Neste dia que incentiva a reflexão social e a ancestralidade afro-brasileira, o Portal Tracklist homenageia artistas e discos que debatem questões identitárias e sociais

Hoje, 20 de novembro, é o Dia Nacional da Consciência Negra. A data foi escolhida por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares – líder quilombola e símbolo de resistência negra contra o regime escravista. O feriado é dedicado à reflexão sobre o negro na sociedade brasileira e a ancestralidade africana. É necessário, também, abrir um debate sobre questões identitárias e sociais, que são atravessadas pelo combate ao racismo, desigualdade social, intolerância religiosa, discriminação e outros temas.
Portanto, o Tracklist lista sete álbuns de músicos pretos no Dia da Consciência Negra e que, de alguma forma, abordaram questões raciais em seus trabalhos, trazendo à tona a luta do movimento negro.
Por Allan César e Vitória Roque
“A carne mais barata do mercado é a carne negra”, já dizia Elza Soares na regravação da emblemática canção “A Carne” do seu aclamado disco “Do Cóccix Até o Pescoço” de 2002. Grande nome na luta contra o racismo ao longo de toda sua carreira, poderíamos colocar todos os discos da carioca aqui, mas um que aborda bem e com mais pluralidades o dia de hoje, é sem dúvidas o “Planeta Fome” de 2019. Elza traz no registro canções que vão de temas como o genocídio da população negra à desigualdade social.
Soares aborda o sofrimento de um povo que constantemente grita por mudanças e que sofre diariamente com as mazelas de um passado tenebroso. Neta de escravos, Elza sabe o que passou e no material explica que hoje esse lugar deve ser hoje de luta constante.
Fazendo uma analogia ao verso que inicia esse texto, Elza canta em uma das faixas do disco: “A carne mais barata do mercado não ‘tá mais de graça / O que não valia nada agora vale uma tonelada / A carne mais barata do mercado não ‘tá mais de graça / Não tem bala perdida, tem seu nome, é bala autografada”. Ela cantou a pedra aqui.
“Dona de mim” é o primeiro – e até o momento, único – álbum de estúdio de IZA. Lançado em 2018, o projeto traz uma preponderância de pop e R&B, que a carioca já carrega como marca, e amarra essas influências a uma variedade de gêneros. Navegando pelas faixas, o ouvinte pode identificar a presença de ritmos como eletrônica, reggae e elementos de MPB. Soma-se a essa mistura letras de empoderamento e autoconhecimento, além de participações de artistas como Rincon Sapiência e Carlinhos Brown. E é em canções como “Ginga” e o single que carrega o nome do disco, “Dona de mim”, que o trabalho alcança o ápice de seu potencial.
O primeiro título é uma colaboração com Rincon Sapiência, e é essencialmente uma música pop. Há, no entanto, fortes características brasileiras – a começar pelo nome: na capoeira, a ginga é um movimento que objetiva enganar o oponente. Além disso, a palavra é uma gíria que representa um certo modo de balançar o corpo, com destreza e desenvoltura. As temáticas se misturam na letra, que envolve mensagens como “Se entrou na roda, vai ter que jogar / Pra se manter de pé, ‘cê vai ter que dançar” e “Fé na sua mandinga, na roda e ginga”. A produção da música também apresenta sons de berimbau, que é um instrumento fundamental na capoeira.
Já a música “Dona de mim” mostra a cantora abraçando sua caminhada e identidade. A mensagem fica mais clara a partir do clipe da faixa, que mostra representações do cotidiano de mulheres negras. Em um formato visual, a artista aborda temas da negritude e do feminismo. IZA também canta frases como “Sempre fiquei quieta, agora vou falar / Se você tem boca, aprenda a usar” e “Já não me importa a sua opinião / O seu conceito não altera a minha visão”, frisando a questão identitária proposta. E essas pautas estão presentes por todo o álbum, sempre abordadas de maneira sutil, mas eficaz.
“Lemonade” é um dos álbuns para se ouvir no Dia da Consciência Negra e em todos os demais dias. O disco de 2016 marcou uma virada na carreira de uma das maiores artistas pop da história da música. Passeando por sons como R&B, reggae e country, “Lemonade” mostra a cantora em uma verdadeira declaração de consciência política. Nesse trabalho, Beyoncé traz reflexões sobre feminismo e negritude em um contexto estadunidense (e sulista); além de abordar relacionamentos e infidelidade através de uma experiência pessoal. E, por se tratar de um álbum visual, a narrativa apresentada é melhor ainda a partir dos clipes.
O projeto já mostra sua intenção a partir do próprio título: “Lemonade” é uma alusão a um costume dos escravos americanos, que acreditavam que tomar limonada embranqueceria suas peles. Ela também cita isso no poema que abre o clipe de “All Night”, quando repete uma receita que aprendeu com sua avó. Em “Don’t Hurt Yourself”, Beyoncé usa uma poderosa citação a Malcom X: “A mulher mais desrespeitada da América é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida da América é a mulher negra”, confrontando de forma direta essas questões sociais.
A cantora continua a passar sua mensagem através de 12 faixas originais. Em “Freedom”, ela se une a Kendrick Lamar para reafirmar a beleza negra. E, claro, o álbum traz “Formation”. O clipe, que foi eleito o melhor de todos os tempos pela revista Rolling Stone, é o epílogo do disco. Nessa faixa, Beyoncé amarra todos os tópicos com os quais ela lida no álbum, construindo uma obra extremamente relevante e sensível.
Mais didático e direto impossível, o rapper Emicida contextualiza, com rimas e melodias, a luta do movimento negro no Brasil no álbum ““Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa”, explorando a multiplicidade do rap e do hip-hop durante toda a obra.
