Entrevista: Tico Santa Cruz, do Detonautas, fala sobre o álbum “Rádio Love Nacional”

O novo disco da banda brasileira chega às plataformas nesta sexta-feira (13)

Foto: Cred. Jorge Daux
Por Andressa Cerqueira e Vitória Roque.

A banda Detonautas se prepara para o lançamento de seu novo álbum de estúdio, intitulado “Rádio Love Nacional”! O projeto, que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira (13), mistura elementos de rock, pop, tecnobrega e batidas eletrônicas; além de trazer inspirações cinematográficas e de grandes obras da música brasileira, como a de Rita Lee.

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Com produção de Pablo Bispo e Ruxell, o trabalho apresenta 11 faixas inéditas, que representam uma mudança de sonoridade para o grupo. Entre os destaques do disco, estão músicas como “Potinho de Veneno” e “Vampira”, que conta com a participação de Milton Cunha.

Em entrevista recente ao Tracklist, o vocalista Tico Santa Cruz deu mais detalhes sobre a produção do álbum “Rádio Love Nacional”, a nova fase da carreira do Detonautas, entre outros assuntos. Confira a conversa abaixo!

Entrevista: Tico Santa Cruz, do Detonautas, fala sobre o álbum “Rádio Love Nacional” e mais

O Detonautas lança, agora, o seu nono álbum de estúdio, intitulado “Rádio Love Nacional”. O que esse trabalho representa para banda a nesse momento da carreira?

“A gente vai fazer essa audição, que vai ser aqui em São Paulo, no YouTube Space; e o lançamento oficial é nesta sexta-feira. E a gente está muito empolgado com esse disco, porque é uma virada de rota do Detonautas, mesmo, no sentido criativo. Desde o pós-pandemia, a gente vem fazendo uma sequência de turnês muito vitoriosas, com mais de 100 shows por ano. E, agora, a gente tem a perspectiva de um lançamento de músicas inéditas – de um novo repertório, com abordagens bem diferentes das anteriores, dos outros discos do Detonautas. Então, considero que é uma oportunidade para a banda de não só renovar o público, mas oferecer também aos fãs um trabalho de qualidade, bem feito, estruturado, consistente, criativo. E eu acho que isso pode trazer uma repercussão muito positiva para a banda”.

E esse disco mistura elementos de rock, pop, tecnobrega, eletrônica, e também é inspirado em obras como a de Rita Lee, né? Além da artista, o que mais te inspirou e inspirou esse disco, que você poderia contar para a gente de referência?

“Assim, a produção desse disco foi feita pelo Pablo Bispo e pelo Ruxell. E os dois são pessoas muito fundamentais na junção desses elementos que estão numa órbita um pouquinho mais distante do Detonautas, mas que a gente trouxe para perto, né? Então, os beats, essa coisa do tecnobrega, essa coisa do rock mais popular mesmo, no sentido de aprofundamento na cultura brasileira. Acho que todos esses elementos que a gente citou são frutos desse imaginário cultural que o Brasil tem, que é muito amplo, que vai do Norte ao Nordeste, com referências diferentes do Sul, Sudeste. E a gente foi beber um pouco dessas fontes do Brasil, e trouxemos para a nossa leitura como uma banda de rock que somos; e colocamos isso de forma que tenha a nossa identidade, nosso DNA”.

“Então quando eu falo da Rita [Lee], é porque ela foi o estalo dessa história por conta de ‘Potinho de Veneno’, que foi a primeira música que eu fiz; com produção também já é do Pablo e do Ruxell, e que acabou se desdobrando para todas essas outras canções. Tem referências de bandas das mais variadas. O que eu posso mencionar, por exemplo, é que quando a gente estava fazendo a pesquisa para ‘Potinho de Veneno’, a gente foi procurar lá na Gaby Amarantos, por exemplo, na galera lado do Pará, entendeu? Essas referências da batida do tecnobrega, esse som do Pará que mistura o pop com os elementos regionais, etc. Mas, ao mesmo tempo, a gente vai ter também uma música chamada ‘Dor Fantasma’, que vai beber lá no Reginaldo Rossi, lá naqueles artistas do brega do Nordeste”.

