Entrevista: Joanah Flor fala sobre “Amor da Mata”, sua conexão com a ancestralidade e mais 

Ao Tracklist, a artista pernambucana detalhou o conceito do seu novo single

Juliana GomesEntrevistasMúsicaNotícias12 de dezembro de 2025

Foto: Divulgação

De Pernambuco para o mundo, Joanah Flor amplia sua presença na cena musical a partir das raízes afroindígenas, da força feminina e da defesa dos territórios tradicionais. Cantora, compositora, comunicadora e artivista de Olinda, a artista constrói há anos uma trajetória marcada pela integração entre música, memória e espiritualidade.

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Suas obras transformam vivências pessoais em narrativas sensíveis e politizadas, reafirmando sua voz como instrumento de identidade, resistência e conexão com o sagrado.

Seu novo single, “Amor da Mata”, aprofunda essa proposta estética. A faixa combina ritmos como maracatu rural, coco, mazuca e toques de terreiro com elementos contemporâneos, resultando em uma sonoridade que reforça o teor ancestral e ritualístico da composição. A canção, segundo Joanah, nasce de intuições espirituais e de sua relação direta com a Jurema Sagrada, tradição que atravessa sua vida e sua criação artística.

O lançamento é acompanhado por um clipe de caráter documental e poético, filmado entre Recife, Itamaracá e a Mata do Catucá. Em cena, ela incorpora diferentes versões de si mesma – em uma narrativa que reflete suas origens, sua fé e sua formação artística. O vídeo também reverencia Reis Malunguinho, líder quilombola e divindade da Jurema, figura essencial na espiritualidade da cantora.

Com “Amor da Mata”, Joanah reafirma seu compromisso com a preservação da memória ancestral, o fortalecimento do protagonismo feminino e a denúncia do racismo ambiental. O trabalho consolida sua estética, que articula elementos regionais e contemporâneos, e reforça sua presença crescente na música brasileira.

Em entrevista ao Tracklist, a artista detalha o conceito da faixa, comenta suas referências artísticas e espirituais e compartilha os próximos passos de sua carreira – incluindo novas faixas, um frevo colaborativo com mulheres instrumentistas e o aguardado álbum “Sereia da Maré”, previsto para 2026.

Confira a entrevista completa abaixo!

Joanah Flor fala sobre lançamento de “Amor da Mata” e mais

Para começar, como você está vivendo este momento de lançamento de “Amor da Mata”? O que significa compartilhar essa obra para o mundo?

Estou vivendo um momento de muita emoção com o lançamento de “Amor da Mata”, uma obra muito especial para mim, porque é uma música onde consigo me mostrar em várias dimensões, a mulher que resiste, a artista e a Juremeira. Essa música já vem emocionando muitas pessoas há alguns anos nos palcos. Agora, ela finalmente nasce também em um formato audiovisual documental, o que me permite partilhar esse grito de amor e resistência da nossa natureza e da nossa tradição com o mundo.

A Jurema Sagrada, desde o processo de colonização, resiste. E poder trazer essa história através da arte me dá uma sensação de grande responsabilidade, mas também de muita honra. Uso minha voz para lembrar dos que vieram antes e lutaram para manter esse sagrado, dos encantados, dos que sempre cuidaram de nossa terra.

A faixa é uma junção de elementos culturais e espirituais, certo? Como essa combinação tomou forma na canção? Houve algum momento de intuição, sonho ou vivência espiritual que tenha desencadeado a criação?

Sim. “Amor da Mata” une elementos culturais e espirituais porque, na minha vivência, essas dimensões caminham juntas. A música traz a força histórica e sagrada de Reis Malunguinho, líder quilombola e divindade da Jurema, e dialoga com ritmos e manifestações afro-indígenas de Pernambuco, como o maracatu rural, o coco e os caboclinhos e diversos ritmos da nossa cultura.

Na Jurema, o canto é a nossa forma de comunicação com os encantados, e essa presença atravessa naturalmente a canção. “Amor da Mata” nasceu desse lugar: de um processo intuitivo, rápido e profundamente inspirado pelos encantados e vivências na Jurema e na cultura popular.

“Amor da Mata” também funciona como um alerta ambiental. Qual mensagem você espera despertar no público?


“Amor da Mata” é um alerta ambiental porque nos lembra que somos parte da natureza. Destruir a mata é destruir a nós mesmos. A música chama atenção também para o racismo ambiental, que ameaça territórios sagrados e os povos ancestrais que sempre cuidaram deles.

