"Criolo, Amaro e Dino" é um potente exercício criativo para o trio, que une as influências e vivências em comum entre o Brasil e Cabo Verde

A distância entre o Brasil e Cabo Verde é muito menor do que os mapas mostram. As culturas se entrelaçam, e a música alcança o outro lado do oceano que as divide. “Criolo, Amaro e Dino” nasceu do encontro de influências e vivências que unem seus três autores: o rapper paulistano Criolo, o pianista pernambucano Amaro Freitas e o músico português Dino d’Santiago, de ascendência cabo-verdiana.
O trio se reuniu pela primeira vez em 2024, com o lançamento do single “Esperança”. A química foi imediata, e a conexão criativa entre os artistas se mostrou muito maior do que somente uma canção. Dali, surgiram muitas visitas ao estúdio entre Lisboa, Recife, Rio de Janeiro e São Paulo que deram vida à uma identidade própria, com tons de rap, MPB, jazz, batuques e ritmos da música africana.
Lançado na semana passada, o álbum conjunto do trio é um poderoso exercício criativo. Aqui, cada um dos artistas despeja suas principais qualidades para navegar em um oceano de referências em comum que banha a ancestralidade que dividem entre si. “Criolo, Amaro e Dino” é mais do que um encontro que surgiu pelo acaso do trabalho, mas também
A jornada começa com “E Se Livros Fossem Líquidos”, um jazz entoado pela poesia de Criolo, e em poucos segundos a força criativa se faz presente nas notas de piano e nos metais. “Menina do Coco de Carité” é outro potente exemplo dessa musicalidade: Amaro conduz a música em seu piano, enquanto o coro das Clarianas e a rabeca de Maciel Salú o transformam em uma melodia dançante e vibrante.
O disco não conhece nenhuma fronteira entre idiomas, países, culturas e histórias: tudo se reúne e faz sentido assim que os instrumentos se encontram. “Seka” nasce a partir do batuku, gênero cabo-verdiano que se tornou símbolo da resistência de seu povo, enquanto “Mama Afrika” celebra a diáspora cultural da África, por exemplo. É como se as ancestralidades que Criolo, Amaro e Dino compartilham regessem toda a audição.
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Não somente “Criolo, Amaro e Dino” ajuda a construir um novo território criativo para os artistas, mas também reforça os maiores talentos de cada um deles. Amaro se tornou mundialmente conhecido pela beleza instrumental que evoca a partir do piano, e o instrumento é o fio condutor que atravessa melodias e continentes ao longo do trabalho. Já Criolo, cujas rimas servem como norte do rap nacional há décadas, reforça suas principais sua mensagem crítica sobre temas como a negritude, a resistência cultural e a preservação ambiental. Dino, o menos conhecido do público brasileiro entre os três, mostra suas credenciais por meio das melodias, vocais e coros que mergulham o ouvinte para afundo desse universo musical.
A experimentação, claro, é uma regra para a criação do trabalho, mas também um traço marcante de seus pontos positivos e negativos. É encantador quando o trio encontra o tom certo entre suas tantas inspirações, mas faixas como “Fogo Lento” e a própria “Mama Afrika” são parte do contrapeso dessa balança, e soam deslocadas durante a audição. Nada, no entanto, que comprometa a experiência e o valor que a sonoridade do disco carrega.
“Criolo, Amaro e Dino” é uma poderosa e comovente reunião de três dos maiores talentos artísticos da música afro-atlântica. É inspirador quando diferentes culturas se veem diante de si – não como um choque, mas sim como um abraço. O disco traduz a rima de Criolo, o piano de Amaro e a melodia de Dino em um único registro, potente e sensível, sobre a diáspora africana, sobre o Brasil, sobre Cabo Verde e as emoções que navegam por esse oceano entre ambos.
Nota: 8,5 / 10