“E a gente flerta, também, com o indie internacional – como The Heavy, Alt-J, Empire of the Sun, MGMT. São bandas que talvez não sejam tão famosas porque são nichadas, mas que de alguma maneira nos inspiraram, também. Enfim, vários artistas, de alguma maneira, foram me dando referências para que eu pudesse também criar em cima de melodias, etc. E eu acho que, no passado, o Detonautas vinha com referências do rock brasileiro tradicional, das bandas clássicas de rock internacional. Então mudou muito a referência, e por isso que o disco é tão diferente”.

Mais cedo, você falou que esse projeto começou lá atrás durante a pandemia, ou seja, tem 6 anos, por mais incrível que pareça. Eu queria saber um pouco mais sobre essa parte dos bastidores. Você pode me dar mais detalhes desse processo criativo?

“Durante a pandemia, eu fiquei muito próximo do Pablo Bispo por conta daquele chat que tinha, o Clubhouse, que era um espaço onde as pessoas ficavam conversando e tinham vários grupos e salas, etc. E acabei conhecendo o Pablo nesse lugar. Ali, a gente começou a trocar sobre a possibilidade de algum dia fazer alguma coisa junto; fazer algum disco, alguma música, qualquer coisa. Quando acabou a pandemia, ali pelo final de 22, o Detonautas começou a preparar um projeto que era o ‘Detonautas Acústico – 20 Anos’. Nesse processo, como eu estava muito com violão, estava muito inserido ali naquele universo de estar sempre tocando, etc., coisas diferentes do que eu estava tocando na turnê antes da pandemia, eu acabei compondo a música ‘Potinho de Veneno’. Nessa mesma época, eu estava lendo a biografia da Rita Lee, e debrucei em cima da obra dela também”.

“Então eu acho que, dos bastidores, o que eu posso te falar é que o disco começa lá na pandemia, no momento que eu conheço o Pablo Bispo. Porque, quando eu procuro a pessoa que vai produzir essa primeira música, são esses caras: o Pablo e o Ruxell, que vão de certa forma canalizar esse sentimento de querer traduzir para um algo novo, para um formato novo, as músicas do Detonautas. E, dali, desdobra para essas canções que foram feitas em conjunto, ao longo de todo o processo de gravação do disco. Então eu acho que, assim, é até um pouco parecido com o começo do Detonautas mesmo, que foi quando a gente se conheceu pela internet. Só que dessa vez a internet já existe; mas ao mesmo tempo eu tive a oportunidade de conhecê-lo através de um chatbox, vamos dizer assim”.

E, além de “Potinho de Veneno”, um dos destaques do disco é a faixa “Vampira”, que traz a participação do Milton Cunha. Como surgiu essa colaboração e como você acha que essa música se encaixa ali no conceito geral do disco?

“A participação do Milton foi engraçada. Essa música tem essa narração que ele faz, e a gente estava procurando algum cantor, alguém que tivesse uma voz muito específica, peculiar, tipo Zé Ramalho, alguém que pudesse ter essa característica. E aí eu sugeri: ‘Pô, por que a gente não tenta fazer com o Milton Cunha’? Aí a galera achou muito bacana a ideia, mas também achou muito improvável”.

“Mas eu mandei uma mensagem no Instagram dele, e ele me respondeu algumas horas depois, no mesmo dia. Aí eu mandei a música, e ele adorou, porque ‘Vampira’ tem uma coisa alegórica, né, uma coisa ligada a carnaval, fantasia; embora ela esteja dialogando também ritmicamente com outros sons, outras referências. Mas ele adorou a ideia, adorou a letra da música, que é bastante psicodélica e, ao mesmo tempo, também fala de elementos da cultura brasileira. Mas enfim, no final das contas, ele gravou e ficou muito legal”.

E esse disco marca uma nova fase do Detonautas, que já tem quase 3 décadas de estrada, e é uma banda que tem uma marca cimentada na história do rock nacional. Mas eu queria saber como você espera que o público veja a banda e esse novo momento daqui para frente?

