam o espetáculo. Porém, o som e suas mensagens nunca deixam de ser protagonistas.
A fama do System Of A Down vem não somente pelo seu trabalho, mas também por um forte posicionamento político em defesa da Armênia e pelo reconhecimento do genocídio armênio de 1915. O lançamento mais recente do grupo, o single “Genocidal Humanoidz”, foi gravado em 2020 com o intuito de doar fundos ao país, que enfrentava uma guerra contra o Azerbaijão na época e deixou milhares de pessoas desabrigadas.
Quando a banda começou a tocar a música, as luzes dos celulares nas arquibancadas e na pista se acenderam nas cores da bandeira armênia com papéis que foram distribuídos horas antes. O gesto se repetiu muitas outras vezes na noite como uma forma de demonstrar apoio não somente à banda, mas suas causas.
Os maiores sucessos ficam para a segunda metade da apresentação. A guitarra inicial de “Chop Suey!”, o grande hit de sua carreira, ensandeceu a multidão — e também levantou muitos celulares. “Lost In Hollywood” e “Lonely Day”, duas das canções mais emocionais do repertório, vieram em sequência e fizeram uma bela dobradinha para os fãs, servindo como um balde d’água para segurar o fôlego para a reta final de apresentação.
E, de fato, era necessário. “Toxicity” marca o grande momento de êxtase da noite, e todos esperavam ansiosos o caos que viria em seguida. “Nós não temos pirotecnia sobre o palco, mas nossos fãs trazem o fogo!”, anunciou Daron enquanto chamava as rodas punk. Os fãs entenderam o recado: em poucos instantes, dezenas de sinalizadores tomaram a pista e vários moshes se formaram, no registro mais emblemático de todo show.
A delirante “Sugar” encerra o espetáculo com o público em transe, e coloca ponto final em uma das apresentações mais divertidas e variadas da atualidade. A banda sabe como poucos incendiar quando é preciso, mas também convida seus fãs a dançarem, protestarem e se emocionarem em uma experiência única. Os sorrisos estampados na volta diziam tudo: o System segue resistindo ao tempo, e sua energia continuará viva entre os fãs.
SETLIST:
1. “Attack”
2. “Suite-Pee”
3. “Prison Song”
4. “Violent Pornography”
5. “Aerials”
6. “Mr. Jack”
7. “I-E-A-I-A-I-O”
8. “Genocidal Humanoidz”
9. “A.D.D.”
10. “Needles”
11. “Deer Dance”
12. “Soldier Side (Intro)”
13. “Soldier Side”
14. “B.Y.O.B.”
15. “Radio/Video”
16. “Bubbles”
17. “Dreaming”
18. “Hypnotize”
19. “ATWA”
20. “Bounce”
21. “Suggestions”
22. “Psycho”
23. “Chop Suey!”
24. “Lost In Hollywood”
25. “Lonely Day”
26. “Streamline”
27. “Forest”
28. “DAM”
29. “War?”
30. “Roulette”
31. “Toxicity”
32. “Sugar”






