14 de julho de 2017 por Marcel Bittencourt.

Na última segunda-feira, um texto muitíssimo bem escrito pelo jornalista gaúcho Gustavo Brigatti fez barulho nas redes sociais. Sob o provocativo título “Por que você ouve rock?”, o texto questiona as razões que justificariam o consumo do estilo entre os lançamentos no mainstream. Os recém-lançados singles “Run”, do Foo Fighters e “The Way You Used to Do”, do Queens of the Stone Age – que são boas canções de rock, mas apenas razoáveis se comparados com os ápices criativos das bandas que deram ao mundo obras-primas como, respectivamente, “Wasting Light” e “Songs For The Dead” – foram o estopim para o questionamento mais do que relevante do Brigatti. Estaria o rock presente na vida das pessoas? Estaríamos nós diante, talvez, de alguns dos derradeiros lançamentos de rock no mainstream? Enfim, por que as pessoas ainda ouvem rock?

O raciocínio foi bem desenvolvido no texto – que você pode conferir aqui – e gerou um debate amplo entre jornalistas, músicos e fãs naquele dia e nos dias que o sucederam. Não vamos cair na breguice de perguntar se o rock and roll morreu ou de afirmar arrogante e pretensiosamente que ele está morto. A título de uma reflexão que vai muito além da mera retórica, eu gostaria de inverter a pergunta: Por que você NÃO ouve Rock? Pois acredito que essa é uma interrogação importante e, talvez, a questão chave que vá manter o estilo vivo e forte por muito tempo ou deixá-lo à míngua.

Em janeiro de 2015, estávamos os dois, o Gustavo Brigatti e eu, cobrindo o show do Foo Fighters em Porto Alegre. Aproximadamente 25 mil pessoas assistiram a um dos shows de rock mais aguardados da história da capital gaúcha. Segue o diálogo:

– Bom público, né? – Questionou o Brigatti.

– Maior banda do mundo, hoje. Uma das maiores – justifiquei.

– Então é pouco, né?

– Sim, pra maior banda do mundo é pouco.

E, de fato, era. O AC/DC, em 2009, levou 70 mil pessoas ao Morumbi, em São Paulo. No recorde de público do local, em 1985, o KISS reuniu inacreditáveis 200 mil pessoas no Maracanã. É óbvio que os dinossauros estão aí, lotando estádios, mas quando aplicamos o recorte temporal dos últimos vinte anos, o Foo Fighters vai disputar com o Coldplay esse título. E vinte anos é muito tempo para uma hegemonia desse tipo.

Outras grandes bandas, relevantes, como o Queens of the Stone Age, tocam para seus maiores públicos em grandes festivais. Na última passagem da banda de Josh Homme por Porto Alegre, o público foi de menos de cinco mil pessoas. E eles são o Queens of the Stone Age.

Isso, somado ao fato de que menos artistas de rock vem sendo lançados pelas grandes gravadoras – que, apesar da queda nas vendas e todo aquele papo que a gente já conhece, ainda tem um papel muito importante na indústria da música – em detrimento de artistas de estilos mais populares, serve provar que pessoas estão ouvindo menos rock vindo das fontes que, em outro momento, eram mais generosas com os fãs desse tipo de música. Esse é o primeiro ponto. Você não ouve rock porque o rock não chega até você. E isso, endossado pelo ditado de que “quem não é visto não é lembrado”, é a primeira das respostas para a pergunta que dá título a esse texto.

Mas existe mais do que isso.

Recentemente, o vocalista do Royal Blood disse, em entrevista, que “o rock precisa de salvação de tanta banda merda que fode a nossa reputação”. Por um lado, Mike Kerr tem sua parcela de razão, porque existem muitas bandas ruins. Mais que isso; existem muitas bandas medíocres no mundo, aquelas que você não vai falar mal, mas que também não vai ouvir duas vezes. Porém, existe uma forma mais positiva de ver esse quadro, que é entendendo que existem, por consequência, muitas bandas boas, e isso é uma verdade.

O barateamento das formas de produção de música nos últimos vinte anos, somados ao YouTube, as ferramentas de streaming e aos agregadores musicais (empresas que fazem distribuição digital de música) e selos digitais tornaram muito mais fácil, rápido e barato gravar e lançar música, o que acabou se tornando um convite facilmente aceitável para se por a criatividade para fora em um fonograma. Temos aqui um segundo aspecto: muitas preciosidades em meio a um imenso deserto de bandas insossas ou mesmo desagradáveis. Encontrar essas boas bandas de rock e apreciá-las exige tempo, boa vontade e disposição – e hoje, com a velocidade das coisas e com a correria cotidiana, muitas pessoas não estão dispostas a dar isso às novas bandas de rock, que dirá dinheiro (mas essa é outra discussão). Eis o segundo ponto: se a indústria não faz com que o rock chegue até as pessoas, é necessário peneirar.

