Kendrick Lamar nunca esteve tão confiante em sua carreira — e não somente no estúdio,...

Kendrick Lamar nunca esteve tão confiante em sua carreira — e não somente no estúdio, mas principalmente sobre o palco. Assim que os holofotes o revelam para o público, o êxtase o acompanha: os gritos tomam o Allianz Parque, e os olhos atentos dos fãs perseguem o rapper ao longo de toda a noite. Com 20 anos de trajetória na música, o cantor mostrou a São Paulo nesta terça-feira (30) que já pertence entre os maiores da história do rap.
Mesmo com uma demanda abaixo do esperado, o cantor fez uma performance digna de sua grandiosidade no hip-hop. Suas rimas a explicam por si só, mas o seu impacto ao vivo ressalta ainda mais o seu talento em compor, cantar e contar histórias. Kendrick o traduz em um espetáculo técnico e visual que cativa todo instante a quem assiste.
A performance é dividida por atos, que passam por todas as fases da carreira de K. Dot. Entre as canções, os telões mostram trechos do artista em um interrogatório, que brinca com as críticas e reações do público ao seu trabalho. “Você não acha que desaparecer também é uma forma de querer chamar atenção?”, a voz pergunta em determinado momento, referindo-se aos longos hiatos que Kendrick costuma levar entre um lançamento e outro.
O rapper, porém, nunca esteve em tanta evidência como agora. Depois de viver seu ano de maior sucesso e protagonizar o último show do intervalo no Super Bowl, Kendrick partiu em uma turnê mundial com SZA, que chegou à América Latina em uma versão solo. A repercussão foi tamanha que o cantor substituiu as arenas pelos estádios — inclusive no Brasil, retornando ao Allianz Parque após se apresentar por lá no GP Week em 2023.
É inegável, no entanto, que fatores como a escolha da data prejudicaram a logística para muitos. Momentos antes do show, o público ainda se reunia no estádio, que somente encheu há poucos minutos da apresentação, após um atraso de 40 minutos. Durante a tarde, os fãs que haviam comprado ingressos para a arquibancada superior foram movidos para a inferior, e o setor esvaziado foi coberto por tapumes.
Quem pôde comparecer assistiu uma performance do mais alto nível, e correspondeu com muita energia. O show segue a temática de seu último álbum, “GNX” (2024), o mais comercial e pretensioso de sua discografia até aqui; nas novas músicas, Kendrick cospe sua raiva através de seus versos, reflete sobre a sua própria grandeza no rap e celebra as suas influências na costa oeste dos Estados Unidos.
O suspense acompanha os primeiros versos de “Wacced Out Murals”, até que os holofotes revelam o rapper. Em seguida, “Squabble Up” e “N95”, duas das faixas mais explosivas de seu repertório, levantam os fãs em um repente, enquanto efeitos especiais e pirotecnias tomam o palco.
Kendrick construiu seu nome no hip-hop com trabalhos densos, que contam sobre o seu crescimento em Compton e traçam paralelos políticos e raciais com a sociedade norte-americana. Impressiona, portanto, ver como o artista alcançou tamanho sucesso entre o público sem projetos necessariamente voltados para as paradas, como se tornou comum entre seus contemporâneos. Moldar um espetáculo em torno de composições tão pessoais é para poucos, mas ele o faz com maestria.
Além de ser o maior letrista de sua geração, Lamar também é um dos rappers mais dominantes sobre o palco. O cantor dispensa efeitos vocais, autotunes e segundas vozes: junto à sua banda, K. Dot segura toda a apresentação em seu próprio fôlego, brincando com as métricas das canções e sustentando o ritmo ao longo de toda a noite. Como se a técnica não bastasse, Kendrick também sabe como controlar a energia dos fãs, dos mais novos até os mais antigos.
Por esses, o cantor parece ter um carinho especial. “Quem estava aqui desde o primeiro dia?”, perguntou à audiência, antes das primeiras batidas de “Swimming Pools (Drank)” ecoarem pelo estádio. Outros de seus clássicos, como “Alright” e “Money Trees”, também foram muito celebrados e cantados pela multidão. Já “m.A.A.d City” recebeu uma nova versão com um sample de Anita Baker, muito mais serena e menos efusiva que a original.
São os capítulos mais recentes de sua trajetória, contudo, que guiam a apresentação. A disputa com Drake, a mais emblemática no hip-hop nos últimos anos, inevitavelmente também se estende ao show, mas não rouba completamente a cena. Lançadas em direção ao canadense, “Euphoria” e “Like That” fazem parte da setlist, e estiveram entre os momentos mais catárticos da noite. “Not Like Us”, sucesso absoluto que rendeu cinco Grammys para Kendrick, certamente era a música mais esperada pelos fãs, e seu refrão ressoou por toda a multidão.
A sensação que toda a apresentação passa é a de assistir a grandiosidade ao vivo e a cores. Kendrick sabe do seu tamanho no hip-hop, e sua performance reflete o talento e a confiança do maior rapper de sua geração.
SETLIST:
1. “Wacced Out Murals”
2. “Squabble Up”
3. “N95”
4. “King Kunta”
5. “Element”
6. “TV Off” (primeira parte)
7. “Euphoria”
8. “Hey Now”
9. “Reincarnated”
10. “Humble”
11. “Backseat Freestyle”
12. “Family Ties”
13. “Swimming Pools (Drank)”
14. “m.A.A.d City”
15. “Alright”
16. “Man At The Garden”
17. “Dodger Blue”
18. “Peekaboo”
19. “Like That”
20. “DNA”
21. “Good Credit”
22. “Love”
23. “Count Me Out”
24. “Bitch Don’t Kill My Vibe”
25. “Money Trees”
26. “Poetic Justice”
27. “Luther”
28. “TV Off” (segunda parte)
29. “Not Like Us”
30. “Gloria”
Antes de Kendrick subir ao palco, Ca7riel & Paco Amoroso foram responsáveis pela abertura da noite. A dupla, uma das grandes sensações da música internacional em 2025, foi uma verdadeira atração à parte ao levar o seu show tipicamente divertido, criativo e autêntico para um novo público no Allianz Parque.
A escolha pelo duo argentino foi ousada, mas certeira para a turnê latino-americana de Kendrick. Seu trabalho mistura estilos das mais diferentes origens, do trap ao rock, além de esbanjar uma identidade visual única sobre o palco e em seus figurinos. São poucos os nomes que carregam tamanha originalidade como ambos, o que justifica toda a repercussão que eles vêm conquistando.
Em duas cadeiras posicionadas ao centro do palco, Ca7riel e Paco enfileiraram os principais sucessos de seus dois últimos projetos, “Papota” (2025) e “Baño María” (2024). A estética absurda, estampada desde os trajes até as cabeças infláveis sobre o palco, traduzem o estilo bem-humorado e moderno da dupla, que mesmo diante de um público diferente do usual, cativou novos fãs e a simpatia da audiência.