Ela convida o público a reconhecer a natureza como um sagrado ancestral, que existe para além da religião. Cuidar desse território é honrar nossos ancestrais e, ao mesmo tempo, cuidar da nossa própria continuidade. Quando entendemos que somos água, somos terra, desenvolvemos outra forma de respeito com a natureza e com nós mesmos.

A faixa mistura referências da Zona da Mata Norte de Pernambuco, com maracatu, mazuca e toques de terreiro. Como você encontrou esse equilíbrio entre ancestralidade e contemporaneidade na produção musical?

O equilíbrio entre ancestralidade e contemporaneidade em “Amor da Mata” surgiu de forma muito natural, porque essa mistura já faz parte do meu trabalho. A percussão foi gravada por Henrique Falcão, pesquisador, juremeiro e meu irmão de Jurema, que trouxe para a música sua vivência e a ancestralidade da Zona da Mata Norte. Os toques, a mazuca e os ritmos tradicionais chegaram carregados dessa verdade.

A partir disso, unimos esses fundamentos a elementos mais contemporâneos, como a guitarra e o baixo, que dialogam com o universo urbano onde essa tradição também vive. A ideia é mostrar que, mesmo sendo ancestral, essa cultura está em constante renovação.

Esse equilíbrio não está só nos instrumentos, ele também aparece no meu canto e na minha interpretação, que trazem essa força orgânica da tradição, mas com uma expressividade muito atual. Foi assim que chegamos a essa sonoridade: respeitando o fundamento e deixando que ele conversasse com o presente.

Existe algum instrumento, ritmo ou detalhe sonoro da faixa com o qual você tem uma relação mais afetiva?

O instrumento ao qual tenho a relação mais afetiva em “Amor da Mata” é sem dúvida o maracá. Foi com ele que compus a música, e é ele que me acompanha nos palcos e também no Clipe, o maracá do meu caboclo Guerreiro de Ourorubá, encantado do povo Xukuru, com o qual trabalho na Jurema.

O maracá é um instrumento de força, de luta e de comunicação com os encantados: é com ele que chamamos, saudamos e nos conectamos ao sagrado. Por isso, ele atravessa toda a canção.

Outros instrumentos também carregam profundidade na faixa como o ilú, ligado a Malunguinho, e o bombinho de coco de engenho, que traz a memória dos senhores mestres. Já a guitarra aparece como esse grito contemporâneo de resistência, um contraponto que dialoga com o urbano.

Mas, de todos, o maracá é o coração da música, o primeiro som, o fio condutor e a força que sustenta “Amor da Mata”.

O clipe incorpora elementos documentais, simbólicos e sagrados. Quais foram suas principais referências visuais e estéticas nesse processo?

As referências do clipe nasceram das minhas próprias vivências na Jurema. Tudo o que aparece no audiovisual a mata, os elementos sagrados, a relação com a água e com o território vem do que eu já vivo espiritualmente, da ritualística e da minha caminhada dentro desse sagrado e da minha arte.

Havia um pré-roteiro, mas o clipe foi construído sobretudo de forma intuitiva. Ele nasceu da imersão no território e da disponibilidade de seguir o que a espiritualidade mostrava. A coincidência das filmagens com o Kipupa Malunguinho, na Mata do Catucá, também foi decisiva: eram os 20 anos do encontro e os 190 anos de Malunguinho, num território de memória e luta. Registramos ainda algumas ritualísticas minhas no terreiro, momentos que só foram possíveis porque houve permissão espiritual.

Tarcísio Boquady veio especialmente de Brasília para dirigiu o clipe comigo, ele não é da Jurema, mas chegou com uma sensibilidade muito profunda. Ele já acompanhava o meu trabalho com narrativas ancestrais também com as mulheres pescadoras marisqueiras, as lutas das mulheres e entendeu que tudo isso dialogava com a força da mata e do sagrado e assim nasceu as três dimensões da mulher. Ele somou o olhar artístico dele à minha vivência interna, respeitando o território e compreendendo que espiritualidade, ancestralidade e luta estão entrelaçadas.

O curioso foi que adoeci com uma arbovirose no primeiro dia de gravação, mas senti que a espiritualidade ajudou para que tudo pudesse acontecer. Os lugares se revelaram para nós; nada foi forçado. O clipe nasceu dessa entrega, da mata que chamou, do sagrado que permitiu e da verdade que já existia em mim.

Qual foi o momento mais marcante do processo de gravação ou filmagem?

