Crítica: “Obsessão” transforma desejo romântico em pesadelo sobrenatural

Filme aposta em tensão e bons sustos para conduzir história sobre os perigos de querer controlar o amor

Foto: Reprodução/ Focus Features/ Universal Pictures

Por Victor Gabriel – Até onde alguém iria para transformar um amor platônico em algo real? Em “Obsessão”, filme de 2025 recém-lançado no Brasil, Bear (Michael Johnston) é um jovem romântico, meio perdido em suas próprias idealizações, que trabalha em uma loja de discos e nutre sentimentos por Nikki (Inde Navarrette)., sua amiga de infância. A vida dos dois muda quando ele encontra o misterioso “Salgueiro dos Desejos”, um brinquedo sobrenatural capaz de realizar um pedido de seu dono. Ao desejar conquistar o coração de Nikki, Bear consegue exatamente o que queria, mas logo percebe que certos desejos podem cobrar um preço muito mais sombrio do que parecem.

Atenção: a crítica pode conter spoilers

A direção de Curry Barker entende bem a atmosfera que a história pede. “Obsessão” trabalha com uma sensação constante de desconforto, como se algo estivesse sempre fora do lugar, mesmo nas cenas mais simples. O uso da luz e das sombras reforça essa estranheza, principalmente quando a personagem aparece ao fundo em momentos em que Bear está sozinho, criando a impressão de que a ameaça pode surgir de qualquer canto da cena.

Os sustos funcionam justamente por causa dessa preparação instável. A presença de Nikki, agora atravessada por esse encantamento, passa a contaminar os ambientes de forma inquietante. Muitas vezes, o perigo parece escondido nos detalhes da cena, criando “jumpscares” capazes de surpreender e tirar o público da cadeira em diversos momentos.

Leia também: Crítica: “Super Mario Galaxy” traz personagem em aventura mais livre

Crítica: “Obsessão” traz romance, controle e consequência

O ponto mais interessante do filme está na forma como ele transforma uma fantasia romântica em horror. Bear não pede apenas para ser amado; ele tenta interferir na vontade de outra pessoa. Mesmo quando Nikki deixa claro que aquela versão agressiva e possessiva não é realmente ela, o protagonista continua insistindo nesse desejo, levando a situação ao limite.

Aos poucos, “Obsessão” deixa evidente que o verdadeiro horror não está apenas no objeto amaldiçoado, mas na insistência de Bear em chamar de amor algo que nasce do controle.

A atuação de Inde Navarrette como Nikki também merece destaque. A atriz precisa transitar entre desejo, ameaça, vulnerabilidade e ausência de controle, sem deixar que a personagem vire apenas uma figura possuída pela maldição. É nela que boa parte do desconforto do filme se concentra, porque mesmo nos momentos mais violentos existe a sensação de que Nikki está presa a algo que não escolheu.

Depois de Amy Madigan ser reconhecida pelo Oscar por sua atuação como Gladys em “A Hora do Mal”, não seria estranho ver o terror novamente ganhando espaço nas premiações por uma performance fora da curva. Uma possível atenção para Navarrette ajudaria a reforçar que o caso de Madigan não foi isolado, mas parte de um movimento em que críticos e Academia começam a olhar com mais seriedade para atuações dentro do gênero.

Um pesadelo simples, mas eficiente

Mesmo sem complicar demais sua trama, “Obsessão” encontra bons caminhos para sustentar o medo. A história é direta, mas ganha força pela atmosfera, pela imprevisibilidade das cenas e pela maneira como transforma o romance idealizado em ameaça.

Se o terror muitas vezes parece preso às mesmas fórmulas, “Obsessão” surge como um exemplo interessante dessa nova geração de diretores que tenta levar o gênero para caminhos menos previsíveis. Com 96% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes, o filme mostra que ainda há espaço para histórias simples, estranhas e desconfortáveis quando existe uma atmosfera bem construída e uma ideia forte por trás dos sustos.

Últimas Notícias
Mais Lidas