Crítica: “The Moment”, de Charli XCX, é uma sátira certeira sobre a indústria pop

Estrelado pela cantora, o filme reimagina os bastidores por trás do fenômeno de "Brat"

Foto: Divulgação

O ano é 2026 e, sim, ainda há muito para ser dito sobre “Brat”. Muito já cansamos de elogiar, e resta muito mais para se dissecar sobre seu sucesso, tenha ele saturado ou não. O “Brat Summer” deveria durar apenas um verão, mas tem seu impacto prolongado até hoje, com efeitos significativos na cultura pop. Quando Charli XCX anunciou “The Moment”, era difícil imaginar como essa febre poderia crescer para o cinema.

Em seu novo filme, porém, Charli estende a fama de seu célebre disco para um último ato que pouco tem a ver com a obra em si. A produção, que estreou nos cinemas brasileiros nessa quinta-feira (19), não tem a intenção de dar sequência ao álbum ou documentar factualmente os seus bastidores, mas sim retratar uma alegoria de muitos dos temas nele abordados, que rodeiam a vida da cantora desde 2024. 

Não espere assistir a entrevistas sobre o seu lançamento, uma gravação de sua turnê ou qualquer registro convencional. Charli faz de “seu momento” uma forma de refletir sobre si e sobre o meio que a envolve. O filme abraça o gênero de mockumentary (isto é, um filme que retrata acontecimentos fictícios como um documentário verídico) para recriar o mundo por trás dos inferninhos que representam “Brat”.

“The Moment” é uma sátira pop da vida de Charli XCX

“The Moment” tem início exatamente em meio à febre de “Brat”, transportando-nos a reuniões com gravadoras, corredores de hotéis e tantas outras peculiaridades do mundo corporativo. Charli abaixa o véu sobre os bastidores e recria a discussão que sucedeu o lançamento do álbum: como fazer o “Brat Summer” durar ainda mais?

O que começa monótono e protocolar, no entanto, rapidamente se torna divertido. As ideias são as mais mirabolantes possíveis, mas duas se destacam: a gravação de um filme ao vivo da turnê e a criação de um cartão de crédito para fãs gays em parceria com um banco privado. E convenhamos, por mais engraçado que seja, há muito tempo o absurdo deixou de ser descolado da realidade para duvidarmos de coisas assim.

Essas são duas das várias narrativas que guiam o filme. O foco central não é “Brat”, mas a ânsia de torná-lo um fenômeno ainda maior e fazer dele uma febre permanente. É assim que a cantora começa a desenhar sua sátira sobre o universo pop atual, em que tudo é meticulosamente pensado em repercutir e não necessariamente sobre como impactar.

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A reflexão aqui está em como a indústria cultural espera de quem vai contra a sua lógica, e de como ela busca capitalizar sobre fenômenos espontâneos. Basta pensar em como “Brat” se tornou tão icônico: surge um disco com uma capa provocativamente simples, suas músicas convidam os ouvintes para o universo particular de Charli, e a festa, antes reservada para seu próprio nicho de fãs, torna-se cada vez maior.

A direção de Aidan Zamiri, fotógrafo da cantora que assina seu primeiro projeto cinematográfico, é precisa em replicar esse crescimento desenfreado entre tantos diálogos sobre números e redes sociais. Além disso, o cineasta consegue tornar a trama palatável para todas as audiências, traduzindo referências únicas aos fãs de Charli à uma narrativa agradável para quem nunca ouviu ou até mesmo a quem não gosta de “Brat”.

As atuações também são pontualmente certeiras, seja com celebridades que atuam a si próprias ou a personagens fictícios. Nomes badalados do mundo pop, como Kylie Jenner e Rachel Sennott, fazem participações especiais como uma forma de representar a diferentes arquétipos desse universo, sejam as maiores estrelas como Kylie ou figuras da geração Z como Rachel.

Foto: Divulgação

É Alexander Skarsgård, porém, quem rouba a cena aqui. O ator interpreta o diretor fictício Johannes Godwin, que se encarrega do show da cantora no filme, quem faz a ponte entre a arte de Charli e a indústria musical. Seu papel não é nada sutil em abordar os espetáculos megalomaníacos do pop com pulseiras LED, pirotecnias, documentários de turnês e discursos forçados. Caso venha o nome de alguém em sua mente, não é por acaso.

Mais do que satirizar o seu meio, contudo, Charli também questiona a si própria e a como se insere nesse mercado. A autocrítica é parte essencial para entender “Brat” e também “The Moment”, sobretudo na forma com a qual a cantora passa a se cobrar em relação à sua carreira e sua fama pessoal após o disco. O discurso que encerra o filme é autoexplicativo, e costura ponto por ponto o quanto “Brat” representa a maneira que a britânica passou a enxergar a si própria, e como o trabalho a ajudava a fugir de si própria.

Há um trailer fictício ao final do longa-metragem que é bastante explícito em sua crítica. Por alguns minutos, Charli mostra ao público o que seria “Brat” se o disco fosse o que a indústria esperasse dele  —  ou melhor, se a cantora deixasse de ser a si mesma para ser o que esperam dela. “The Moment” retrata uma artista no auge de sua carreira por ser ambiciosa em ser quem se é, e como essa transparência continua sendo sua maior força criativa, seja na música ou no cinema.

Nota: 8 / 10

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