Entrevista: Jovem Dionisio fala sobre “Migalhas”, nova fase na carreira e mais

Novo disco traduz a maturidade criativa do grupo em novo momento da carreira

Foto: Divulgação/Créditos: Fernando Mendes

Após o sucesso de “Acorda Pedrinho”, que projetou a Jovem Dionísio nacionalmente, a banda paranaense inicia um novo capítulo na carreira com a estreia de seu terceiro álbum de estúdio, “Migalhas“.

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Lançado no dia 1º de abril, o novo disco apresenta uma proposta diferente em relação aos trabalhos anteriores, tanto na construção das faixas quanto na forma de execução. Com isso, a Jovem Dionísio aposta em uma abordagem mais estruturada, sem abrir mão dos elementos que ajudaram a consolidar seu nome no cenário nacional.

O projeto conta com 10 faixas, que podem ser traduzidas como “migalhas” de cada um dos cinco integrantes: Bernardo Pasquali (vocal), Rafael Dunajski Mendes “Fufa” (guitarra), Gustavo Karam (baixo), Bernardo Hey “Ber Hey” (teclado) e Gabriel Dunajski Mendes “Mendão” (bateria). 

Em entrevista ao Tracklist, a banda detalhou as escolhas por trás do disco, comentou as referências que influenciaram essa nova fase e explicou como o projeto busca expandir a identidade construída desde “Acorda Pedrinho”.

Jovem Dionísio detalha o processo criativo do álbum “Migalhas” e mais

Eu vou começar a pergunta porque confesso que ela está na minha cabeça desde que li o release do projeto: em que momento surgiu a ideia de transformar um ônibus em um palco?

Mendão: Cara, um momento específico, assim, não sei se tem um exatamente definido. Mas teve um grande ponto de inspiração: um ônibus do Rafael Paraná, que é um músico aqui do Paraná, que viajava com um ônibus assim. A gente viu aquilo e pensou: “cara, isso é muito foda”. Só que era um ônibus muito antigo. A gente achou que poderia dar certo, mas ao mesmo tempo não daria, porque ele era um artista solo e a gente é uma banda. Mesmo assim, a gente se apaixonou pela ideia e falou: “vamos fazer o nosso então”. Algo que se encaixasse mais com as nossas ideias, com o nosso perfil e com o que a gente quer fazer.

Vocês apostam em um formato itinerante, quase como um “circo sobre rodas”, e ainda gravaram o disco ao vivo, sem grandes intervenções. Essa nova fase é mais sobre experiência do que sobre performance?

Belni: De certa forma, sim — mas a performance ainda é uma parte muito importante do que a gente faz. Principalmente no quesito execução. A gente estava muito preocupado com como conseguir executar tudo o que vinha criando. E acho que isso foi outro motivador para o ônibus. A gente percebeu que esse disco e essas vontades seriam melhor resolvidas em um palco único. Um palco que a gente pudesse transportar, ao invés de transportar o que veste o palco. Acho que vem muito desse lugar.

E sendo bem sinceros: teve algum momento em que vocês pensaram “isso não vai dar certo”?

Belni: Ah, isso é todo dia. Todo dia. [Risos]

Mendão: A maior chance é de não dar certo, né? Sempre. A gente luta contra isso.

Belni: Mas justamente isso faz a gente olhar e pensar: por que não daria certo? Porque, se você parar para analisar qualquer ideia e começar a calcular todos os erros possíveis, sempre vai existir muito mais chance de dar errado do que dar certo. Isso vale pra maioria das ideias. E quando surgiu essa, a gente viu que tinha uma quantidade esmagadora de possibilidades de dar errado. E aí a gente falou: “então é a gente que vai fazer isso dar certo”.

Mendão: É tipo o circo. Quanto maior a chance de dar errado, melhor a performance. O malabarista está com 10 facas? Coloca 11. A chance de erro aumenta, mas se der certo, o impacto é muito maior. Acho que a gente entra nesse raciocínio também.

