Entrevista: Gaby Amarantos fala sobre The Town, Amazônia Live e mais

No centro das atenções de dois dos maiores festivais brasileiros de 2025 — The Town...

Foto: Reprodução/Instagram

No centro das atenções de dois dos maiores festivais brasileiros de 2025 — The Town e Amazônia Live —, Gaby Amarantos vive um dos momentos mais intensos e simbólicos da sua carreira. Em um ano marcado por conquistas profissionais e por uma perda pessoal profunda, a artista paraense fala com emoção sobre pertencimento, ancestralidade, resistência e sobre como a música tem sido sua principal forma de cura.

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Gaby não apenas canta nesses palcos. No Amazônia Live, ela é embaixadora da floresta e da cultura nortista, representando uma cena que, como ela mesma diz, está há muito tempo produzindo, mesmo sem o mesmo espaço de visibilidade. Já no The Town, ela sobe ao palco ao lado de Joelma, Dona Onete e Zaynara, num encontro inédito de gerações, linguagens e afetos vindos do Pará — com direito a homenagem à força das mulheres amazônidas.

Em entrevista ao Tracklist, Gaby falou sobre a emoção de dividir palco com Mariah Carey, deu spoilers do que vem por aí em sua carreira e abriu o coração sobre a perda recente do irmão. Entre memórias, risadas, açaí com pirão e declarações políticas embebidas de afeto, ela mostra por que sua voz vai além da música — e reverbera como grito, manifesto e legado. Confira!

Gaby Amarantos celebra o protagonismo nortista no The Town e no Amazônia Para Sempre

Gaby, esse ano você marca presença em dois festivais históricos: o retorno do The Town e a estreia do Amazônia Live. Qual foi o sentimento ao receber esses convites — especialmente sabendo que são palcos com tanto significado pra você e pra sua trajetória?

Recebi a notícia do mesmo jeito que quando fui indicada ao Grammy: fiz um escândalo! Gritei, chorei — sou muito emocionada. Tenho orgulho de ser uma cantora de technobrega que sente e demonstra. Estava com a minha família e comemorei muito, porque não é só a Gaby que sobe nesse palco: é a nossa cultura, a música da Amazônia, a música do Pará. O Pará é um celeiro musical potente, como uma floresta cheia de árvores gigantes. Me emociona estar com essas divas que eu amo tanto: Dona Onete, uma senhora com tanta vivacidade; Zaynara, super jovem e talentosa; Joelma, que nos recebe com tanto carinho. E eu trago esse outro viés da periferia, da aparelhagem, do tecnobrega, do rock doido. Sinto que estou vivendo um momento muito especial da minha vida — colhendo os frutos de muitos anos de luta.

No Amazônia Live, você não só canta — é embaixadora do projeto. O que esse papel representa pra você como artista, mulher nortista e filha da periferia de Belém?

É o reconhecimento de um protagonismo que a gente lutou muito para conquistar. Como embaixadora, quero receber o público com afeto e proporcionar uma imersão real na nossa floresta. A gente tem nossos desafios, mas é brasileiro, e a gente faz dar certo. Belém já está pulsando com o clima da COP. É uma honra mostrar ao mundo que o Norte tem muito a ensinar — e tem voz, sabor, arte. A gente vai fazer essa COP com um “molho diferente”: música potente, sabores únicos, açaí de verdade, nossa gastronomia, nosso tempero. Queremos que todo mundo entenda por que é essencial preservar essa floresta. E, mais do que isso, garantir que esse espaço e essa visibilidade permaneçam para nós artistas amazônidas mesmo depois que os holofotes forem embora.

Já no The Town, você divide o palco com vozes que, assim como você, representam o Norte com potência: Joelma, Dona Onete, Zaynara. O que esse encontro de gerações e linguagens diz pra você — como mulher amazônida e artista que vem abrindo caminhos há anos?

