Apresentação terá homenagem a Elza Soares

Depois de três décadas de trajetória na música, Negra Li finalmente fará sua estreia no Lollapalooza Brasil. A rapper sobe ao palco do festival no dia 20 de março, levando ao público um show que celebra sua história no rap nacional e marca também um novo momento artístico em sua carreira.
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Em entrevista ao Tracklist, a artista falou sobre a expectativa para o festival, revelou detalhes da apresentação — que contará com repertório do disco lançado no ano passado, “O Silêncio Que Grita” — e refletiu sobre os desafios de se manter independente na indústria musical.
Pioneira na cena do hip-hop brasileiro, Negra Li também comentou a evolução do rap no país, a presença cada vez maior de mulheres no gênero e os desafios que ainda existem dentro de um mercado historicamente marcado por desigualdades. Confira!
Ai, eu fiquei muito feliz, sabe? Porque eu venho buscando isso, sabe? Buscando ser vista, ser notada. Eu já tive várias nuances na minha carreira, vários momentos, né? Já tive um momento no mainstream, já tive um momento com gravadora, com empresário, sem empresário.
Hoje eu sou independente, sou minha própria empresária — é por opção. Acho que a experiência me trouxe isso. Então é desafiador você ser uma artista independente no nosso país, principalmente sendo mulher, sendo negra, vindo de um estilo periférico. Fazendo um disco todo de rap, num momento em que você toca na ferida.
Então eu fiquei muito feliz, sinceramente, com esse convite. E eu já estou me preparando todos os dias para esse show.
Cara, eu vou dar ênfase no repertório do meu disco novo, “O Silêncio Que Grita”. Mas eu não posso deixar de lembrar os grandes sucessos da minha carreira. Então, sim, vai ter momentos ali em que eu posso passar pelos sucessos de uma forma um pouco mais rápida, dando um pedacinho de cada música — digamos assim, um pot-pourri especial.
Eu estou me preparando fisicamente também para ter uma performance diferenciada do que eu venho fazendo. Então vou ter dançarinos também, não muitos, mas vou ter. E vou fazer uma homenagem a uma grande cantora que está mais viva do que nunca, que é a Elza Soares. Apesar de ter deixado esse mundo materialmente, a arte dela está mais viva do que nunca. Então eu não posso deixar de dar esse spoiler, porque ela merece estar presente ali comigo, sabe? Me dando essa força.
Eu quero que elas compreendam a minha trajetória, a Negra Li como artista, sabe? O que eu juntei dessa minha experiência artisticamente em cima de um palco.
Você viu? [Risos]. Ah, no meu dia tem a Doechii, né? Acho que ela fecha o palco em que eu vou me apresentar. E Tyler, The Creator também é um show que eu queria assistir. E quando eu vou a festivais, eu gosto de me surpreender, porque sempre acabo conhecendo bandas e artistas que eu não conhecia ou que eu nunca vi ao vivo. Aí eu penso: “Cara, não imaginava que era tão bom, que legal ver essa pessoa no palco ao vivo”.
Eu adoro esse festival, tanto para assistir quanto para tocar. Eu sei que é desafiador, mas acho que é um ambiente muito bacana para uma pesquisa de campo, sabe? Então tem esses dois artistas porque têm a ver com o ritmo, com o rap, que é onde eu estou mais voltada neste momento. Mas eu quero assistir vários shows e me surpreender.
Eu acho que não tem como falar que não melhorou, né? Basta ver a quantidade de mulheres que estão atuantes, fazendo sucesso, sendo bem produzidas. É muito diferente de quando eu comecei. Eu fico muito feliz com isso. Mas acho que a gente ainda precisa avançar um pouquinho mais. Assim como eu acredito que em lugares de poder precisam ter mais pessoas pretas, eu também acho que precisam ter mais mulheres para tentar equilibrar as coisas.
Porque não é só porque a gente está vendo essas meninas ricas, milionárias, podendo trazer outras artistas e ajudar outras. Cada uma ali ainda precisa lutar muito para conquistar suas coisas e para permanecer. A gente ainda sofre muito dentro de estúdio, tendo que provar o tempo todo que sabe do que está falando para ser ouvida.
Então, visualmente pode parecer que mudou muito — que são muitas mulheres — mas a gente sabe que internamente ainda precisa avançar bastante. Só tendo pessoas que representem essas vozes nos lugares de poder, na produção, na direção, enfim, é que a gente vai ver uma mudança real.
Ainda existe muito essa questão de dois pesos e duas medidas. O que uma mulher faz e o que um homem faz ainda são avaliados de forma diferente. O que uma pessoa preta faz e o que uma pessoa branca faz também são avaliados de maneira diferente na nossa sociedade.
Então isso é um passo de formiguinha. Mas eu não posso deixar de dizer que melhorou — e que a gente também tem o que comemorar.
Eu acho que existe, sim, um espaço a ser preenchido — e a gente está preenchendo esses espaços. Hoje a gente vê rap em todos os lugares: em premiações, em festivais, em várias plataformas. Mas eu fico um pouco preocupada com quem está ali atrás definindo critérios e escolhas. Às vezes a “Negra Li” acaba ficando de fora de algumas coisas que têm a ver com rap, por critérios que eu pouco sei explicar.
Quando eu tinha 20 anos, quem me ouvia eram pessoas da minha idade. Era o auge da sua vida artística quando você está produzindo nessa fase. E existe também uma questão de etarismo, sabe? Mas artisticamente, com o disco que eu lancei em maio, eu sinto que é um trabalho que poderia ter um pouco mais de visibilidade e oportunidades.
É um trabalho que contribui para a sociedade, porque fala de muitas coisas que fazem refletir. Eu acho muito bacana quando existem letras de todos os tipos: de empoderamento feminino, de sensualidade. Mas também acho importante existir música que queira provocar mudanças na nossa sociedade.
Então às vezes eu fico um pouco triste quando vejo que esse tipo de conteúdo fica menos lembrado. Não estou falando só por mim. Eu estou olhando de fora, vendo a “Negra Li” como empresa, como projeto artístico. Eu gostaria que esse trabalho fosse um pouco mais mencionado, um pouco mais lembrado, porque é um conteúdo que está sendo produzido agora, não é algo do passado.
E é um trabalho independente, com participações incríveis como Linn da Quebrada, Gloria Groove e Djonga. Mas eu não falo isso com tristeza ou melancolia. É o jogo. Está tudo certo. É só uma observação de quem olha de fora. Eu acho que precisa existir um equilíbrio maior, para que não fique sempre na mesma panela, no mesmo estilo de instrumental, nas mesmas falas. Eu acho que dá para distribuir melhor.
Eu estou muito focada na minha música, na minha performance, e continuo estudando também. Estudo piano, estudo canto e várias outras coisas para continuar evoluindo cada vez mais. E vou seguir batendo nas portas para que venham mais convites como o do Lollapalooza, para ter espaço de levar minha arte para o maior número de pessoas possível. Então é isso: vou trabalhar bastante nesse sentido.
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