O amor é mesmo um lugar cheio de curvas. E foi entre saudades que Flávio...

O amor é mesmo um lugar cheio de curvas. E foi entre saudades que Flávio Delli desenhou o caminho de seu primeiro álbum solo, “O Amor é um Pequeno Intervalo entre Duas Saudades”. Com uma turnê passando por 12 capitais brasileiras, o artista leva ao palco um espetáculo sensorial que combina música, performance e uma dose generosa de emoção real — literalmente vivida por ex-casais convidados para reviverem antigas histórias durante o show da faixa “Pedacinho”.
Formado em cinema e com uma bagagem de dez anos no teatro, Delli investe numa proposta artística que desafia os formatos tradicionais. Com influências da psicanálise, da literatura e da performance de Marina Abramović, o cantor transforma sua vivência pessoal em uma jornada poética e honesta sobre as fases do amor — da esperança ao luto, da ausência à memória.
Em entrevista ao Tracklist, Flávio Delli revelou o processo de composição do álbum, comentou a viralização do clipe de “Pedacinho” e compartilhou histórias emocionantes do público que já o acompanhou nos primeiros shows da turnê. Ele também antecipou os próximos passos da carreira, incluindo novas composições que devem explorar os aspectos mais sombrios da experiência humana. Confira!
Como foi o processo de criar “O Amor é um Pequeno Intervalo entre Duas Saudades”? Quais foram suas inspirações principais para esse álbum?
Durante pandemia, a minha banda de então, Apráticos, acabou. Decidi seguir em carreira solo e passei a compor muito, visando a essa nova fase. Depois de 15 canções compostas, passei a escolher o repertório pra um EP, quando percebi que 7 dessas canções e mais uma poesia falavam de amor, sob o ponto de vista da saudade, da ausência como sustância do amor.
No disco, busquei segurar a mão no artesanato das letras, em prol da simplicidade, a fim de criar canções que se conectassem com o público em lugares íntimos, reais.
Ainda assim, sempre trago referências literárias, de autores que exploram a contradição humana. Algumas poucas pessoas que me acompanham perceberam a referência ao conto A Cartomante, de Machado de Assis, na música Mandarim.
Além disso, à época em que compunha, estava ouvindo muito Antônio Zambujo (Portugal) e El Kanka (Espanha) e trouxe um pouco do senso de humor deles pras letras das músicas.
O álbum tem uma estrutura quase narrativa, como se fosse uma história do início ao fim de uma relação. Como você pensou essa construção?
Essa “solução” só veio na hora de escolher a ordem das músicas do disco. A princípio, eu estava inclinado a escolher Pedacinho, a canção que viralizou, como primeira do álbum, porém, percebi que cada uma das 7 canções do disco representava, cronologicamente, uma fase desse ciclo do amor, que está entre duas saudades. Então o disco começa com Mandarim, em que um solitário e cético em relação ao amor, vai à cartomante, deixando escapar uma pitada de esperança em seu destino romântico, e termina com Pedacinho, em que a pessoa já atravessou o luto de uma relação e pode olhar pra trás e honrar o que foi vivido.
A 8ª faixa é a poesia que dá título ao disco e que, junto com minha primeira composição instrumental, dá sentido a todo esse ciclo, quando diz que “todo amor que existiu nasceu de uma saudade e todo amor que existe morrerá em uma saudade.”
A canção “Pedacinho” viralizou nas redes sociais. Como foi ver essa música ganhar esse espaço e o que ela representa dentro do conjunto do disco?
Essa canção toca em um ponto muito sensível, que a gente tenta ignorar: se procurar bem, todo mundo guarda uma história importante dentro do peito. Ainda que essa história tenha terminado mal, os bons momentos ficam. Depois de um distanciamento temporal, fica mais fácil enxergar e contemplar esses pontos bons.
Acho que esse foi o ponto de expansão da canção: ela joga luz sobre um afeto poucas vezes iluminado, olha para uma ex relação sob um ponto de vista incomum. Acho que muita gente precisava desse olhar pra ressignificar, curar ou reverenciar esse Pedacinho importante da própria história sentimental.
Ela representa o fim do ciclo do disco: é uma saudade carregada de amor.
Aliás, no show de estreia, em São Paulo, no inicio de abril, você trouxe o conceito do clipe de “Pedacinho” para o palco, com a participação de um ex-casal. Como foi essa experiência para você e para eles?
No clipe de Pedacinho, inspirado em uma performance de Marina Abramovic, eu trouxe 5 ex-casais pra um encontro sem marcações, numa tentativa de potencializar a profundidade da letra de Pedacinho. O público gostou tanto, que decidi arriscar e trazer esse happening pro palco dos meus shows. Em São Paulo, o ex-casal foi casado por 27 anos, estavam há 5 anos separados, e revelaram em cima do palco que o fim da relação não fora causado pelo fim do amor. A mulher que participou do happening se derramou em lágrimas e alguns lencinhos foram vistos na plateia também. No fim, o público canta o refrão de Pedacinho pro casal que se jogou nessa performance e houve uma espécie de banho coletivo nas almas presentes.
Você vem do teatro e do cinema, e agora assume o palco com um show tão sensorial. Em que momento percebeu que a música também seria seu caminho?
Pra ser bem sincero, a música me pegou antes de qualquer arte, aos 15 anos, quando li “Só as mães são felizes”, biografia do Cazuza escrita pela mãe dele. Ali eu entendi que não precisava trilhar o caminho que escolheram pra mim. Por uma certa inibição, por não saber se a música era pra mim, escolhi começar nos bastidores do teatro e me formar em cinema, enquanto compunha e estudava canto. Hoje, essas três artes se combinam na minha proposta artística, com a música em primeiro plano.
Também soubemos que, após o show, o público teve a oportunidade de interagir com você. O que você mais ouviu das pessoas nesse momento pós-show? Alguma reação ou comentário que te tocou especialmente?
Desde as redes sociais, eu gosto muito da troca com o público. Escolhi fazer arte pra aprofundar a minha experiência com a realidade desse planeta, não é uma escolha meramente estética. Então me impressionou a profundidade dos lugares em que meu show tocou o público. Em especial, me tocou uma fã que me disse que chorou e riu, sentiu e dançou. A poeta polonesa Wislawa Szymborska, a maior inspiração do meu estilo atual, menciona que o que busca na escrita é o efeito que na pintura chamam de chiaro-scuro. Me identifico. Acho que, se tem uma característica que marca minhas composições, é explorar a inerente contradição humana.
Agora que a turnê começou, quais são suas expectativas para os próximos shows? Tem algum momento ou cidade que você está particularmente animado para se apresentar?
Acabei de voltar do Rio de Janeiro e a plateia foi muito quente, dançou, interagiu com as performances… brinquei com eles dizendo que me senti no carnaval (ao que me responderam que lá é carnaval o ano todo). Minha música, ao mesmo tempo em que toca lugares densos, é solar. Então estou ansioso pra tocar no Nordeste, em especial, Fortaleza, pois sinto que a recepção será calorosa e potente.
Passada a turnê, o que vem por aí? Quais são os seus próximos passos?
Tenho uma nova leva de composições e já começo a perceber um ponto em comum entre elas, ponto esse que já se diferencia das canções do primeiro disco: trazem à tona algumas de nossas sombras, tratam de temas que só o inconsciente permite acessar. Ainda não sei se podem fazer parte de um disco ou um EP, mas, se sim, penso em chamar esse trabalho de “Vai pela sombra”, pra instigar o público mesmo a mergulhar nos próprios segredos escondidos até deles mesmos. É outra coisa que acho que enriquece a nossa experiência humana.
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