Resenha: o amor é a maior contradição de Olivia Rodrigo em “you seem pretty sad for a girl so in love”

O terceiro álbum de estúdio da cantora foi lançado nesta sexta-feira (12)

Mariana AlvesNotíciasColunas12 de junho de 2026

Foto: Reprodução/Instagram @oliviarodrigo

O amor pode ser muitas coisas: profundo, ardente, vergonhoso e, definitivamente, doloroso. Isso fica claro em “you seem pretty sad for a girl so in love”, terceiro álbum de estúdio da Olivia Rodrigo, lançado nesta sexta-feira (12). 

Qualquer pessoa que tenha escutado os discos anteriores, SOUR (2021) e GUTS (2023) sabe que Olivia é excepcionalmente boa em não esconder os próprios sentimentos, por mais feios que eles possam parecer. Mas agora, em “you seem pretty sad for a girl so in love” ela o faz tomada por um evidente amadurecimento vocal e lírico. 

Nem tudo é preto no branco e, nesse álbum, ela tá explorando uma área mais cinzenta do amor. É como se enfim entendesse que o amor é um curativo poderoso para muitas coisas, mas não necessariamente para todas elas – e aceitar isso pode ser bastante doloroso. 

Em um álbum dividido em dois lados meticulosamente pensados para contar uma história de amor real, ela aceita as rachaduras que continuam existindo mesmo quando há amor. É como se Rodrigo finalmente entendesse que amar alguém não elimina inseguranças, não resolve traumas antigos e tampouco impede que a mente transforme pequenos problemas em catástrofes emocionais.

Toda história de amor tem dois lados 

“Drop dead” abre a primeira parte do disco em completo romance. Rendida ao amor e apoiada por referências à banda The Cure, Olivia se afasta dos hinos de coração partido e abraça uma idealização romântica quase caricata. O videoclipe gravado no Palácio de Versalhes traz ainda mais grandiosidade para a explosão de sentimentos que ela canta quando sente que realmente pode cair morta de tanto amor. 

“Eu sou um carro sem freio acelerando pela avenida, e eu te quero mais do que qualquer música boba seria capaz de expressar”, canta em “stupid song”, música que cresce grandemente à medida que o piano se funde com guitarras e baterias orgânicas. O resultado é uma ponte feita sob medida para ser gritada em estádios, como todo fã precisa para extravasar. 

A artista se mostra completamente devota e simultaneamente autoconsciente em “honeybee”, uma música de amor que, como a própria disse em entrevista à Audacity, ela espera ouvir em casamentos. Essa é, sinceramente, a melhor ocasião para ouvir o violino que antecede a última estrofe, um show à parte na canção, junto ao coro no final, construído por camadas de sua própria voz. 

Um aspecto impressionante da composição de Olivia é escancarado em “Maggots for brains”: a capacidade de transformar pensamentos pouco nobres em grandes momentos pop. Quando canta que, em seus momentos mais baixos, chega a desejar uma tragédia apenas para receber atenção, ela revela um tipo de pensamento que muitos têm, mas poucos admitiriam.

Em “u + me = <3”, ela escolhe ignorar os alertas sobre os riscos do relacionamento e simplesmente seguir em frente. Já em “my way”, há um grande potencial de favorita dos fãs: leve rivalidade feminina, sonoridade new wave carregada em sintetizadores e letra sarcástica. Mais um grande acerto da parceria da artista com o produtor Dan Nigro

São dos contrastes que o amor é feito

É em “purple” que o ritmo volta a desacelerar envolto por certa melancolia. Esse é o ponto de virada do álbum, quando ela percebe que se perdeu dos próprios desejos e desapareceu nos do parceiro, tornando-se apenas triste. A partir daí, ela nos recebe no segundo lado do álbum com “the cure”, uma metáfora médica que revela uma profundidade quase doentia na forma em que Rodrigo sente. 

A balada acústica “begged” centraliza a maior dúvida do álbum: Olivia quer entender se ela é realmente amada ou apenas quer desesperadamente acreditar que é. Essa sensação atinge o ápice em “what’s wrong with me”, provavelmente a letra mais identificável de todo o projeto. Não que as demais não sejam, mas aqui Olivia parece desnudar o mecanismo inteiro. 

É interessante observar como uma artista que construiu sua carreira cantando sobre inseguranças consegue ser segura o suficiente para dividir uma faixa com um de seus grandes ídolos. A participação de Robert Smith é uma adição e tanto para a canção – musicalmente, com seu tom melancólico inconfundível, e como símbolo de respeito à carreira de uma jovem de 23 anos.

Romantismo pós-punk oitentista

Ao longo das faixas, fica claro que ela busca ligeiramente se afastar das influências do pop rock dos anos 2000 para mergulhar de vez no pós-punk dos anos 80. Entretanto, é impossível não identificar referências à artistas mais próximas de sua geração, como Lorde, Lana Del Rey, Avril Lavigne e, especialmente em “less”, Billie Eilish

Se aproximando do fim da história, “expectations” vem como uma verdadeira explosão de todos os sentimentos conflitantes que a levaram até ali. Em um synthpop tomado por sintetizadores dançantes, ela canta em tom ácido sobre os critérios que busca em um homem – e promete elevar esses padrões. 

A faixa se encerra sem muito tempo para digerir todas as suas nuances antes da triste “cigarette smoke” tomar conta. Ela fecha sintetizando perfeitamente a obra como um todo, tanto em som quanto em letra. Olivia canta repetidamente que espera que “as memórias se escureçam”, como quem busca nesse disco uma forma de se libertar das mágoas e se desprender de vez das memórias dolorosas de alguém que amou muito.

Uma narradora pouco confiável, mas uma mente brilhante

É fascinante observar como, só talvez, Olivia Rodrigo não seja a narradora mais confiável da sua própria história, semelhante à algo que já vimos em grandes dramas clássicos, como “Dom Casmurro”. Não entendem mal – esse é um prato cheio para os ouvintes que amam ouvir, reouvir, tecer teorias e elaborar interpretações. 

Ela parece tão imersa no próprio ciclo infinito de overthinking, inseguranças e projeções que se torna quase impossível determinar quem saiu mais machucado daquela situação, ou até mesmo se existe uma vítima. 

Olivia sempre trabalhou melhor quando transforma sentimentos cotidianos em grandes hipérboles emocionais, e aqui não é diferente. O resultado é um álbum que combina sofisticação e visceralidade na medida certa, sem abrir mão das características que a tornaram uma compositora interessantíssima de acompanhar. 

Fato é: nem sempre dá para levar tudo que ela canta ao pé da letra, mas com certeza dá para se identificar e se divertir muito. Afinal, quem não se reconhece em uma dessas obsessões, que atire a primeira pedra. 

Nota: 9/10


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