Resenha: Tyler, The Creator convida o ouvinte a dançar em “Don’t Tap The Glass”

Nos primeiros segundos de “Don’t Tap The Glass”, Tyler, The Creator lista as regras dos...

Foto: Divulgação

Nos primeiros segundos de “Don’t Tap The Glass”, Tyler, The Creator lista as regras dos próximos minutos ao seu público. “Não fique parado” é uma das primeiras ordens. “Deixe sua bagagem em casa”, diz em seguida. Daí pra frente, a música toma conta. De forma quase ininterrupta, batidas fortes e grooves dançantes envolvem o ouvinte em uma experiência de extroversão, seguindo sua proposta à risca.

A mensagem é clara: o novo álbum, o nono da discografia de Tyler, não carrega as mesmas pretensões do que seus antecessores, e tampouco tem o objetivo de ser profundo ou artístico demais. O trabalho, na realidade, é direto ao ponto desde o primeiro instante  -  não somente em suas composições, mas principalmente em sua sonoridade.

Em um texto publicado nas redes sociais na última semana, o artista comenta sobre como as pessoas começaram a se envergonharem de dançarem em público nos tempos da internet e da exposição digital. “Isso me fez pensar quanto do nosso espírito humano foi assassinado pelo medo de se tornar um meme”, diz. 

“Don’t Tap The Glass”, em muitos sentidos, é uma resposta à apatia dos dias atuais. As batidas são mais altas que as rimas, e a influência dos anos 80 se faz presente a todo momento, como uma forma de refrescar os ouvidos e convidar o público a se divertir. Considerando a urgência com a qual a obra foi anunciada, um lançamento surpresa em meio à uma turnê e somente meses após seu antecessor, esse é um objetivo mais importante do que pensávamos para Tyler.

O lado mais dançante de Tyler, The Creator

Quando escrevi sobre “Chromakopia” (2024) no ano passado, tinha poucos pontos negativos a levantar sobre o disco. Ainda hoje, considero um dos projetos mais coesos e honestos de Tyler, e também a marca de um momento de grande importância para a sua carreira. Se havia algo a criticar, porém, era como a sua produção arriscou pouco em relação aos seus antecessores, mantendo-se em um lugar seguro em que a sonoridade de Tyler se encontra há alguns anos.

Uma das primeiras impressões que tive ao escutar “Don’t Tap The Glass”, no entanto, foi exatamente o oposto. “Big Poe” e “Sugar On My Tongue”, as duas canções que abrem o álbum, rapidamente dão o tom do que serão os próximos minutos, com sintetizadores potentes e um apelo nítido para a pista de dança. A faixa de abertura é uma nova parceria com Pharrell Williams que carrega uma forte influência do produtor, enquanto a segunda mergulha na nostalgia da disco music.

São nesses momentos que o talento de Tyler como produtor se sobressai. Apesar do álbum beber de claras inspirações oitentistas, suas músicas soam atualizadas para os clubes de hoje. É o caso de “Sucka Free”, que nos teletransporta para a Califórnia dos anos 80 sem perder o norte dos dias atuais. “Ring Ring Ring”, um dos maiores destaques do trabalho, talvez seja um exemplo ainda melhor, com quês emprestados de Michael Jackson em uma produção dançante e um refrão pegajoso.

Com menos de meia hora de duração, o disco não freia em seu frenesi, mas não desperdiça nenhum segundo. Tyler aproveita de sua versatilidade para cativar o público de diferentes formas, seja por meio de suas produções ou em seus versos. Faixas mais explosivas como “Stop Playing With Me” e a dupla “Don’t Tap That Glass / Tweakin’” remetem às obras de rap do artista, com rimas divertidas e flows agressivos.

Nem mesmo quando o ritmo desacelera, as batidas deixam de surpreender. “I’ll Take Care Of You”, colaboração com Yebba que está entre os melhores momentos da audição, começa como uma balada melódica e desagua em uma verdadeira marcha eletrônica. Tyler até mesmo resgata um sample da faixa-título de um de seus trabalhos mais controversos, “Cherry Bomb” (2015), como uma forma de se referenciar e reimaginar as próprias produções.

O disco também pode ser lido como um grande exercício de criatividade para Tyler. Depois de chegar no auge de sua carreira com um trabalho tão denso emocionalmente, o seu novo álbum traz um fôlego artístico na busca por novas direções, especialmente como produtor. Trata-se de uma obra que expande ainda mais seu leque musical, e reafirma a posição de Tyler como um dos nomes mais inventivos da atualidade.

O que mais surpreende no lançamento é, sobretudo, a urgência com a qual ele surgiu. Não é de se imaginar que em tão pouco tempo, por exemplo, que “Don’t Tap The Glass” terá uma turnê própria como “Chromakopia”, ou uma divulgação tão robusta quanto a do seu antecessor. A impressão que fica é de que o disco veio de um impulso genuíno em experimentar e se redefinir, e também em reconectar o público com a música. Para a nossa sorte, Tyler é um dos que melhor o fazem hoje.

Nota: 8 / 10

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