Por Allan César, Fernando Marques e Gabriel Haguiô - 2024 foi um ano de grandes...

Por Allan César, Fernando Marques e Gabriel Haguiô – 2024 foi um ano de grandes novidades para a música no Brasil e no mundo. Desde febres midiáticas, trabalhos experimentais e grandes sucessos, os últimos meses foram movimentados e repletos de ótimos lançamentos.
Como em todo final de ano, o Tracklist listou os melhores álbuns nacionais e internacionais de 2024, com o objetivo de relembrar e celebrar os principais discos do ano. Confira as listas abaixo!
Observação: A lista inclui trabalhos lançados entre os dias 1º de janeiro e 1º de dezembro de 2024. Os títulos foram escolhidos a partir da opinião dos redatores e da equipe do Tracklist, além de considerar a opinião da crítica especializada.
No primeiro volume de “Serenata da GG”, Gloria Groove se arrisca no pagode em um projeto que amplia o seu repertório para além do pop. No disco, a artista empresta a sua voz e o talento de sua performance a alguns dos grandes sucessos do gênero com participações de nomes para lá de especiais, como Alcione, Belo, Ferrugem, Thiago Pantaleão e até mesmo sua própria mãe, Gina Garcia. O resultado é um trabalho de muita personalidade, que destaca a versatilidade de Gloria entre diferentes estilos.
Para além de um disco, “Numanice #3” é a celebração da força de Ludmilla dentro do pagode. Nesta edição, a cantora trouxe novas faixas como “Maliciosa”, além de regravações de faixas próprias e clássicos de outros artistas, como Carol Biazin e NX Zero. O destaque é sem dúvidas, além do vocal, as letras que abordam temas do cotidiano como amor e amizade, em uma linguagem simples que nos conecta facilmente com a artista.
Lançado em agosto de 2024, “No Escuro”, de Carol Biazin, é outro grande destaque deste ano. Com dez faixas, o projeto é um pouco mais introspectivo que os discos anteriores da artista, tendo uma vibe mais intimista e singular. Ao longo de todo material, Carol entrega uma produção sofisticada, com grandes vocais e uma mescla perfeita de pop com MPB e R&B.
O tão lamentado fim do Skank em 2023 não impediu Samuel Rosa de continuar dando novos significados à sua música. Em junho, o cantor lançou “Rosa”, álbum que inaugura definitivamente a sua carreira solo. O disco reaproveita a essência romântica que o vocalista incorporou à banda e a destrincha à sua própria perspectiva, de uma maneira muito mais direta.
Rosa substitui as hipérboles de seus grandes sucessos para cantar sobre amores sóbrios, seja a partir da paixonite de “Me Dê Você” ou pela sinceridade brutal de “Segue o Jogo”. O trabalho não tem a intenção de romper com a sonoridade que construiu com o Skank, mas sim experimentar seguir novas direções, lírica e musicalmente, para destacar os principais talentos de Samuel como artista – em principal, a sua maior vocação: a de emocionar.
“Batidão Tropical Vol. 2” é o sexto álbum de estúdio da cantora e drag queen Pabllo Vittar e dá continuidade ao projeto “Batidão Tropical”, lançado em 2021. Novamente homenageando clássicos do forró e do tecnobrega dos anos 1990 e 2000, o material se destaca pela capacidade da artista de revitalizar os gêneros tradicionais da música brasileira, mantendo sua identidade pop e divertida. As faixas “São Amores” e a “Me Usa” exemplificam bem essa mesclagem, demonstrando a capacidade da cantora de trabalhar uma boa era diferente do pop atual.
Céu, renomada cantora paulistana, lançou “Novela” em abril de 2024, após três anos sem álbuns autorais. Gravado em Los Angeles com produção de Pupillo e Adrian Younge, o disco mescla soul, reggae e influências afro-caribenhas, temperadas com a sensualidade brasileira. Faixas como “Into My Novela” e “Mucho Ôro” exibem sua veia pop e criatividade, além da produção criar uma atmosfera bem orgânica ao álbum. “Novela” reafirma Céu como uma artista capaz de utilizar sua voz e criatividade de forma única, justificando sua posição de destaque entre os melhores do ano.
