Resenha: “CONFESSIONS ll” reforça reinado de Madonna no pop 

21 anos depois de 'Confessions on a Dance Floor', Madonna entrega a sequência que ninguém esperava e prova, mais uma vez, por que ainda reina absoluta na pista de dança.

Foto: Divulgação / Promocional

Confessions II” está entre nós, finalmente. Depois de 21 anos, Madonna volta ao disco music e ao electro pop com um álbum que não tenta repetir “Confessions on a Dance Floor”, mas dar continuidade a um dos trabalhos mais aclamados de sua carreira, agora com uma estética nova e atual.

Madonna sabe que o disco original se tornou um marco na história da música e revolucionou a forma como se pensava a criação de um álbum. Não era comum, até então, que um projeto fosse estruturado como um set de DJ, com as faixas mixadas e fluindo sem pausas. A consequência foi a criação de uma experiência contínua e eufórica para quem ouve, sobretudo vindo de uma artista mainstream de grande porte. 

Na sequência, a rainha do pop resgata exatamente esse conceito, mas traz uma nova fórmula: disco music e electro pop com estética atual e memorável com uma Madonna mais íntima e vulnerável. Descrito por parte da crítica como seu trabalho mais revelador em anos, o disco aborda a morte de um irmão, os conflitos com a filha Lourdes Maria e memórias da juventude em Nova York.

Mas por que retomar aquele universo justamente em 2026? Em entrevistas na época do lançamento do primeiro álbum, em 2005, Madonna já dizia que sentia que o mundo precisava recuperar o otimismo e voltar a dançar, um sentimento que soa ainda mais atual duas décadas depois.

O mais novo álbum da Madonna tem 16 faixas e mais de uma hora de duração. A seguir, trazemos os pontos altos, as apostas mais ousadas e os momentos que melhor representam a potência de “Confessions II”. 

“I Feel So Free”

A primeira faixa do álbum, também single promocional, funciona como um convite para a pista de dança e uma celebração dos momentos felizes. A sonoridade tem aquele brilho nostálgico que remete diretamente ao disco de 2005 (daria para imaginar a faixa encaixada no tracklist da época), mas sem soar como pastiche.

Tecnicamente, ela já mostra a virada de rota do projeto: o produtor Stuart Price optou por uma batida mais seca, inspirada no house de Detroit e Chicago, em vez do disco house opulento do primeiro álbum. A música ainda traz uma amostra do clássico “French Kiss”, de Lil Louis (1989), uma citação direta à história do house.

O resultado é uma abertura que não pede licença. Já entra animando, já entra dançante, e já deixa claro que Madonna não veio para reviver o passado e sim para conversar com ele.

“Good For The Soul” e “One Step Away”

A transição entre essas duas faixas é um dos pontos altos do álbum. “Good For The Soul” convida à entrega total: soltar o cabelo, respirar, dançar na chuva sem pedir satisfação a ninguém, num electro pop leve que funciona quase como uma permissão para desligar o cérebro. Daí a música desliza, sem pausa perceptível, para “One Step Away”, que muda de registro mas mantém a mesma pulsação. Agora Madonna usa a pista de dança como metáfora, argumentando que ela não é um lugar superficial, e sim um limiar, uma passagem. É o tipo de virada que só funciona porque o mix é contínuo, de um convite físico e sensorial para uma reflexão quase filosófica sobre o que a pista de dança representa.

“Danceteria”

O ponto alto do álbum. Sim, tem quem reclame da duração da faixa, tem quem sinta falta de um hit tão imediato quanto “Hung Up”, mas é exatamente aí que Madonna acerta. Ela não quis repetir a fórmula, e por ser uma continuação, não fazia sentido competir com o próprio passado. “Danceteria” é uma música perfeita: dance pop, fresh, chiclete, do tipo que gruda sem esforço.

A referência a “Vogue” é quase inevitável, e não por acaso. Assim como naquele clássico, Madonna usa aqui o recurso de falar em vez de cantar, desfilando nomes e criando cenas da Nova York underground dos anos 80: artistas, ícones do grafite, figuras do clubbing que passaram por sua vida antes da fama. É a mesma fórmula, transformar memória em mitologia, contar a própria história como quem monta um desfile de lendas. A diferença é que agora ela não está inventando um universo; está descrevendo o próprio passado, a noite em que tudo começou para ela nos clubes de Nova York.

