Desigualdade de gênero: mulheres recebem apenas 10% dos direitos autorais distribuídos

Pesquisa da União Brasileira de Compositores (UBC) evidencia a disparidade para as mulheres no setor musical

Soraia JoffelyNotícias10 de março de 2026

Foto: UBC

Após o Dia Internacional da Mulher no último domingo (8), a edição 2026 do estudo “Por Elas Que Fazem a Música”, da União Brasileira de Compositores (UBC), apresentou um cenário preocupante que reflete a desigualdade de gênero na indústria musical. O levantamento revela que as mulheres ainda recebem apenas 10% do total distribuído de direitos autorais no Brasil, um dado alarmante que expõe a estagnação na busca por equidade no setor.

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Na pesquisa, os números relativos a este ano mostram que de 100 maiores arrecadadores da UBC, apenas 11 são mulheres, evidenciando a baixa representatividade feminina no topo da cadeia de arrecadação. Ainda sim, a melhor colocação feminina avançou do 21º para o 16º lugar, indicando que, embora a presença ainda seja pequena, as mulheres que chegam ao topo possuem uma melhor posição.

Já na distribuição de renda entre as mulheres por categoria, observa-se que as autoras se destacam, concentrando 73% do total recebido pelas mulheres na UBC. No entanto, as versionistas e produtoras fonográficas registraram a menor participação, representando apenas 1% cada da arrecadação.

No caso das intérpretes, elas correspondem a 23% e as músicas executantes a 2%, demonstrando que, apesar de avanços em algumas frentes, a presença feminina ainda precisa ser fortalecida em diversas áreas do setor musical.

Fonte: UBC

Em relação à distribuição regional das associadas da UBC, o estudo mostra que Sudeste, Nordeste e Sul continuam concentrando a maior parte das mulheres na música, somando 88%. O Sudeste lidera com 60% das associadas, seguido pelo Nordeste (17%) e pelo Sul (11%). O Centro-Oeste aparece com 8%, enquanto a região Norte registra a menor participação, com apenas 3%.

O ano de 2025 também foi marcado por um aumento expressivo no cadastro de obras e fonogramas com participação feminina. O número de fonogramas registrados por produtoras fonográficas cresceu 13%, enquanto o de obras cadastradas por autoras e versionistas teve um aumento de 12%.

Quanto às fontes de arrecadação, os segmentos de Rádio e Show se destacaram como os mais lucrativos para as mulheres, representando cada um 17% da arrecadação total feminina. Em seguida, vem o crescimento do streaming de música, com 11%. No caso do Cinema, o setor obteve 0,5% da renda total das mulheres.

65% das mulheres afirmam ter sido alvo de assédio no mercado da música

“Um produtor de um grande festival do Nordeste, num comprimento passou a mão com vontade na minha cintura e subiu até o seio. Na hora fiquei sem reação. Meu companheiro viu a cena e ficou perplexo. Não me manifestei para não fechar uma porta, para que no momento oportuno, eu use a minha voz no palco”, contou uma profissional, que preferiu manter o anonimato.

O relato acima evidencia permanência de práticas misóginas e desigualdades que afetam diretamente a atuação e a segurança das mulheres. Para entender melhor esse cenário, a UBC realizou um levantamento digital com foco em assédio, discriminação e violência no mercado musical, com a participação de mais de 280 mulheres profissionais do setor.

No estudo, 65% relataram já ter vivido assédio no contexto profissional; com destaque para assédio sexual (74%), assédio verbal (63%) e assédio moral (56%); e 35% afirmaram ter enfrentado algum tipo de violência, sobretudo psicológica (72%), além de toque físico sem consentimento (58%) e violência verbal (38%).

Os relatos também evidenciam padrões de responsabilização e impactos na trajetória profissional. Para 96% das respondentes, homens foram os autores das situações vividas; 75% apontaram impacto emocional e metade (50%) disse ter se afastado de pessoas ou ambientes de trabalho. Ao mesmo tempo, 49% afirmaram não ter buscado apoio ou não ter compartilhado o ocorrido, sinalizando barreiras para denúncia e acolhimento. 

No recorte sobre discriminação, 63% das entrevistadas afirmaram ter sido ignoradas ou interrompidas em contextos profissionais, enquanto 59% relataram receber comentários que desqualificaram sua competência. Além disso, 57% disseram enfrentar maior cobrança para provar capacidade e 52% tiveram créditos omitidos ou minimizados. Os episódios de preconceito e barreiras são mais associados a ambientes como reuniões de negócio (45%), bastidores de shows (31%), passagem de som (27%) e processos de contratação e seleção de equipe (26%).

A pesquisa também aponta o impacto da maternidade na trajetória profissional: 60% das mulheres com filhos afirmam que a carreira foi afetada, principalmente pela redução de convites e oportunidades, menos viagens ou turnês e comentários preconceituosos sobre a dedicação à maternidade.

Entre as participantes, 45% se identificam como profissionais do mercado musical, 25% como compositoras, 22% como intérpretes e 8% como musicistas executantes. Do total, 37% atuam há 21 anos ou mais no setor. Em relação à renda, 55% têm a música como principal fonte de sustento, enquanto 29% não dependem da atividade musical como renda principal e 16% afirmam ter renda parcialmente vinculada à música.

Entidade tem mais 57% de postos de liderança ocupados por mulheres

Em busca do equilíbrio de gênero, a UBC tem se destacado como uma entidade comprometida com a equidade de gênero. Atualmente, 100% das filiais da entidade são gerenciadas por mulheres. Além disso, 59% da equipe é composta por mulheres, e elas ocupam 57% dos cargos de liderança. Em 2023, a organização deu um passo significativo ao eleger Paula Lima como sua primeira Diretora-Presidenta, reafirmando o compromisso com a valorização da liderança feminina e a busca por mudanças estruturais na indústria da música.


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