Opinião: Cobrança por lançamento de Rihanna é respeitoso com a arte?

Último lançamento da cantora completa 2 mil dias em meio a pedidos incansáveis dos fãs por novos materiais. Somos justos em apressar a arte?

Leonan OliveiraColunasNotícias7 de julho de 2021

Lançamento de Rihanna é desejo universal nas redes sociais. FOTO: Reprodução

Se você é uma pessoa digital e vive nas redes sociais, é praticamente impossível que ainda não tenha visto alguém reclamando do tempo desde o último lançamento de Rihanna. Neste mês, o último álbum da cantora, o “ANTI“, completa 2 mil dias de lançamento. Isso significa que o afastamento da artista dura mais de 5 anos e, para os fãs, isso parece ser uma eternidade. Um bom indicador dessa saudade que o público sente de novos conteúdos da artista são as inúmeras respostas pedindo por algum lançamento de Rihanna em uma enquete publicada, nesta semana, no Twitter oficial do Tracklist.

https://twitter.com/PortalTracklist/status/1412194263765499906

Ultimamente, Rihanna tem se destacado por ser a dona de negócios de sucesso em todo o planeta, como uma marca de roupas e maquiagem que tem “recheado” o bolso da artista mesmo sem produzir música.

A Fenty Beauty, marca de cosméticos, é um sucesso. Em 2018, a estimativa da receita da empresa somava mais de 570 milhões de dólares. E essa soberania do trabalho da cantora vai além do lucro e fez parte ativa de uma revolução inclusiva no mercado de beleza. Quando foi lançada, em 2017, a Fenty Beauty contava com mais de 40 cores de base para a pele – abrindo os olhos do mercado para a necessidade de atender todas as pessoas e de todos os tons de pele.

Mesmo em meio a todo esse sucesso e trabalho incansável, Rihanna segue sendo alvo de muita (sério, muita mesmo) pressão e cobrança por algum lançamento. Não é raro encontrar nas redes sociais algum fã de música pop referenciando a dona dos hits “Umbrella” e “Love On The Brain” como “ex-cantora”. 

Considerando isso, a reflexão da semana gira em torno de um tópico um tanto quanto polêmico: é legal cobrarmos um artista para acelerar o processo criativo de sua arte?

Quando mergulhamos de cabeça no trabalho de um músico, por exemplo, além de toda a batida e ritmos que nos envolvem e fazem apaixonar, também somos impactados pela alma e coração de uma pessoa que transformou sentimentos – felizes ou tristes – em música. E já parou para pensar que quanto mais o artista se entrega e se joga de cabeça na produção do disco, mais a gente se identifica com o trabalho e ele faz sentido para nós?

A explicação para isso é simples: um bom álbum é aquele que imprime a alma do artista em notas musicais. Imagina a pressão que é você estar na vitrine com milhões de pessoas cobrando sua produtividade e criatividade o tempo todo?

Cobrança por lançamento de Rihanna destaca era da produtividade

Essa cobrança, no entanto, não é exclusividade de Rihanna. Quer um exemplo? Entre 2016 e 2017, a cantora Katy Perry também foi alvo desses questionamentos por todos os lados. Não era difícil encontrar um fã perguntando sobre o ‘KP4’ e apressando o lançamento da cantora, que passou a se divertir com a situação e até foi vista por aí com pastas “super secretas” do próximo álbum. Na época, Perry chegou a brincar com a situação e disse que sabia que no dia seguinte ao lançamento do KP4, os fãs estariam perguntando a data do KP5. 

Essa realidade também vai além da bolha das divas pop. A cantora Aiace, artista independente da Bahia, também sente na pele o peso da pressão por conteúdo novo a todo tempo. “Vivemos na era da produtividade, onde temos que ser muito produtivos o tempo inteiro. Isso é muito cansativo e cruel, nos tira do mundo real, além de matar a nossa criatividade e espontaneidade”, disse em entrevista à coluna. Segundo ela, o segredo para conseguir lidar com essa situação é entender que o artista é artista, e não máquina de fazer música. “Quando consegui compreender que eu tenho o meu próprio tempo para concretizar esses lançamentos, fiquei muito mais leve”, concluiu. 

‘ANTI’, o último lançamento de Rihanna, completa 2 mil dias neste mês. Foto: Reprodução

Por conta do grande volume de comentários, podemos concluir que a cantora sabe de como os fãs se sentem sobre essa demora toda, né? Mas, apesar dessa mentalidade, Rihanna não é de pedra e, em alguns momentos, acaba respondendo os pedidos incansáveis na internet. Um desses episódios aconteceu, no Instagram, em uma foto publicada pela cantora, que respondeu a um dos pedidos aconselhando que o fã cresça e ainda disse que o comentário era “muito 2019”. A interação, como não poderia ser diferente, rendeu muitas reações nas redes sociais.

https://twitter.com/RNavyBrazil/status/1345115788949204992

E aí, será que Rihannaleva a sério essa pressão toda? Será que a artista está correndo com a produção de novas músicas agora que a pressão está mais forte do que nunca?

A pressa é inimiga da perfeição?

Dizem por aí que quanto mais longo é o processo de produção do vinho, mais saborosa fica a bebida. Será que esse pensamento também pode ser usado para fazer referência ao processo de “nascimento” de música? Um álbum, por exemplo, pode ser planejado e ter a data definida antes mesmo do processo criativo iniciar?

Alguns dos álbuns favoritos de muita gente por aí, assim como o próximo lançamento da Rihanna, não nasceram da noite para o dia. Um bom exemplo disso é a discografia de Adele – um dos nomes mais influentes da música mundial -, que já rendeu 15 estatuetas do Grammy Awards. Para ter essa conquista, a cantora não parou de trabalhar e deixou que o processo seguisse naturalmente: em geral, o intervalo entre um lançamento e outro dura 4 anos na discografia de Adele. E parece que a discografia de Adele está para crescer. Entenda aqui.  

Nomes como Frank Ocean, Robyn, Taylor Swift, Katy Perry, Justin Bieber e Bruno Mars também são conhecidos por demorarem para liberar novos álbuns para o público. Mars, por exemplo, lançou o último trabalho, intitulado “24K Magic“, em 2016, assim como Rihanna. No fim das contas, o jeito mais respeitoso de lidar com essas demoras, que sim podem parecer eternas, é acreditar no processo e valorizar a arte. Música está aí para ser ouvida e a arte precisa ser apreciada. 

Como ninguém é de ferro, que tal matar a sede de Rihanna mergulhando na playlist oficial da cantora no Spotify? Ouça!

https://open.spotify.com/playlist/37i9dQZF1DWWhBhYl3ZMvY

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