Na gravação da música, vivi um momento muito especial. Gravamos em um estúdio no meio da mata, e havia um pé de jurema na entrada. Quando terminei de cantar, os vagalumes acenderam ao redor da jurema. E, enquanto eu interpretava a saudação de Malunguinho, um bando de anus pretos passou voando na janela, um sinal muito forte.

Nas filmagens do clipe, a emoção se repetiu em cada cena: no centro do Recife, no terreiro, na mata. Cada lugar trouxe uma revelação, uma surpresa e uma conexão profunda com o sagrado. O clipe é tão intenso justamente porque todos os instantes, sem exceção, foram vividos com verdade e presença.

Agora, falando sobre sua trajetória e identidade artística: a espiritualidade e a ancestralidade são pilares do seu trabalho. De que forma essas forças moldam sua criação?

A espiritualidade e a ancestralidade moldam minha criação porque são a minha verdade e o caminho por onde minha arte corre. Minha música é como um rio: atravessa territórios, banha histórias, corpos e vivências minhas, dos meus ancestrais e das mulheres com quem caminho como educadora e comunicadora. Nesse fluxo, ela carrega lutas, afetos, desejos memórias e temas que despertam identificação.

Eu me sinto esse rio que deságua no mangue território fértil, feminino, de útero e depois segue para o oceano, que é o mundo. A música me permite fazer o que muitas vezes outras pessoas não conseguem: chegar de forma sensível, lúdica e profunda. Essa é a minha conexão espiritual, usar a arte como ponte, como grito, reza e como narrativa viva.

Como tem sido, para você, se afirmar como artista afroindígena dentro da cena musical brasileira?

Antes de tudo, eu não me afirmo como artista afro-indígena. Sou filha de uma mãe solo maranhense, afro indígena, que me criou sozinha em Pernambuco. Minha ancestralidade, minha referência de luta e a base da minha formação vêm dela. Não tenho referências paterna, toda a minha construção de mundo nasce dessa linhagem feminina. Também sou uma pessoa da Jurema Sagrada, uma tradição afro-indígena que atravessa profundamente minha vida espiritual e minha arte.

Na cena musical, me afirmo como mulher nordestina e periférica, trazendo em minhas músicas as narrativas que me formaram: as lutas das mulheres, das trabalhadoras invisibilizadas, das pescadoras e marisqueiras, e a defesa da Jurema e da cultura popular.

Meu compromisso é tratar essas histórias com verdade, respeito e responsabilidade nunca como apropriação, mas como parte da minha origem, da minha vivência e do legado da mulher que me criou e de meus ancestrais.

Existe alguma parceria dos sonhos que você gostaria de realizar um dia?

Essa foi a pergunta mais difícil de todas. Imagino tantas pessoas incríveis que admiro trocando comigo. Sempre sonhei um feat com Tom Zé, já tenho até a música pronta pra isso, e a Liniker é uma deusa, que seria um sonho partilhar uma canção com ela.  

Para fechar: pode adiantar algum spoiler dos próximos passos? Há novos lançamentos, colaborações ou experimentações sonoras a caminho?

Vem muita coisa por aí, já estou na produção de “Fervo Mulher”, um frevo potente, com a participação de mulheres dos metais que também fazem o Carnaval acontecer pelas ruas. A música traz esse ferver feminino da gata selvagem das ladeiras de Olinda, o ferver, o fogo e o pertencimento de ser mulher.

Em seguida, lanço “Xamego e Xero”, onde canto o nosso chamego nordestino, do sotaque, da graça das mulheres pernambucanas. A faixa mistura xote, coco e batidas eletrônicas, e foi produzida em São Paulo pelo DJs Makô e Bruno Pedrosa.

E claro que não posso deixar de dizer que em 2026 apresento meu álbum “Sereia da Maré”, com os desdobramentos dessas histórias e sonoridades. O disco também terá um clipe documental contando um pouco da luta e encantamento das mulheres pescadoras marisqueiras e a pesca do aratú. O álbum será lançado em vinil pelo selo alemão Tropical Diaspora Records, com uma turnê nacional e internacional.

E para quem está conhecendo agora o seu som, qual mensagem você gostaria de deixar?

Escute o mangue que ecoa na minha voz. Esse mangue é útero feminino fértil, resistente, cheio de camadas, texturas e de histórias. Minha música atravessa muitos ritmos, do coco à ciranda, do frevo ao maracatu, do forró ao brega, do rock aos beats contemporâneos e cada canção abre um território diferente.

A minha voz carrega muitas vozes: de mulheres, de encantados, de territórios, de lutas, de amores e de sonhos. Se permita mergulhar nessas águas, elas te surpreendem, acolhem e pertencem a todos. 


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