“A nossa expectativa é essa – de que o público entenda que o Detonautas é uma banda em movimento. A gente não está parado, não estamos esperando, necessariamente, uma aposentadoria e viver apenas do legado do que a gente conseguiu construir; que é muito importante, muito consistente. Já seria possível, hoje, o Detonautas não ter que gravar mais nenhum disco e viver só dos sucessos. A banda tem sucessos o suficiente para fazer shows onde todas as pessoas cantam do início até o final. Mas eu acho que a questão do movimento é muito importante, até para a própria saúde interna da banda. Então a expectativa é que os fãs entendam, compreendam, que eles se aprofundem. Que eles gostem das músicas e que, de alguma maneira, eles se identifiquem também com essa nova fase, porque as letras também são diferentes do que foi escrito no passado”.

“Isso gera ainda mais uma expectativa, e a gente sabe que toda expectativa pode gerar muita frustração, né? A gente tem a pretensão, digamos assim – e aí é uma pretensão estudada, mesmo -, no sentido de tentar dialogar também com o público mais jovem”.

“E aí eu falo dos adolescentes mesmo, de 15, 16 anos, que sempre foram a essência do rock, e que se desconectaram do rock porque o rock começou a aparecer com um discurso muito velho, né, muito conservador; no sentido dessa coisa chata geracional. Não tem nada a ver com política, é sobre: ‘Ah, o meu, o da minha época era mais legal, e o que está acontecendo agora é tudo uma porcaria’. Eu acho que isso é uma visão conservadora que o Detonautas está tentando desfazer, para poder mostrar para a galera jovem que a gente também consegue dialogar com eles, e que pode ser legal juntar coisas que eles estão fazendo, que são legais ao universo que a gente está estudando”.

Muito legal. Importante ter esse movimento no rock, porque eu sinto que, se não, em breve a gente não vai ter mais bandas como Detonautas, Fresno, e por aí vai, sabe? Muito legal. E o que você pode adiantar para a gente em termos de shows? Sei que vocês têm uma apresentação confirmada no João Rock de 2026, mas além de outros festivais. Mas o que o público pode esperar?

“A gente está preparando uma turnê que gira em cima da ideia desse disco novo – ou seja, vai trazer novos elementos para o show também, para o palco; em termos de cenografia, de luz. É uma construção que a gente vai fazer com uma experimentação ao vivo, também, até a gente conseguir encontrar esse formato – porque, ao contrário do que se faz lá fora, que às vezes a banda para, entra no galpão, e aí todo mundo faz o show, e aí monta tudo, etc.; aqui a gente tem que fazer uma dinâmica diferente, porque os shows continuam e a gente precisa continuar fazendo as turnês”.

“E as turnês são logisticamente muito complicadas às vezes, porque o Brasil é muito grande, né? Então, em um dia, você está no Sul, e no dia seguinte você está no Nordeste. Fica complicado, às vezes, de você parar para poder construir o show. Então o Detonautas tem essa tradição de construir enquanto vai fazendo os shows, e vai inserindo [elementos] até que a gente para, organiza e aí coloca o novo formato. Eu acredito que para o João Rock, por exemplo, a gente já vai estar com toda essa estrutura já bem organizada. Mas eu entendo que a gente deve conseguir isso antes do João Rock, né? Começar os shows com essa nova cenografia, etc. A partir de abril, maio, a gente já deve estar conseguindo se apresentar com uma estrutura mais bem organizada, já com com a turnê funcionando para esse lado do ‘Rádio Love'”.

Show! Bom, para encerrar, eu queria que você respondesse: por que que o público deve dar play em Rádio Love Nacional?

“Porque ali dentro está uma nova história de uma banda que, como você falou, tem quase 30 anos – completa 30 anos no ano que vem -, mas que está mais renovada do que jamais esteve antes. E a oportunidade de poder conferir e participar disso, é uma novidade. É fazer parte de uma parte importante da história de um artista que você gosta, é você conseguir estar junto com ele no começo. Porque depois que vai para o hype, aí vem um monte de gente também, o que é bom para caramba. Mas você, que deu play antes, vai ter visto antes isso acontecer”!


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