Agora olhando para “Migalhas”: dá pra sentir uma evolução sonora clara. O que mudou no processo criativo de vocês?

Belni: Mudou a forma de começar a mexer na música — desde a fundação até o acabamento. O processo inteiro é outro. E era exatamente isso que a gente buscava. A gente sabia que, se continuasse no mesmo processo de sempre, ia ficar só executando algo que já funcionava dentro das nossas ideias. Chegou um momento em que a gente ficou cansado disso. A gente olhou e falou: “precisamos achar uma nova forma de fazer o que a gente faz”.

Porque, na pior das hipóteses, a gente aprenderia muito. E, na melhor, sairia com o nosso melhor disco. E acho que foi as duas coisas ao mesmo tempo.

Tem alguma faixa que traduz melhor esse momento da banda?

Mendão: Acho que o álbum inteiro foi construído para ter essa estética. É o nosso disco que mais carrega isso. Uma música conversa com a outra dentro do mesmo universo. Então não é uma faixa específica — são todas juntas que têm essa força.

O álbum tem uma identidade bem marcada e me fez revisitar artistas da minha infância — mas não vou falar para não influenciar vocês. Quais foram as principais referências?

Belni: Já estou tentando adivinhar quais são esses artistas. [Risos]

Fufa: A primeira coisa que pensei foi isso também. [Risos]

Mendão: É… [Risos]. Mas foram várias referências — não dá para dizer só uma. A gente se baseou muito no processo. Vimos documentários de bandas antigas que a gente gosta. O próprio Beatles, por exemplo — a gente assistiu à série da Apple e tentou viver algo parecido com o processo deles. Mas também tem muita coisa brasileira. A gente se conecta muito com Mutantes, por exemplo. Aquela mistura da música brasileira com influências de fora. Tem muita referência de uma época mais antiga, mas também muita coisa atual. Tame Impala, que eu sou muito fã… e várias outras bandas atuais que a gente acompanha.

Da minha parte, eu senti algo como o “Ventura”, do Los Hermanos, só que repaginado.

Mendão: Eu pensei exatamente nisso quando você falou. [Risos]

Belni: Essa sensação faz sentido. Não diria que foi uma referência direta do disco, tipo “vamos fazer isso aqui”, mas Los Hermanos faz parte da nossa formação desde antes da gente lançar música. Então com certeza tem um pouco disso ali.

Se alguém nunca ouviu Jovem Dionísio, por onde deveria começar: pelo passado ou por “Migalhas”?

Belni: Boa pergunta.

Fufa: Depende do que a pessoa quer. Se a pessoa quer entender a Jovem Dionísio de 2026, faz mais sentido começar por “Migalhas”. Para entender o que a gente pensa hoje. Mas, se for alguém mais investigativo, que gosta de acompanhar evolução, talvez comece do início.

Belni: Concordo. Hoje, começar por “Migalhas” pode ser melhor — até porque a pessoa já pode ir direto para o show. Se começar por “Acorda Pedrinho”, pode criar uma expectativa diferente da turnê atual. Então faz mais sentido entrar pelo presente e depois voltar.

Pra fechar: o que essa nova fase ainda quer explorar?

Belni: A gente quer viver o Brasil com esse ônibus. Mostrar ele para quem quiser ver — e ele vale a pena. A reação no primeiro show, em Curitiba, foi melhor do que a gente imaginava. A gente sabia que o ônibus teria impacto, mas foi ainda maior.

Hoje tem muito show acontecendo o tempo todo, em todo lugar. E a gente sempre se incomoda em estar só seguindo o fluxo. A gente quer encontrar outra corrente, mesmo que dê errado. E o grande plano agora é continuar fazendo muita música. Com essa mudança de processo, a gente percebeu que consegue criar com mais profundidade e, às vezes, até mais rápido.

Mais algum spoiler?

Belni: O próximo spoiler é só com um busão embaixo da gente. [Risos]

Mendão: E também viver a espontaneidade. Se a gente souber exatamente tudo o que vai acontecer, perde a graça.


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