Vivendo o seu maior mês, o cantor quebrou as barreiras do mercado brasileiro e fez história em São Paulo

Somente alguns quilômetros separam o Brasil do restante da América Latina, mas a distância é o menor dos detalhes. Nossa cultura se assemelha de muitas formas com a de nossos vizinhos: vivemos o mesmo cotidiano, passamos pela mesma história, mas ainda é difícil ver o brasileiro se assumir como latino. Das muitas barreiras invisíveis que ainda nos dividem, a música talvez seja uma das maiores, dada a negligência histórica do país com artistas de língua espanhola. As exceções são poucas no Brasil, e Bad Bunny definitivamente se tornou uma delas.
Nesse sábado (21), Benito encerrou sua primeira passagem pelo país diante de um Allianz Parque lotado com um recado claro: todos somos latinos. Há poucos anos, seria irreal pensar que Bad Bunny reuniria um público de 100 mil pessoas em um fim de semana em São Paulo, mas o cantor chutou a porta com o sucesso global de “Debí Tirar Más Fotos”, disco que reafirma sentimentos comuns a toda a América Latina. A intimidade com os nossos, as saudades de casa e o calor da festa são capazes de unir diferentes povos, e também de fazer um estádio inteiro aprender a cantar em espanhol.
Vivendo o maior mês de sua carreira após conquistar o Grammy de “Álbum do Ano” e se apresentar no show do intervalo do Super Bowl, Bad Bunny fez história em sua passagem pelo Brasil. Não é sempre que o artista mais badalado do mundo toca em seu país, e Benito fez jus à sua fama para novos e velhos fãs.
“Debí Tirar Más Fotos” usa a memória e a nostalgia como pontos de partida para levantar a bandeira pelo resgate cultural de Porto Rico. As novas canções substituem as batidas modernas que o levaram ao sucesso por ritmos caribenhos, como a salsa, a plena e a bomba, uma forma de se reconectar com suas tradições e lutar pela preservação de sua terra natal.
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O seu show reflete todos esses elementos de maneiras nada sutis. Sobre o palco, uma banda de salsa acompanha o cantor e dá uma cara nova aos seus sucessos. A famosa “La Casita”, a representação de uma varanda de casa rosa e amarela que replica as residências porto-riquenhas, também marca presença na turnê.

Porém, as maiores referências à sua terra natal estão, como não poderia deixar de ser, na música. “La Mudanza” abre a noite como um ode a Porto Rico; no telão, duas crianças recitam o famoso discurso de Bad Bunny sobre os seus pais, até que Benito surge no telão e sobre o palco, emocionado e ovacionado por todo o público.
Toda a sequência inicial é arrebatadora. “Callaita” convida o público a bailar em uma versão em salsa ainda melhor que a original, e de repente o estádio se torna uma grande pista de dança. Já em “Turista”, a hora é de revirar as mágoas, e logo em seguida afogá-las no grande sucesso de “Baile Inolvidable”. Durante a canção, basta olhar ao redor para notar o seu impacto: uma multidão de diferentes países da América Latina se arriscando em passos de salsa, cantando o refrão em uníssono e com os rostos sorridentes. Definitivamente, era a vez de Bad Bunny no Brasil.
Em outras ocasiões, Benito declarou que gostaria de entrar no país espontaneamente e “do jeito certo”, sem forçar o seu nome sobre o público. A todo o momento, é possível notar o carinho do cantor pelo país, dos discursos aos gestos. Em português afiado, o cantor se declarou: “Prometo que vou aprender a falar português, vou ficar aqui para sempre!”.
Essa consideração também se estende à organização. O show não foi qualquer um: o artista trouxe a estrutura completa para São Paulo, com um telão enorme, efeitos visuais brilhantes e câmeras com luzes LED, sincronizadas entre arquibancada e pista.
Pelo menos metade da noite se passa na “La Casita”, onde o perreo toma conta do estádio com seus sucessos de reggaeton e de trap latino, como “Tití Me Preguntó”, “Yo Perreo Sola”, “Safaera”, “Monaco” e tantos outros. O espaço conta com dançarinos e convidados especiais, que são convocados pela produção na pista e nas arquibancadas antes da apresentação começar. É um bloco que não somente demonstra a dedicação de Bad Bunny aos mínimos detalhes para recriar cenas típicas de Porto Rico, mas também a sua atenção em proporcionar uma experiência completa para todos os fãs, independentemente do setor.
Cada apresentação da turnê também tem um toque único com uma música exclusiva por noite. Para o segundo show em São Paulo, a canção escolhida foi o remix de “Te Boté”, diretamente dos primórdios de sua carreira. O coletivo porto-riquenho Los Pleneros de La Cresta, que tem acompanhado o artista, junta-se à Casita na sequência para uma performance especial de “Café Con Ron”.
A reta final da noite reúne algumas das faixas mais emocionais do repertório. A romântica “Ojitos Lindos” abre o bis junto a “La Canción”, parceria icônica com o cantor colombiano J Balvin. Também há espaço para o protesto político em “El Apagón”, música que denuncia os apagões corriqueiros de Porto Rico, decorrentes da falta de estrutura deixada pelos Estados Unidos na ilha. “Agora todos querem ser latinos, mas lhes falta tempero, bateria e reggaeton”, canta Bad Bunny.

“DTMF”, o maior hit de sua carreira, une o público em uma catarse coletiva. Por uma só canção, Benito pede ao público para guardar os celulares e “aproveitarem o presente”. Em um só coro, os fãs pularam e se abraçaram ao refrão, em um dos momentos mais emocionantes da noite. Por um momento, todos eram brasileiros, mas também porto-riquenhos.
Mas, a todo momento, somos todos latinos. O show de Bad Bunny resgata o sentimento de pertencimento ao continente que o Brasil deixou de lado de sua história, e abraça novos e velhos fãs em um espetáculo, em suas próprias palavras, “sobre aproveitar as pequenas coisas da vida”. Um baile, de fato, inesquecível.
SETLIST:
1. “La Mudanza”
2. “Callaita”
3. “Pitorro de Coco”
4. “Weltita” (com Chuwi)
5. “Turista”
6. “Baile Inolvidable”
7. “Nuevayol”
8. “Veldá”
9. “Tití Me Preguntó”
10. “Perfumito Nuevo” (com RaiNao)
11. “Neverita”
12. “Si Veo A Tu Mamá”
13. “Voy A Llevarte Pa PR”
14. “Me Porto Bonito”
15. “No Me Conoce”
16. “Bichiyal”
17. “Yo Perreo Sola”
18. “Efecto”
19. “Safaera”
20. “Diles”
21. “Monaco”
22. “Te Boté” (música exclusiva)
23. “Café Con Ron” (com Los Pleneros de La Cresta)
24. “Ojitos Lindos”
25. “La Canción”
26. “Kloufrens”
27. “Dákiti”
28. “El Apagón”
29. “DTMF”
30. “EOO”






