Álbum já está disponível em todas as plataformas digitais

Na última terça-feira (18), Baco Exu do Blues deu o pontapé oficial em sua nova era musical com a estreia de “Hasos”, sucessor do EP “Fetiche”, lançado em junho de 2024.
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Depois de acender o primeiro sinal dessa nova fase com “Que eu sofra” — um single que já nasceu com a intensidade de um desabafo ritualístico — o artista baiano apresenta agora uma obra que abraça a dor, a responsabilidade e a cura com a mesma coragem que sempre guiou sua trajetória.
Em entrevista ao Tracklist, Baco mergulhou no conceito que sustenta o disco: um “terapeuta musical” que não conforta — confronta. Entre referências a Caravaggio, Rubem Alves e camadas profundas de sua própria história, “Hasos” se estrutura como uma jornada de perdão e autoanálise, onde a vulnerabilidade deixa de ser fraqueza para se transformar em ferramenta.
Ao longo do papo, o artista comentou as parcerias essenciais do projeto e refletiu sobre como o álbum revela um Baco mais consciente, mais responsável e, ao mesmo tempo, mais humano — alguém que renasce enquanto convida o público a fazer o mesmo.
“Hasos” é uma inscrição presente em uma pintura de Caravaggio, num pequeno detalhe. O que acontece é o seguinte: existe um autorretrato dele chamado “Davi e a Cabeça de Golias”. Nesse quadro, Caravaggio se pinta jovem — na época em que ele havia cometido dois assassinatos, em duelos de espada. Ele precisou fugir da cidade, porque colocaram um prêmio pela cabeça dele.
Anos depois, já renomado e cultuado pela Igreja e pelo império, ele pinta esse quadro onde aparece jovem, segurando a cabeça dele mesmo, já mais velho — com a idade que tinha naquele momento — e empunhando a espada, o instrumento do crime.
Se você se aproxima da imagem, vai ver que há alguns rasgos escritos na lâmina da espada, que formam um anagrama de uma frase em latim. Eu não sei pronunciar em latim, mas a tradução é: “A humildade mata o orgulho.”
E acho que, se fosse pra definir esse álbum, ele é exatamente isso: uma jornada de perdão. Esse é o grande conceito do disco.
Toda faixa que eu escrevo parte de uma vivência pessoal — pode não ser totalmente, mas alguma coisa ali é. “Que eu sofra” é engraçado porque eu acho que só quando o disco sair as pessoas vão entender, de fato, sobre o que eu tô falando.
Muita gente ligou a faixa a um relacionamento amoroso, mas talvez não seja isso. A arte é como cada um sente — não cabe a mim dizer o que ela é. Eu sei qual foi o sentimento que coloquei ali, mas o lugar em que eu estava quando criei é completamente diferente do que as pessoas acreditam.
Quem ouvir o álbum inteiro, com atenção, vai conseguir entender onde realmente estava a minha cabeça quando escrevi.
Eu tava vendo um vídeo do Rubem Alves — ele é uma das quatro grandes influências do disco — e ele fala algo que me marcou muito: “Ostra feliz não faz pérola”. Ele explica que, pra pérola existir, precisa haver um grão de areia dentro da ostra. Esse grão causa um desconforto enorme, uma agonia, uma necessidade de mudança. E é a partir dessa dor que nasce algo bonito.
Acho que o sofrimento é necessário. Toda forma de beleza precisa, de algum modo, de dor. É injusto — quando a gente fala assim, parece um mundo cruel —, mas é verdade. Se a gente não entende o que é dor e sofrimento, também não entende o que é alegria nem felicidade.
Esse disco demorou pra ser feito. Eu tive muito cuidado com tudo que existe nele — onde cada coisa se encaixa. No início, eu estava apegado à ideia de não ter nenhuma participação. Queria fazer tudo do meu jeito.
Mas no meio do processo percebi que, mesmo sendo meu, eu precisava de ajuda pra transmitir alguns sentimentos. A grande missão do álbum é que quem escute do começo ao fim sinta algo profundo — como se eu estivesse conversando com cada pessoa sobre algo muito específico da vida dela.
Pra criar essa sensação, era necessário mais de uma voz. Eu precisei admitir que não dava pra fazer tudo sozinho. E cada colaboração foi muito precisa: nenhuma está ali por conveniência ou amizade. Cada feat tem uma função emocional e sonora essencial.
Na verdade, eu pensei o disco como o próprio terapeuta. Normalmente, quando se fala de narrativa, a gente pensa no paciente. Mas esse disco está no outro lugar — é o terapeuta.
É aquele terapeuta que fala o que você precisa ouvir, não o que você quer. Não é o que termina a sessão dizendo: “Tudo bem, até semana que vem.” É o que te dá um choque de realidade e te deixa com vontade de dar um murro na cara dele e fala “maldito, nuca mais volto pra você”, mas que na outra semana você volta porque sabe que precisa. Esse é o papel do disco. Ele é essa figura que provoca e, ao mesmo tempo, acolhe.
A vontade de tocar as pessoas de verdade. Eu queria conversar com elas num lugar profundo. A gente vive um momento em que a busca pela felicidade virou quase uma religião — todo mundo quer estar feliz o tempo todo, e isso é assustador. É importante buscar felicidade, mas também é preciso entender que a vida não é só isso.
Voltando ao Rubem Alves, ele dizia que não acreditava em “felicidade”, e sim em “momentos de felicidade”. Acho isso lindo. E pra aproveitar esses momentos, você precisa encarar suas dores.
Se você não fala sobre elas, elas continuam ali, mesmo quando tudo parece bem. Então, o disco cria um espaço seguro pra quem escuta perceber que não está sozinho — pra se abrir, pra procurar terapia, pra conversar sobre o que dói de verdade.
Acho que um Baco responsável. Responsável pelos próprios atos e pela arte que coloca no mundo. Um Baco que entende a seriedade dos assuntos que aborda e sabe que precisa direcionar certas coisas.
Ontem mesmo, antes de lançar o making of de “Que eu sofra”, uma amiga me disse: “O vídeo tá perfeito, mas eu sou contra artistas explicarem a própria arte.” Eu também sempre fui — nunca gostei de explicar o que faço. Mas esse trabalho tem uma carga emocional tão forte que eu não posso deixar as pessoas sem direção. Eu preciso mostrar o caminho pra onde quero levá-las, pra que não acabem indo a lugares perigosos.
Se eu pudesse definir essa nova fase, diria que é sobre responsabilidade — com a arte e com quem a escuta.
Nem eu sei ao certo (risos). Eu tava completamente imerso no processo do disco. Acho que o primeiro momento de respiro vai ser depois do dia 18 — só então vou conseguir pensar no que vem depois.
Até aqui, tudo foi por esse disco. Então, agora é observar, entender, respirar… e ver o que a vida vai me mostrar.
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