“Love Without Words”

Essa é aquela faixa que te faz pensar “ok, mostra mais, uhum”, e aí ela te surpreende. Não é a música que mais grita no álbum, não tem o gancho óbvio de um single, mas tem uma atmosfera quase de igreja: o clube vira um templo de suor e entrega, e cada desconhecido na pista parece um irmão ou uma irmã por uma noite. É Madonna tratando a dança como comunhão, o corpo falando o que a boca não precisa dizer.

É o tipo de faixa que não pede para ser ouvida de primeira, ela pede repetição. Na primeira audição passa quase despercebida, encaixada entre as músicas mais evidentes do álbum. Mas quando você para para prestar atenção, percebe que ali mora um dos momentos mais sinceros do disco, sem grande refrão, sem apelo fácil, só a sensação de estar dentro de um lugar sagrado por alguns minutos. É prova de que nem todo hit precisa gritar para ser lembrado.

“Bizarre”

Confesso que cheguei apreensivo nessa faixa. Uma parceria com Martin Garrix, num álbum tão enraizado em house e disco, soava como risco, o tipo de escolha que poderia destoar do resto do disco. Mas foi exatamente aí que “Bizarre” conquistou; é justamente esse pé fora da caixa que separa essa sequência do primeiro “Confessions”. Madonna não quis fazer um disco cem por cento preso ao house e ao disco original, e faixas como essa são a prova disso.

Em vez de repetir a fórmula, ela abre espaço para um pop/EDM mais direto, mais festival, e usa isso a favor do álbum, não contra ele. É esse tipo de risco que dá identidade própria à sequência. O disco podia ter sido só uma volta segura ao passado, mas com “Bizarre”, Madonna mostra que também quer conversar com o presente e com o som que domina os grandes palcos hoje.

O veredito

Depois de passar por cada faixa, dá para enxergar o álbum em três movimentos bem definidos.

O primeiro, com as 8 primeiras faixas, é o ponto alto do disco: a sequência mais sólida, mais dançante, aquela que mais prende na pista sem deixar respirar. É ali que Madonna mostra que ainda sabe abrir um álbum com autoridade.

O segundo bloco, de “Love Without Words”, “Bizarre” e “School”, é o trecho “novo” do projeto, onde ela se permite sair da fórmula, experimentar, trazer novidades para o disco music e para o electro pop, mesmo que nem tudo acerte na mesma medida. É a parte mais arriscada, e talvez por isso a mais interessante de analisar.

Já o terceiro ato, com as últimas cinco faixas, é onde o álbum mais remete a “Confessions on a Dance Floor”, com a mesma fórmula e o mesmo espírito. É também o trecho mais fraco do disco – não em relação à qualidade, mas por destoar dos dois blocos anteriores, que são mais enérgicos e dançantes. A sensação que passou foi a de final de festa: aquele momento em que o DJ abaixa o ritmo, coloca umas músicas mais calmas e as pessoas vão embora aos poucos. Aliás, quem sabe Madonna não pensou exatamente nessa proposta – afinal, depois de tanto embalo, é natural que a pista esvazie. 

E é logo na abertura desse bloco que “Fragile” aparece. É como se fosse a última batida da noite, cinco da manhã, aquele momento de se despedir da pista de dança e deixar toda a dor para trás. Madonna larga a performance e fala de verdade: é a faixa em que ela para de dançar em volta do luto pelo irmão e decide encará-lo, transformando a dor numa balada que ainda pulsa, mas que pede silêncio para ser ouvida. Mesmo abrindo o trecho mais fraco do disco, é o momento em que o álbum finalmente respira, e prova que até no final da noite, “Confessions II” ainda guarda um dos seus melhores momentos. 

No fim das contas, essa sequência não tenta reviver o “Confessions on the Dance Floor”, ela conversa com o original, aprende com ele e segue seu próprio caminho. É um álbum que dança, que se emociona, e que prova, mais uma vez, por que Madonna é a Rainha do Pop.

Nota: 8,9/10


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