Não bastando isso, há um terceiro componente nessa combinação e, este sim, culpa do próprio gênero musical: o rock parou de dialogar com as novas gerações. Faça o exercício de memória (ou pergunte pros seus pais, se você nasceu nesse milênio): com que idade se deu a iniciação no rock and roll? Com que idade a combinação de guitarra, baixo e bateria emocionou pela primeira vez? No meu caso – eu tenho 35 anos – foi aos nove, com o Guns n’ Roses. Por toda a minha pré-adolescência, adolescência e vida adulta, eu devorei álbuns de bandas dos mais variados estilos que cabem dentro do rótulo ”rock”. E aquilo fez parte da formação da minha personalidade, assim como fez com muitas outras pessoas. Quando foi a última vez que o rock dialogou com os jovens? Levou os jovens para os shows, que são o seu lugar? Foi com a geração emo. E o que os próprios roqueiros fizeram? Refutaram. Seja por preconceito com o visual, com a postura, com a maior e muito bem-vinda diversidade, os fãs do estilo pararam, ali, de falar com as gerações mais jovens. Não por coincidência, foi o último movimento massivo de rock que se teve notícia. Terceiro ponto: falta de diálogo com as novas gerações, que são quem fomenta de verdade um estilo musical, consumindo, divulgando, amando genuinamente seus artistas e dando a eles o status e a relevância de ídolos. Por isso, as pessoas já começam a apontar o rock como ”música de velho”.

A indústria já não leva mais um bom número de boas bandas de rock até você. A imensa gama de boas bandas de rock que está aí fora, batalhando, não consegue visibilidade – e não há conexão com a juventude. Essa combinação é perfeita para os que bradam que o rock morreu ou que torcem pelo seu óbito. Hoje, quem quer ouvir rock de qualidade precisa parar de procurar no mainstream. Bons álbuns de rock lançados por majors – como “How Did We Get Do Dark”, do Royal Blood – são coisas muito esporádicas. Não dá pra depender disso.

Esses são os motivos pelos quais você ou seus amigos ou seus filhos e sobrinhos não ouvem rock.

Dizer que não há público ou demanda é um lugar comum, mas o ponto de vista não se sustenta. O Guns n’ Roses lota, o AC/DC lota, o Metallica lota, o Paul McCartney lota, o Black Sabbath lota, o Bon Jovi lota, os Stones lotam, o Foo Fighters, como foi dito, lota, todos os figurões do estilo lotam. Às vezes, diferentes ícones do Rock lotam shows em um mesmo mês, mesmo em um país em crise como o Brasil. Então, a desculpa de que “não tem público” é furada. Argumento inválido. Porém, o que público e indústria parecem não se dar conta é que os dinossauros vão morrer. Então, quem hoje faz muito dinheiro com essas bandas, vai precisar de outras quando estas estiverem mortas. É uma maneira muito pragmática de pensar o mercado de rock? É. Porém, as pesoas envelhecem e morrem. Mick Jagger tem 73 anos. Dave Grohl, que você deve estar pensando que é um jovem adulto, já tem 48. A matéria prima para que surjam novas mega-bandas de Rock está aí, na internet, nas ruas, nos shows em pequenos bares. Com disse Gene Simmons, do KISS, “o novo Led Zeppelin pode estar aí e nunca o conhecermos”. A pessoa que vier a pôr em prática a estratégia certa e o entrar com o investimento necessário para tornar estas bandas conhecidas vai fazer rios de dinheiro, pois música movimenta muito, muito dinheiro.

Mas nem tudo é simples. Até que isso aconteça, estamos por nossa conta. A boa música está lá, a mensagem está lá, a energia está lá. Só nos resta ir ao encontro dela e aproveitar o auge criativo do estilo, que nos é contemporâneo. Existe muita coisa boa sendo feita e o acesso nunca foi tão fácil, já que tudo está há poucos cliques de distância. Só nos resta aproveitar a liberdade e a autonomia que a internet nos deu e aproveitar o momento sem esperar por gatekeepers.

Comentários

Mais lidas
Alguns direitos reservados / 2013 - 2017.
Desenvolvido por Lucas Mantoani.