O rapper, ativista cultural e professor Vinicius Terra é uma das vozes mais atuantes na...

O rapper, ativista cultural e professor Vinicius Terra é uma das vozes mais atuantes na valorização da cultura hip-hop e da lusofonia. Criador do festival Terra do Rap, que há mais de uma década promove o intercâmbio entre artistas de países de língua portuguesa, ele tem sido peça-chave na construção de pontes entre Brasil, África e Europa. Além da música, Terra também utiliza a literatura e a educação como ferramentas de transformação social.
Em recente entrevista ao Tracklist, o artista compartilhou sua trajetória, os desafios de consolidar o festival e a importância de homenagear ícones do hip-hop, como Dexter, na última edição do evento. Ele também falou sobre a inclusão da rodada de negócios no festival e o impacto que isso pode ter para artistas periféricos, além de antecipar os próximos passos do Terra do Rap. Confira!
Você é um grande nome na cena cultural urbana, unindo sua paixão pela música e pela literatura. Como essas duas áreas se interconectam na sua vida e no seu trabalho, principalmente dentro do movimento hip-hop?
Esta cultura bonita e agregadora que chamamos de hip-hop salvou e transformou (e transforma) vidas nas periferias urbanas em todo o planeta. Comigo não foi diferente. E junto aos 5 elementos (rap, break, graffiti, DJ e o fundamental: o conhecimento) trouxe-me também a autoestima e a capacidade de me aproximar da música e da literatura. Desenvolvi-me dentro desta cultura como rapper e pude buscar mais conhecimento para os meus por intermédio da vida como professor de português e de literaturas de língua portuguesa (não leciono em escolas regulares desde 2012). Desde 2003 já realizava oficinas em centros culturais do uso do rap e da literatura como ferramentas de interpretação social para jovens da minha região. De lá pra cá ambas estão conectadas como potências para o futuro da língua portuguesa — e este futuro está aqui, abaixo dos trópicos.
Aliás, você tem se destacado como um ativista cultural, promovendo a união de artistas lusófonos e incentivando o intercâmbio cultural. Quais são os principais desafios que você encontrou ao longo dessa jornada de construção dessa rede?
Até 2002 era uma demanda invisível, difícil das pessoas entenderem que conectar com nossos irmãos e irmãs do outro lado do oceano, também era uma forma de investigar aquilo que se perdeu na travessia do Atlântico e nos transformou como o povo que nós somos. Quando regressei de uma especialização em uma universidade em Portugal no ano de 2010 (graças aos programas sociais do governo federal brasileiro daquela época), percebi que precisava criar um fluxo inverso, onde o Brasil se tornasse a capital anfitriã para este intercâmbio — afinal, pouco sabemos e consumimos a produção artística dos demais territórios de idioma oficial português —. A primeira edição da Terra do Rap só aconteceu em 2013. São 12 anos de festival com 10 edições (incluindo crises políticas no ambiente lusófono e uma pandemia no meio). São anos de construção desta ponte transatlântica. E construir uma ponte, sustentá-la por anos de maneira autônoma foi e continua sendo o maior desafio.
A edição deste ano, marcou a primeira década do Festival Terra do Rap, projeto o qual já passou por cidades como São Paulo e Lisboa. O que torna o evento tão único e como ele tem se moldado ao longo dos anos?
Fomentar conexões entre as pessoas, revelar artistas periféricos, fomentar ao público um festival onde não há um “headline/cabeça de cartaz”, mas todos possuem o mesmo espaço e valor artístico; realizar anualmente a metodologia do rap lusófono como instrumento de capacitação a novos artistas, gerar uma batalha de MCs com temas sobre o futuro da língua onde a premiação é um intercâmbio para um país lusófono, promover rodada de negócios com players do mercado (desde curadores de outros festivais a programadores de centros culturais e gestores de gravadoras e distribuidoras), realizar em aparelhos culturais fora-do-eixo e com ingresso gratuito (e nesses mesmos lugares aquecer a economia local) é a mais valia. É acreditar na possibilidade de criação de um mundo possível de ser compartilhado e recriado. Somos nós a diferença, somos povo e nossa cultura é o nosso legado.