Esse encontro diz tudo sobre diversidade. A música do Pará é extremamente plural, mas muitas vezes tentam reduzir a gente a uma única representação. Nosso clima é diferente, nossa linguagem, nosso jeito de viver — é outro país quase! E é preciso tirar esse olhar sudestecêntrico das coisas. O Brasil só é completo com o Norte, com a Amazônia, com o Pará. Ter essas mulheres incríveis ao meu lado no palco é mostrar que a música brasileira é de fato brasileira quando inclui nossas vozes.

O que você pode adiantar do que estão preparando para o palco do The Town?

Vai ser um encontro inédito! Nunca estivemos juntas no mesmo palco antes. E, falando do The Town, somos convidadas da Joelma, então ela vai nos receber com sua banda e estrutura. Vamos cantar juntas, fazer números musicais que prometem emocionar o público. E o mais bonito é que vamos estar ali de igual pra igual, com muito amor, sem ego — mostrando a potência da cena paraense e da beleza da mulher amazônida.

E no Amazônia Live, vocês recebem ninguém menos que Mariah Carey. Como foi que essa diva entrou nesse encontro amazônico? Rolou alguma troca entre vocês até agora?

A Mariah é uma das maiores vozes do planeta, né? E vamos estar na maior floresta do planeta. Então é uma escolha muito certeira. A ideia é mostrar que o Pará está pronto pra receber artistas do mundo todo — e que temos vozes gigantes também, vozes do Brasil. Eu cresci ouvindo Mariah, amo a qualidade vocal dela. Já interagimos nas redes sociais, ela já curtiu comentários meus. Sempre brinco: “Vem embora pra Belém, Mariah, tomar açaí e ir na festa da aparelhagem!” O povo entra na brincadeira e marca ela também. Vai ser muito especial tê-la com a gente.

Esse festival, aliás, é uma resposta direta à crise climática e à luta por visibilidade do Norte. Que mensagem você quer que ecoe do palco pro mundo nesse show?

A principal mensagem é: pra cuidar da floresta, é preciso conhecê-la. Quando você escuta a nossa música, toma nosso açaí, mergulha nos nossos rios, você entende o valor real disso tudo. A música é a maior ferramenta que a gente tem pra engajar o mundo na luta pela preservação. Viva a música da periferia feita em Belém do Pará. Viva a Amazônia. Isso é música do Brasil.

Há cerca de um mês, você perdeu o seu irmão — e sentimos muito por isso. Você tem dito que a música é sua cura. Como é esse processo de transformar dor em arte sem se perder no caminho?

Eu acho que se perder no caminho faz parte. E é se perdendo que a gente se reencontra. Meu irmão vivia com diabetes há mais de 20 anos, sempre com um sorriso no rosto. Ele me ensinou muito — inclusive a cuidar mais de mim. Foi por causa dele que eu decidi mudar minha saúde, emagrecer 35 quilos pra continuar fazendo o que amo. Uma semana depois que ele partiu, fui ao show da Beyoncé em Paris, com ingressos que tinha comprado há seis meses. Ele sempre me dizia: “Não para tua vida por minha causa. Vai brilhar.” Então tudo que faço agora tem um sabor diferente. Me sinto mais forte, mais responsável pela minha família. E transformar dor em arte é o jeito mais bonito de seguir — com verdade, com essência.

E além dos festivais, o que mais vem aí? Vem disco novo? Colaborações? O que você já pode dividir com a gente?

Vem novidade no segundo semestre, sim! Mas, por enquanto, o que posso contar é sobre o “Charque da Gaby”, minha festa de aniversário, no dia 5 de agosto, em Belém. Vai ser uma prévia da COP, com uma imersão amazônica musical e cultural. Teremos Viviane Batidão, Zaynara, Dona Onete, Gang do Eletro, aparelhagem Crocodilo — um festival da música do Pará no Pará. E vamos mostrar tudo nas redes sociais, pra todo mundo mergulhar nesse igarapé com a gente.


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