O nome de Yago Oproprio não é exatamente uma novidade na cena nacional do hip-hop. O cantor conquistou seu renome entre singles autorais e colaborações com nomes como Jean Tassy, Fleezus e Murica, e assim chamou a atenção do público em vagarosos passos. Porém, foi somente com “Oproprio”, seu primeiro disco solo lançado em maio, que Yago pôde expressar a sua versão mais autêntica como artista: por meio de flows e melodias cativantes, o paulistano canta sobre as próprias vivências urbanas e explora as inspirações que variam entre o R&B, o afrobeat, o boom bap e a música latina em um dos melhores projetos do ano.
Desde que se conheceram em São Gonçalo, Anchietx, Cupertino e Leo Guima fizeram da liberdade a principal força criativa d’Os Garotin, grupo que surgiu a partir da vontade de se expressarem por meio da música. “A gente nunca quis doutrinar a nossa criatividade. A nossa criatividade que manda na gente, a gente obedece ela”, contaram, em entrevista ao Tracklist.
Em “Os Garotin de São Gonçalo”, álbum de estreia do trio, os músicos exploram a trilha sonora de sua formação artística para darem vida ao seu repertório, com toques nostálgicos de R&B, soul, MPB e pop. O resultado é um trabalho descontraído e cativante, que prende a atenção dos ouvintes desde as declarações de amor de “Curva Escura” e “Calor do Momento” até as cordas, metais e teclados que permeiam a obra. É difícil imaginar um cartão de visitas melhor para Os Garotin – que inclusive conquistaram um Grammy Latino com o disco -, mas a julgar pelo talento dos três, o caminho promete seguir subindo por um bom tempo.
Melly, cantora baiana de 22 anos, estreia com “Amaríssima“, lançado em maio de 2024. O álbum explora as nuances do amadurecimento, combinando ritmos brasileiros com pop e R&B. Faixas como “Bandida” e “Rio Vermelho” demonstram sua versatilidade vocal e habilidade em mesclar gêneros. A produção incorpora elementos do pagodão baiano e afrobeats, resultando em uma sonoridade rica e envolvente.
Nos últimos anos, Matuê foi um dos principais responsáveis por fortalecer o trap na música nacional e estabelecer um espaço próprio para o gênero, fosse explorando novas tendências ou dando visibilidade ao estilo. Com “333”, porém, o artista segue por outro caminho: ao invés de dar continuidade à fórmula que o consagrou, o rapper mergulha na experimentação para dar vida às músicas de seu novo álbum.
Ainda que as batidas cativantes continuem a dar o tom aos seus flows em canções como “Crack com Mussilon” e “1993”, são nos momentos que Matuê decide dar um destaque maior às instrumentações que o disco brilha. Em “O Som”, guitarra, bateria e sintetizadores se unem em uma sonoridade psicodélica; já na faixa-título, o baixo guia um dos momentos mais simbólicos da obra. Em muitos sentidos, “333” é um inspirador fôlego criativo para o trap brasileiro, e um importante amadurecimento artístico na carreira de Matuê.
Um dos melhores discos do ano, que foi reconhecido com três Grammys Latinos em 2024, “Se o Meu Peito Fosse o Mundo” é o trabalho mais intimista e introspectivo de Jota.pê. Flutuando entre emoções profundas e reflexões do cotidiano que podem parecer mais simples, o artista consegue conectar o trabalho de forma coesa e com uma qualidade absurda de produção. As colaborações com Xênia França e Gilsons enriquecem ainda mais o projeto, que já tem vida própria e foi extremamente bem recebido pelo público.