O homenageado do ano foi o Dexter, um ícone do hip-hop brasileiro. O que essa homenagem representa para você, tanto pessoalmente quanto para o movimento hip-hop?
Já homenageamos ícones da cultura hip-hop como Afrika Bambaataa e Nega Gizza, por exemplo. Assim como já celebramos o legado de Sabotage, Ferreira Gullar, Lélia Gonzalez, DJ Primo e Dina D. Trazer o Dexter como artista homenageado é devolver a ele todo o aprendizado que ele nos deu com seus versos e sua atitude ante ao contexto social de sua origem. Dexter é um milagre da cultura hip-hop. É um sobrevivente do sistema carcerário brasileiro. É a prova viva de que é possível transformar a sua realidade por intermédio do rap. Sua voz chegou até mim quando eu tinha 17 anos, mudou a cabeça de muitos dos meus contemporâneos. Sua carreira como artista transformou vidas — pode parecer clichê, mas nascer em um contexto de ausência, onde um rádio é compartilhado entre seus amigos como a grande “caixa de novidades” do mundo, e dali ouvir as canções do Dexter foi tábua de salvação — a música é a única arte que não pede licença. Homenagear ícones além do hip-hop é presenciar como este movimento cultural é prolífico, revolucionário e transversal ao tempo.
A edição também foi marcada pela estreia da rodada de negócios. Quais são suas expectativas para essa nova etapa e como você acredita que ela pode contribuir para o crescimento do mercado musical, especialmente para os artistas da periferia?
Estou animado demais com isso. Pude circular o mundo e participar de muitas feiras de economia criativa e de música pelo mundo. Trazer a rodada de negócios pra Terra do Rap é desconstruir o mito de que a gestão da arte é um direito da classe média; é o povo que transforma uma sociedade. Não existiriam Caetano Veloso, Chico Buarque e Nara Leão, por exemplo, sem a reflexão do que é o povo brasileiro. E se o povo que vive em periferias urbanas constitui a maioria desta nação, caberá também a nós a construção de um mercado cultural de equidade e gestão. Sem prepotência, com equidade.
Além de sua atuação como criador do festival, você também é rapper e ativista cultural. Como sua trajetória pessoal e sua visão do movimento hip-hop influenciam o festival e seus objetivos?
Sou semente do hip-hop que hoje é uma árvore a produzir frutos. Sou aquele garoto da Pavuna que entendeu o valor da autoestima para poder ser mais do que o estabelecido do contexto de onde venho. Minha trajetória é marcada pela travessia constante do oceano por uma ponte construída e modernizada diariamente. Acredito demais que a canção “Versos Que Atravessam O Atlântico” (primeira música de conexão entre representantes da língua portuguesa de África, Europa e América do Sul) foi uma espécie de “carta magna” para a criação do festival e seus desdobramentos. Sou ainda aquela semente do hip-hop ressignificada. Minha visão de movimento é o reflexo de tudo o que promovo.
Quais são os próximos passos do Terra do Rap? O que os fãs podem esperar de futuras edições do evento?
Apresentar o novo sempre. Fortalecimento do intercâmbio numa escala onde o futuro da língua portuguesa será mais colocada em debate. Crescimento da plataforma educativa (a Imersão Terra do Rap) em contato com a rodada de negócios mais ampla. Neste ano também estreamos o que chamamos de “Verão no Errejota”, onde mapeamos a cidade distante do roteiro turístico do Rio de Janeiro. O nosso verão de banho de mangueira, sol na laje e som estalando. Acredito que nosso festival internacional de cultura urbana da língua portuguesa precisa ocupar esta estação do ano. Disputar esta pauta é difícil; é preciso coragem para subverter o impossível. Porém, o impossível sempre foi a realidade imposta. É preciso ser duas vezes melhor para construir com honestidade e dignidade o que leva a alcunha de periférico. A periferia é o centro das metrópoles. Ou melhor: o centro é só uma ilha cercada da maioria que ergue as sociedades no mundo. É preciso repensar a arte como um direito além dos prêmios e das celebrações criadas somente para uma bolha do mercado. Não se trata de cota, mas de justiça poética.
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