Desde "Lungs", seu debut em 2009, Florence Welch era tão conhecida por sua coroa de...

Desde “Lungs”, seu debut em 2009, Florence Welch era tão conhecida por sua coroa de flores e seus longos vestidos brancos quanto por sua música. Entre temas góticos e vitorianos, o visual e o timbre da britânica andavam lado a lado. Junto a Isabella Summers e uma série de colaboradores, Florence + the Machine compuseram dois dos álbuns essenciais da recente onda indie e estamparam as letras de seus milionários singles em uma parcela considerável dos perfis de redes sociais mundo afora.
Com uma pausa de mais de três anos, o hype para o lançamento de “How Big, How Blue, How Beautiful” prometia ser cheio de realces comerciais. Estariam Florence, Isabella e seus parceiros pensando em dar uma de Mumford & Sons e arriscar tudo com as novas-velhas texturas de um som mais popular, mais acessível? Ou será que o terceiro disco do grupo se limitaria a polir e combinar o melhor de “Lungs” e “Ceremonials” em uma espécie de coletânea definitiva, posteriormente retomando seu jejum musical por mais alguns anos?
Não sei se estas duas eram as únicas previsões cravadas pelos críticos – ou se sequer estavam em pauta – mas o material apresentado em “How Big, How Blue, How Beautiful” é o mais pessoal e reflexivo de todos, embora não economize nas metáforas religiosas e misticismo. Apesar de canções onde afirma ter um “terceiro olho da sabedoria” e onde pede para ser transformada em um pássaro, uma nuvem cinza e uma árvore (!), a vida pessoal de Florence nunca fora tão crua e clara como em seu terceiro disco.
Produzido por Markus Dravs, uma espécie de Max Martin do indie, o álbum traz camadas volumosas de sintetizadores, pianos, harpas e instrumentos orquestrais de sopro e cordas. Em determinadas faixas, Florence parece cantar só para si, como em “What Kind of Man”: o segundo single do disco começa quase como um sussurro e transita para um blues munido de trompetes e um riff de guitarra cirúrgico, acompanhando a história de um romance indeciso; Já “Queen of Peace” destila frustração e contempla metáforas como um sol que se põe e um barco que naufraga.
Em contrapartida, a faixa-título ferve com paz espiritual, nostalgia (“E cada cidade era um presente / E cada horizonte era como um beijo nos lábios”) e um encerramento triunfal de mais de um minuto e meio. A especificidade das duas faixas anteriores se transforma, aqui, em uma paleta de cores tão translúcidas quanto o horizonte que Florence canta, e a canção deixa de ser dela ao se mostrar tão identificável. Há, também, números mais transparentes: o dream pop de “Long & Lost” remete musicalmente ao último trabalho de Lana Del Rey, e “Caught” é infundida com soul sessentista.
A reta final de “How Big, How Blue, How Beautiful” apresenta o combo peculiar de “Third Eye” e “St. Jude”: a primeira traz um coro de esperança e motivação (“Você não precisa ser um fantasma / Aqui entre os vivos / Você é carne e sangue! / E você merece ser amada / E você merece o que lhe é dada”), enquanto a segunda atira todo esse carpe diem pela janela e clama pelo santo das causas perdidas (“Outra conversa sem destino / Outra batalha, nunca vencida / Cada lado é um perdedor / Então quem se importa com quem puxou o gatilho?”). O contraste é, no mínimo, desconcertante, e junto ao misticismo de “Mother”, que encerra o álbum, as três canções finais destoam em uma obra outrora bastante coesa. O indie pop excepcionalmente executado nas faixas bônus “Hiding” e “Make Up Your Mind” soariam muito melhores precedendo “Mother” do que a montanha-russa espiritual das atuais faixas nove e dez.
O absoluto ponto forte de Florence + the Machine, no entanto, vem com mil cavalos a mais de potência: a voz de sua frontwoman faz jus ao rótulo de carro-chefe do grupo e canta, sussurra, exclama, grita e tremula com sinceridade brutal. Florence traz em suas cordas vocais o respeito da indústria pop e a adoração da cena indie, e não tem pressa em decidir qual dos dois caminhos vai tomar – cada Taylor Swift no seu quadrado. “How Big, How Blue, How Beautiful” pode ser tanto um disco de encerramento quanto de transição; Florence nunca antes esteve tão confiante para galgar novos patamares, nem tão íntegra para afirmar “isto é o que sou” e pendurar a coroa de flores de forma definitiva. Só esperamos não precisar aguardar mais três anos pra descobrir…
Nota: 7.5/10