Emicida vez uma verdadeira imersão no continente africano, trazendo seus ritmos, seu povo, sua história, mostrando como ela se funde com a do Brasil. Aqui tudo é visceral: alguns versos são como abraços, outros são como socos. Doem, e doem muito.
Um dos destaques do material é “Mandume”, nome de um rei angolano que resistiu bravamente às invasões europeias. “Eu quis fazer um som e usar essa história para afrontar essa coisa das pessoas terem uma certeza de onde é o lugar dos pretos. Ser arrogante mesmo. Responder a altura ao hábito comum de achar que enquanto os pretos estão calados, na miséria, tudo permanece no lugar certo. Não tem nada mais errado do que isso. Nosso lugar é onde a gente bem quiser e vão me enfrentar. Seja lá quem for, pode chegar e permanecer por ali”, conta Emicida.
“Refavela”, de 1977, é o segundo álbum da trilogia RE, que também inclui os álbuns “Refazenda”, de 1975, e “Realce”, de 1979. O projeto nasceu após uma viagem de Gilberto Gil a Lagos, na Nigéria. Lá, ele participou do 2º Festival Mundial de Arte e Cultura Negra. Ele foi influenciado por sonoridades de afrobeat, juju, reggae e funk americano. Além disso, o Movimento Black Rio e blocos de rua da Bahia como Ilé Ayê e Filhos de Gandhy, que objetivavam a reafricanização do carnaval, foram outras fontes de inspiração para o artista. O resultado da mistura é um álbum que revisita as raízes africanas do cantor, e as mescla com o contexto social do Brasil, que ainda vivia uma realidade formada pela ditadura militar.
Essas questões podem ser encontradas em canções como “Ilé Ayê”, que carrega o nome do bloco carnavalesco. Gil canta: “Branco, se você soubesse do valor que o preto tem / Tu tomava um banho de piche, branco, e ficava preto também / E não te ensino minha malandragem / Nem tampouco a minha malandragem”. E, em “Balafon”, o cantor, compositor e músico explicita a sua ancestralidade: “[…] Isso que a gente chama marimba tem na África, todo mesmo som / Isso que toca bem bem num lugar não lembro bem, chama-se balafon”.
Tão forte foi o impacto do álbum, que sua produção foi transformada em documentário. “Refavela 40” foi lançado em 2019, dirigido por Mini Kerti e distribuído pela HBO. O longa narra a gravação do trabalho e sua relevância social e cultural mesmo após décadas de lançamento. O filme chegou a ser indicado a um Emmy Internacional, provando, mais uma vez, a relevância do projeto de Gilberto Gil, o que faz de “Refavela” um dos grandes álbuns que promovem reflexão no Dia da Consciência Negra.
Assim como todos outros artistas citados nesse texto, Kendrick Lamar também prega constantemente contra racismo e foi difícil optar por apenas um de seus trabalhos para retratar álbuns para se ouvir no Dia da Consciência Negra.
Optou-se pelo icônico “To Pimp a Butterfly”. Lançado em 2015, o álbum vai em contrapartida ao que se espera de um disco tradicional de rap/hip-hop americano. Aqui tudo é sensível e Kendrick canta o quanto a sociedade brinca dualidade de visibilidade/invisibilidade do povo negro, contextualizada por décadas de segregação racial dentro e fora dos Estados Unidos.
O crescimento na periferia, a masculinidade tradicional sendo cultivada desde cedo, a falta de oportunidade, a sobrevivência e claro, o genocídio são temas abordados por Lamar no material. Faixas como “u” e “i” desmontaram bem esses temas.
“África Brasil”, lançado em 1976, é o décimo quarto álbum de estúdio de Jorge Ben Jor (na época, ainda Jorge Ben). O álbum foi criado em uma fase em que a carreira do cantor era mais influenciada pela mistura de samba e ritmos da música popular negra dos Estados Unidos (como soul e funk). Nesse sentido, seus trabalhos ajudaram a consolidar o que foi chamado de samba-rock. No disco, o artista junta essas influências a sons da música afro-brasileira – especialmente o samba e o ijexá. Os instrumentos de percussão como pandeiros e cuícas foram combinados à bateria, guitarra, baixo, saxofone e trompete; constituindo uma sonoridade única.
Através de 11 faixas, o projeto possui como temática principal a valorização da identidade negra. A iniciativa rendeu canções memoráveis, como “Xica da Silva”. Em estrofes como “Joias, roupas exóticas / Das Índias, Lisboa e Paris / A negra era obrigada a ser recebida / Como uma grande senhora”, a composição homenageia a emblemática personalidade do século 18. Em “África Brasil (Zumbi)”, Ben Jor faz uma alusão a Zumbi dos Palmares. Originalmente divulgada no álbum “A Tábua da Esmeralda”, de 1974, a música foi regravada e colocada no disco. “Pois aqui onde estão os homens / Dum lado, cana-de-açúcar, do outro lado, um imenso cafezal / Ao centro, senhores sentados / Vendo a colheita do algodão branco / Sendo colhidos por mãos negras”, diz a letra, em uma reprodução do cenário escravagista brasileiro.
Um exemplo da significância do projeto é o livro “África Brasil: Um Dia Jorge Ben Voou para Toda a Gente Ver”, de Kamille Viola, que destrincha a obra do artista carioca. A autora, depois de uma pesquisa de dez anos, busca traçar um perfil do músico, que através de versos diretos, consegue passar mensagens significantes e que perduram mesmo depois de décadas.
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