MC Hariel entrega em “Funk Superação – Ao Vivo” um trabalho que vai além da música, transformando suas letras em um reflexo de superação e resiliência. Gravado ao vivo, o álbum captura a energia e a conexão do artista com seu público, criando uma ambientação de troca e aprendizado. A seleção das faixas passa por produções que destacam os pontos fortes de MC Hariel, abordando temas como fé, luta e sonhos. Destaques como “A Dança”, com Gilberto Gil, e “Vida Louca, Bela e Curta” mostram a habilidade de Hariel em conectar o funk com narrativas reais e emocionais.
“Tara e Tal” é o terceiro álbum de estúdio da cantora pernambucana Duda Beat, lançado em abril de 2024. Mais ousado e inovador que os anteriores, o disco é dividido em duas partes temáticas: “Tara”, que explora o desejo e a tensão sexual, e “Tal”, que aborda a paixão frustrada e a melancolia.
Um dos pontos fortes do projeto é a versatilidade e sofisticação. A obra passeia por gêneros como pop, eletrônico e ritmos brasileiros e, ao mesmo tempo, mantém a característica emotiva e melancólica de Duda.
Tudo é fresh e nostálgico, mostrando a capacidade da artista de se reinventar após ter sido colocada na caixa de “pop sofrência”. Faixas como “Saudade de Você” e “Night Maré” nos recordam o quão boa é contribuição de Duda ao cenário do pop nacional.
Há algum tempo, as rimas de Duquesa estão entre as mais afiadas em todo o rap brasileiro. A cantora, porém, atinge um novo patamar em “Taurus, Vol. 2”, seu trabalho mais perspicaz até aqui: o álbum lançado em maio é um retrato fiel de suas habilidades como rapper dos flows às composições, mas também uma prova imponente de sua força no cenário nacional.
Ao longo das músicas, a rapper baiana versa sobre os próprios luxos e vivências, ao mesmo tempo que canta sobre o cenário do hip-hop no Brasil. “Ilari, lariê, oh-oh-oh; o seu rapper não é um gênio, ele só copia flow”, ironiza em “Turma da Duq”, faixa em que brinca sobre fãs de artistas masculinos que questionam seu talento. Duquesa responde com a inteligência e a cadência de poucos nas rimas; canções como “Disk P@#$%&” e “Purple Rain” destacam a sua versatilidade para soar agressiva ou melódica, enquanto produções como “Tá Eu e a Nicole”, e “Pose” são a cereja do bolo. Em um meio que ainda oferece visibilidade e investimento desiguais para as mulheres, o trabalho de Duquesa é um frescor inspirador para o rap brasileiro.
Em mais de uma ocasião, Liniker contou que a ideia por trás de “Caju” surgiu a partir da terapia: a artista declara que foi questionada pela própria analista se o seu medo de dirigir, na verdade, não seria “um medo de dirigir a própria vida”. Em seu segundo disco solo, a cantora assume o volante e desfruta de sua liberdade criativa para dar voz à própria coragem. Enquanto rompe fronteiras musicais e se aprofunda em seu lado mais artístico, o álbum dialoga sobre amores, poesias e carências com o toque autêntico que somente Liniker consegue acrescentar à sua música.
Em “Caju”, vencedor da lista de melhores álbuns nacionais de 2024, a cantora veste suas composições em diferentes roupagens, em uma dosagem muito bem equilibrada entre a experimentação em novos gêneros e as tendências comerciais do momento. Se em músicas como “Veludo Marrom” e “Ao Teu Lado” Liniker decide mergulhar no sentimentalismo por meio de orquestras românticas, em “Tudo” e “Febre” a artista aposta em ritmos populares para cantar sobre seus amores e escancarar sem medo as próprias carências.
“Caju” é um balanço inspirador entre o experimental e o comercial, dois mundos que na maioria das vezes se distanciam na indústria. Durante anos de carreira, Liniker conquistou renome suficiente para experimentar como bem entendesse, mas o trabalho também reafirma o potencial que a sua voz tem de atravessar multidões de modo tão singular. É simbólico que “Caju” possa amadurecer como ambos: o seu projeto mais criativo e uma febre instantânea na música brasileira.
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